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INÊS MARTO

INÊS MARTO

Fora eu raiz

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Fora eu raiz

Para o que tenho de pássaros.

Fora eu carne e cicatriz

Para o que de mim são versos.

Terra que me albergue os lírios submersos.

Animal, instinto.

Solo, chão, primal, consciência.

Não-controlo, não-teorema, não-coerência.

Fora eu o contra-senso e a ousadia da ausência.

Buscar a minha fundura, revelação de horizonte.

Salto a fogueira e o abismo. Inspiro fundo.

Mergulho. Desfio-me o próprio mundo.

Sobrevivente coroada no tribunal do além.

Desenquadrada, ilimitada, amanhã serei liberta de tudo o que me contém.

Lamberei das minhas feridas

O sal que alada me ergueu

Eternamente aprendiz desse xadrez que sou eu.

Na ausência de mim

Na ausência de mim

Afloro ecos de vazio,

Corro como um rio,

Desenho as minhas desventuras,

Percorro os meus cansaços.

 

No embalo dos fantasmas

Sou erupção latente,

Sou mais água do que gente.

 

E no caudal que deixo

Que me recordem os olhos de mistério,

Pois se a morte nada pode

Hei-de ter no fim etéreo a minha libertação

De ter nascido para a vida derradeiro teorema de intangível solução.

 

No escuro sou essa sede

De encontrar o meu lugar,

Mas se a vida não me abraça

Resta-me sulcar caminhos apenas no navegar

E despontar num sorriso, mesmo em raiz de amargura

Pois neste rio indeciso

Sustém-me a minha loucura.

Dear myself: a letter of apology

Dear myself, I owe you…

I shattered the bottle on the wooden floor

My sloppy fingers couldn’t hold it anymore

Numbed away in a wine riptide

As I sit, as I fade, as I subside…

 

Dear myself, no tears are left in this slow motion…

Lost lucidity, washed emotion

My mouth has made a pact: liquid sedation,

Drowning myself, remain unfelt as a salvation

 

Dear myself, before I collapse,

I whispered all I couldn’t say into the glass

Dear myself, here’s my confession

Flooding the room, this spilled expression:

 

Dear myself, I owe you love

And a full gaze into my own abyss

And a kiss for every bullet, hit and miss

Of trying to finish you with no pitty,

Dear myself, I owe you dignity

And not just a mere plastic bag reputation,

A dysfunctional cage, lifetime incarceration.

 

Dear myself, I owe you time, I owe you space

For every dawn I stayed awake, wishing to self-erase

Dear myself, I owe you sorry, again and again

For my own hands against my throat wishing to die

For the self-hate, the self-harm, self-sabotage, self-muted-cry

 

Dear myself, I owe you understanding

I pushed you down, but you kept standing,

For all the scars I never saw as warrior spears

For all the flaws I kept hiding, unlived years

For all the times I never let myself shine through

Decades squeezing into forced normality world view

 

Dear myself, I owe you freedom and dreams came true

Dear myself I owe you gratitude, empowerment, I owe you,

Dear myself, an embracing lap to rest your head from my own violence,

And breaking free from my own ghosts, new world to breathe, new existence

A cosmic dance to fall in love like it should have been

A true restart, dear myself, reborn within.

Contrasting wolves

My body is a room full of ghosts
Its walls made of frail bones, cracked stones
Broken light rays hazing through the holes, made-up windows
Violet and green hues collide, neon existances side-by-side
Contrasting wolves fight for expression
In a crystal chamber of ressurection
Ever-changing shadows, they fill my soul
Daunting growls of fear echoe through my skull
My heart's an ever expanding bomb ready to collapse
Counting my final days by a stop-motion time-lapse
As I sit still hallucinating by the sea
The wolves, they fuse themselves psychadelically
In the dark room of dispair, their sillouettes embrace
Ether floods the air, body seizes, there's no place
Nowhere, no clocks, seizure of shattered bones and rocks
The void of materiality bursts finally
Violet and green they set me free

