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INÊS MARTO

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O tabu cadeira-de-rodas

 
Hoje descobri a Robyn Lambird. Uma youtuber, actualmente com 20 anos, que também tem paralisia cerebral. Assim que vi este vídeo, percebi que isto era uma coisa de que eu tinha mesmo que falar. De facto, já há bastante tempo que queria discutir isto.
A verdade é que estamos no século XXI. E isto é um tabu tão socialmente enraizado que até foi preciso um vídeo para me trazer de volta à realidade, para voltar a aperceber-me que isto não devia mesmo estar a acontecer. Por isso é que não o fiz mais cedo. Fica-me debaixo da pele. É uma parte tal das nossas vidas que nos habituamos a isso, como se não houvesse nada de errado.
A Robyn foi um abre-olhos. Eu defendo muitas causas. Uma delas é o desmoronamento da ditadura da imagem corporal. E, por muito estranho que possa parecer, forçar-nos a que nos aproximemos fisicamente o mais possível daquilo que é convencionalmente tido como normal é tão corrosivo como toda a questão da invisibilidade e da pena.
Eu percebo. Supostamente o corpo humano foi feito para andar. Eu percebo, encaixava melhor no vosso conceito de ser saudável. Eu percebo, vocês pensam que estaria a viver a minha vida ao máximo. Se me permitem, contudo, um pequenino lembrete, é a MINHA vida, leram bem. E também é o meu corpo. Muito provavelmente, com quase 22 anos, conheço-o um bocadinho melhor eu. E mesmo que não conhecesse, continuava a ser o meu.
Parece que em tudo o resto, como ela diz, tudo se resume a qualidade de vida. Já neste caso, quase toda a gente tem que tentar com que façamos mais esforços, tentemos mais coisas. Não é que não aceitemos conselhos de quem quer que seja que saiba do que está a falar. Quer dizer, uma nova perspectiva sobre como tornar isto mais simples é sempre bem-vinda.
Mas é como se fôssemos máquinas a termos que ser arranjados. A termos que nos encaixar. A termos que corresponder a uma sociedade higienizada que ainda força aquilo a que chamam normalidade a toda a gente. De repente as pessoas acham-se no direito de chegar e dizer "não podes viver assim".
O que é que aconteceu ao "sê tu próprio"? O que é que aconteceu à liberdade individual de escolha? O que é que aconteceu ao deixar uma pessoa ser uma pessoa e não um conceito? Somos pessoas.
Todas as horas que passei a chorar, com dores, das cirurgias, dos alongamentos, das terapias... Há uma parte da minha infância que jamais terei de volta. E perdi-a a tentar tornar-me no que os outros entendiam como normal. Como melhor. Como sendo parte.
Não me arrependo de tudo. Algumas coisas deram-me capacidades que obviamente preciso, que de outra forma não teria alcançado, claro. Tê-lo-ia feito, na mesma, claro. Apenas o teria feito de forma diferente, se pudesse voltar atrás.
Não ia lutar por ideais de perfeição. Sobretudo ia lutar por uma vida. Que é o que faço agora.
E então, se for numa cadeira-de-rodas? Antes sobre rodas e com um sorriso, a aproveitar o caminho, do que andar durante 10 minutos e ter que voltar para casa. E se perdesse todos os progressos? Honestamente era um pesadelo. Mas ainda assim, eram na mesma o meu corpo e as minhas escolhas, desculpem a desilusão.
Conclusão: se calhar não precisamos de ser arranjados. Se calhar não temos que andar mais vezes. Se calhar não temos que tentar com mais força. Se calhar não temos que "mas ouve". Porque se calhar, a única coisa que temos mesmo é que viver da maneira que formos mais felizes.

 

Read in English

The wheelchair taboo

Today I discovered Robyn Lambird. A currently 20 year old youtuber who lives with cerebral palsy as well. As soon as I watched this video, I knew this was something I had to talk about. In fact, it is something I've wanted to discuss for quite a while.

Truth is, we are in the 21st century here. And this is such a socially embedded tabboo, I actually needed a video to snap me back to really as to how this really shouldn't be happening. This is why I didn't even discuss is sooner. It gets under my skin. It is such a part of our lives that we get used to it, as if it wasn't wrong.

Robyn was a wake-up call here honestly. I stand up for many social causes. One of them is the dictatorship of body image. And, as odd as it may seem, forcing is to present ourselves the most conventionally normal way possible is just as damaging as the whole pitty and invisibility situation.

I get it. Supposedly the human body was made for walking. I get it, it would fit your concept of being healthier. I get it, you'd think I'd live my life to the fullest. May I remind you, though, it is MY life, you read it right. It is my body too. Chances are, at almost 22 years old, I know it a tiny bit better than you. And even if I didn't, it would still be mine.

It seems that in what comes to everything else, like she says, it all comes down to life quality. In this case however, most people always try to make us push harder, try more. It's not that we won't take advice from whoever know what they're talking about. I mean, a new perspective about how to make this easier is always welcome.

It's like we are damaged machines having to be fixed. Having to fit in. Having to correspond to a society that still forces the so called normality upon everyone. Suddenly people feel entitled to come and tell us "You can't live like that.".

What happened to you do you? What happened to individual freedom of choice? What happened to letting a person be a person and not a concept? We are people. All the hours I spent crying in pain from surgeries, stretching, therapies... There is a part of my childhood I won't ever be able to get back. And I lost it trying to become what others percieved as normal. As better. As fitting.

I don't regret it all. Some of it gave me skills that I obviously need, that otherwise I wouldn't have achieved, of course. I'd still have done it, of course. I'd just have done it differently, if I could go back. I wouldn't strive for perfection. I would above all strive for life, which is what I currently do. So what if it is riding a wheelchair? I'd much rather ride it with a smile and enjoy the ride than walk for 10 minutes and have to go home. What if I'd lose all the progress? It would be honesly a nightmare. But it would still be my body, my choice, I'm sorry to disappoint.

Bottomline really is after all, maybe we don't need to be fixed. After all, maybe we don't have to walk more often. After all, maybe we don't have to try harder. After all, maybe we don't have to "but listen". Because after all, maybe all we have to do is live however we are happiest.

 

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