Circo de pedra

Há dentro de mim ruínas invisíveis. Ossos do ofício de me desmoronar como um trago para essa sede maior. Coliseus devolutos do circo de feras de pedra que me dançam na cabeça.
Saltas o muro. Não te afligem os destroços. Caminhas no meu abandono como palma da tua mão. Apanhas do chão as pedras caídas do meu trilho. As que se fizeram cicatrizes insolúveis.
Olhas-te ao espelho partido que sobreviveu à erosão. Toca-lo. Revês-te. Fundes-te. Mostras-me as estátuas do teu circo. Ambas cobertas do pó e do musgo de que se faz a solidão.
Na tua alquimia de ser humana, fazes das minhas pedras perdidas bolas de sabão entre os teus dedos. Agarras-me. Envolves-me. Sem dizeres mais, jogamos de caras no mesmo tabuleiro de contrastes.
Ensinas-me o xadrez de estar viva. Descobres-me o mundo por dentro dos olhos, descobres-me a vida por dentro da pele, descobres-me o perfume por dentro da alma.
Passeias na minha distopia como uma primavera sem relógios. Vais-me tacteando as peças.
A tua distopia é uma praia rochosa. A minha um antro de anseios caído aos céus. Sento-me escondida entre as tuas rochas. Observo-te o mar. Absorvo-te. Aprendo-te. Temos a pedra em comum.
Ao sabor do nosso vento, há um jardim junto ao mar onde se plantam as estátuas da nossa fraqueza. Erguer um trono ao vulnerável, torná-lo fogo a céu aberto: esse é o nosso acto de amor.
No nosso circo de pedra, só esperamos uma coisa: verdade. Já tenho onde cair viva.

Debruada a pérolas

Visitas-me o vácuo remanescente da condensação involuntária que se fez em mim.
Pisas com passos cautelosos de silêncio o chão de mim, feito de restos de tempestade. E no sentir-te chegar sobre a madeira do meu quarto desamparado fazes suscitar mais vida e mais tamanho.
Fazes-te música ao ouvido das minhas ânsias. Agigantas-te em mim, como uma onda tatuada na clavícula trave-mestra da minha solidão. Puxas de mim fios que entrelaças nos teus. Dos meus olhos sobram lágrimas escondidas para que nunca mais acabes.
Dou-te a pele inexplorada, a que só tocaram os meus desgostos.
E, na tua trascendência, fazes do meu limiar a janela destrancada por onde me vês como gostava de ser. A voz de terra que se incendeia forma em mim balões dissolúveis, convidas-me a  percorrer-me sem latitudes.
Observo-te, escudada entre o corpo e o precipício que o separa de quem sou. Do teu porte gostava de saber fazer desenhos, como os pinto mentalmente. Bebo taças da tua visceralidade debruada a pérolas, escondida nos cantos mal iluminados de mim.
Toco-te. Faz-se mundo. Tento respirar. Deixo que me invadas. Preenches a queda entre o nevoeiro onde me habito e a verdade.
Desamarro as cordas. Há consonância na voltagem dos nossos tempos-sonhos. Deixo que me inunde a tempestade que  trazes contigo.
Descubro novas paredes à minha casa devoluta. Encostas-te a elas, deixas-te sentar no chão. Acompanho-te. Traço-te e acaricio-te as raízes, no longe de onde venho. No fim do mar abraçam-se. No fim do mar somos mais.

Deserto verde

Amanhecer e um deserto verde. Luminosidade expansiva perpétua flui pelo tecto do nada. Árvores retorcidas ásperas espalhadas à toa. O ensurdecer do pensamento. Prédios de néon transbordam o desvanecer da noite. Viagens incessantes. Estradas fora. Rumos sem fim perante os olhos que se deixam ultrapassar parados. Gente desenfreada e um deserto verde.
Ao fundo, o vulto branco de arder gaseificado luminoso torna-se silhueta de um rapazinho sem nome. Lá nas colinas do deserto verde, do outro lado da estrada. Talvez o rapazinho sem nome que gostava de ter sido. Da árvore mais pequena e menos longe dos olhos faz sem pudores um varão.
Do corpo etéreo fundem-se a roupa e o nu, a superfície e o núcleo: é feito do cíclico aflorar de essências e pulsões, do resto quase nada importa. Passa a ponta dos dedos e o sexo pela aspereza do tronco, olha-me destemido. Passa a língua lenta pelos lábios, sem que se lhe note rasto.
Sem desviar os olhos, toca todas as árvores pelo caminho, varões da infindável noite de que faz coroa de existir, e que faz espelhar aos poucos - talvez nenhuns - que o conseguem ver.
Salta o muro com as pernas sedutoras. O vulto luminoso - rapazinho branco - define-se aos poucos. O contínuo aflorar define-se em forma-corpo, múltiplo. Atravessa a estrada sem olhar, imune às prisões mundanas.
Caminha como quem continua a dançar. Ao fundo permanece o deserto verde. Estende-me a mão como quem seria capaz de me tocar - definem-se os dedos, funde-se comigo por segundos - Abraça-me as costas - definem-se os braços, aquece-me como se fosse verdade - permanece sem cara, permanece sem imposições, permanece caleidoscópio do que quer que queira ser. Rapazinho branco permanece livre, metafísico, meta-sexo. Encosta a cara no meu ombro, sinto-lhe a barba - que naquele momento lhe apetece ter - segreda-me ao ouvido: Bernardo. E esvai-se. Sobra amanhecer e o deserto verde onde habita, mas só quando lhe apetece.

Subterfúgio

Ultrapassemos a estranheza dos corpos. Saibamos a detalhe as nossas unhas e o eco dos corpos fundidos um no outro. Façamos da boca pares de pétalas cadentes com que celebramos a reciprocidade da noite.
O tempo externo teima em ser câmara lenta e os teus dedos tecem-me bordados inéditos por dentro dos órgãos, contorcidos na gastrite de ser só. Cola em mim a electricidade que trazes nos olhos, não desfaças, espalma contra os limites do meu existir os teus suspiros feitos vapor contra a madrugada branca da minha pele nua.
Suprime os passos na areia grossa, passa o sal pelos cabelos e passeia o desenho fluido do teu corpo na contra-luz da alvorada, de encontro à espuma rarefeita do mar onde costumamos vir para despejar segredos, no permanente vaivém das ondas que um dia gostava que me levassem para longe.
E ainda que não existas, não me negues a eterna quimera de um sonho, caminha comigo, com os dedos frágeis cortados contra as rochas de braços abertos e de peito livre. Ainda que não existas, ultrapassemos os horizontes da carne. Ainda que não existas, faz-te cinza e que do queimares-te se levante ar quente, que se erga aos céus e se faça o meu perfume. Consome-me. Ainda que não existas, por-te-ei no pescoço e atrás das orelhas e esfregar-te-ei, na fricção de ambos os pulsos onde gostava que pudesses vir dar beijos, como que promessas que não te abandono na terra dos vivos.
Ultrapassemos a estranheza dos corpos. Porque ainda que não existas, talvez seja a nossa inexistência o subterfúgio onde me reanimo melhor.

Contra-senso-vício

O silêncio de mim grita. Gostava que a minha cabeça tivesse um gravador. Não me apetece a fisicalidade de escrever, nem o som das teclas, nem sei daquele caderno, o epitáfio gigante dos meus dias que não revelo a ninguém.
Resigno-me, que remédio. Estou cansado deste ecrã, não mais que da minha própria cabeça e da voz dela: esse misto de resíduos secos de tabaco e tragos de cerveja quente, que não tem nome, que não tem olhos, que tem a cadência mais rápida do que os meus dedos.
Imagino-te na cadeira vazia onde te eternizei quando estiveste, porque fui menos sozinho. Porque não me apetece ser sozinho, não hoje e não agora. O silêncio de mim grita, dizia.
Tenho cigarras que não se calam cá dentro, apetecia-me embebedá-las com o Porto barato do fundo do armário. Não me apetece beber sozinho.
Finjo-me vivo. Despejo o tempo para fora das pálpebras. Não estou a aguentar qualquer tipo de som, porque me lembra que existo. Salva-me a música, que me é neutra pela raiz.
Tenho, contudo, que a recusar por hora, para que me afunde. Porque sem chegar ao fundo de mim não me torno a encontrar a superfície.
Este estado de desencontro é um contra-senso-vício onde tenho que - mas não aguento - estar. Será na infindável procura sem solução que me descubro, pela precisa impossibilidade de me descobrir? Será esse o catalisador de reinvenções de mim próprio, aquilo que me impele a continuar caminho, revelando-se a cada passo imprevisível e sem margem de manobra?
O silêncio de mim grita, enquanto caio no permanente abismo como sede intravenosa. A lucidez é um assombro. Exploro os incessantes padrões de luz fluorescente que trago dentro dos olhos fechados, procuro-lhes sentido como método de permanecer em queda lenta. Anseio a vertigem e o sufoco pela libertação dela: essa luta mantém-me vivo.
Ardo-me. Procuro fotogramas de ti nos milímetros da queda, de todas as solidões acompanhadas que são pesadelos em forma de multidão, a tua parece saber-me bem.
O silêncio de mim grita. Acordo-me para continuar os dias.

(Des)digo

Cai cinza na superfície estagnada das minhas sinapses liquefeitas. Assenta disforme provocando embriagados desígnios tribais de uma chuva irrepetível. No rio que sou dissolve-se a poeira do teu existir. O meu sangue coagula-se perante a tua invasão, que me deixa o corpo tolhido, mas que ainda assim sabe bem.
Olhei-me há pouco ao espelho, como quem procura a verdade no fundo inatingível dos olhos tristes, não me (te) encontrei. Privo-me por sistema de acreditar na tua permanência, como um leopardo com farpas espetadas nas manchas da pele, a fugir ao toque.
Observo a minha essência esfumar-se diante de um reflexo que não reconheço. O exterior torna-se câmara lenta e difusa. A tua invasão revela-se agulhas quentes na nuca que quero mas não quero apagar. O meu ritual de destilar-me em texto é interrompido pela existência psíquica de ti. Agitas-me as águas. Quero mas não quero que te vás embora. Quero mas não quero que me arranques a carne. Quero mas não quero que me consumas sem dó. Quero mas não quero que me queimes as imposições quotidianas.
(Des)digo o "mas", se me tocares com o indicador nos lábios e me fechares os olhos de tal forma que acredite que, desta vez, não és ave que só vem na primavera, sem chegar a pousar as malas na brancura do meu peito.
O pior disto foi sempre o ter que te inventar em nomes e olhares incertos, em cabides de peles fugidias - quanto mais melhor - porque se ficasses arriscavas despir-me de mim... E depois do mergulho o que restava? Nada. E depois da corrida o que restava? Nada. E depois de me tornares as águas baças com o teu pó de astro inconstante, o que restava? Nada. Um fundo de olhos triste onde não me (te) conseguiria encontrar, outra vez.
Deito-te a cabeça sobre a mesa, desligo-te o autómato de estares viva. Queria só que me olhasses nos olhos. Que a falta de haver o que dizermos, por uma vez, dissesse tudo. Mandasse às urtigas as úlceras que tenho no estômago e as peladas escondidas que não deixo ninguém ver, culpa das noites sem dormir porque não havia a certeza disto: de que, um dia, o nosso silêncio havia de dizer tudo.
Desfaço a pele aos pedaços e convido a que me habites sem porta de saída. Mas fecho os olhos, as pálpebras convulsionam.
Cai cinza do teu cigarro e o tempo não passa, a realidade também não, acumulo nos cantos do amor-que-não-sei-se-queres coisas que tinha para (mas nunca te posso) dizer. À tona de mim ficam decalques dos anjos que desenhámos deitadas, ao relento em noites sem nome nem realidade.
Cai cinza. Quero mas não quero. Fica.