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INÊS MARTO

INÊS MARTO

Neutralidade legitima opressão

"A mim o que me apaixona é a inteligência: intelectual, emocional, intuitiva, humana, mística, existencial.

Só que a inteligência é inerentemente reivindicativa e posicionada. A inteligência não é capaz de se adormecer nem de se cegar a si mesma, para compactuar com os lugares de conforto.

Essa mesmice que vai no mundo é um sufoco.

A quantidade de pessoas que encolhem os ombros perante as injustiças diárias que presenciam é aterradora. Alegam neutralidade, esquecendo-se, ou não se querendo lembrar, que essa passividade, não contrapondo o opressor, é complacente com ele e legitima-o.

Não, não é possível estar do lado das vítimas enquanto se bebe chá com quem as põe nesse lugar.

É essa cobardia que, sendo assustadoramente substancial, passa impávida e serena pela falta de humanidade que existe neste mundo e lhe permite continuar a existir.

O sistema começa no indivíduo. O colectivo é simultâneamente reflexo e reflector do individual. Cada vez que fecham os olhos às opressões do dia-a-dia, vocês são cúmplices.

Leiam outra vez: Vocês. São. Cúmplices.

A neutralidade face à opressão é um pano roto que a cobardia inventou para se tapar. E não são os likes nem as partilhas dos posts que vos absolvem a consciência, esse é outro pano roto.

Antes que deixem de me ler aqueles que se assustam ou se entediam com a política, este texto não é sobre política, é sobre humanismo. Se política e humanismo não são a mesma coisa, talvez o problema comece por aí.

O sistema vigente, superlativo e intocável, é uma tortura diária. A vigência supremacista do enraizado normativo, patriarcal, misógino, cishetero, capacitista, racista, conservador e classicista - não é opinião nem é política, é matança - também é culpa da vossa tão querida e confortável neutralidade.

Só não sei se é falta de inteligência, ou recusa consciente da mesma.

Seja como for, deixei de ter tempo e espaço na vida para outra coisa que não o amor."

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#humanismo #opressão #neutralidade #política #opression #neutrality #politics #violence #direitosiguais #lgbtqiaplus #lgbtcommunity #deficiencia #disability #igualdade #equalrights #equality #racism #racismo #sexismo #sexism #capacitismo #ableism #humanidade

Há que ruir a supremacia cisheteronormativa!

A invisibilização da comunidade LGBTQIA+, das pessoas com deficiência, das pessoas racializadas, é propositada, sim!

A desigualdade de oportunidades é propositada, sim!

A inclusão ainda é uma bandeira que o sistema cisheteronormativo, misógino e patriarcal levanta quando lhe convém ficar bonito ou ser mais exótico.

O reconhecimento da pluralidade ameaça-lhes os alicerces bafientos das estruturas de poder.

A nossa luta só acaba quando ruir a supremacia!

Enquanto este povo não tirar o pó aos cantos do cérebro (sim, quadrado) e tiver até um certo orgulho na pequenez de espírito, será assim.

Há que contrariar esta invisibilização propositada na sociedade em geral, que é tristemente tão eficaz que, até muitas vezes dentro da(s) comunidade(s), se torna difícil descobrirmo-nos umes aes outres. Isso precisa de mudar.

Quanto mais nos tentarem apagar sistemática e sistemicamente, mais teremos de nos fazer ouvir, ver, ler, reconhecer e ocupar. Queiram ou não queiram.

Um dia, não serão mais eles, os opressores, a ter poder de escolha sobre a nossa existência. E o quanto lhes dói o medo desse dia... É por isso que se incomodam tanto.

Pontapé na porta. O mundo não se fez aos quadrados, (não) temos pena.

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#representatividade #direitosiguais #deixemnosexistir #lgbt #lgbtqia #lgbtqiaplus #lgbtcommunity #lgbtqiapride #deficiencia #disability #igualdade #equalrights #equality

O poder do feminino: transformismo, um eco de alma


Há coisas em nós que não se conseguem explicar nem com dois dedos de conversa, nem com meia dúzia de páginas de texto. O efeito lunar que o poder do feminino tem em mim é uma delas. E o pináculo disso, para mim, está no transformismo, por ser uma ode à mulher.
Não me esqueço tão depressa da última noite. É virtualmente impossível ser amante do transformismo neste país e não cruzar amores com a Deborah Kristall (Fernando Santos), a figura máxima actual deste panorama. Sorte das sortes, uma porta leva à outra. Neste caso, o corredor de portas foi circular.
O fascínio levou-me à Gala Abraço 2016. O André E. Teodósio tinha-me levado a Valentim de Barros. Também levou o José Raposo, que foi júri na Gala. Um ano depois, estava a subir ao palco, na Gala Abraço 2017, por um texto sobre Valentim de Barros, pelo José Raposo. Direcção Artística? Fernando Santos.



Demasiada coincidência? Há mais. A Gala Abraço trouxe-me o Paulo Monteiro e o dezanove... foi uma questão de juntar as peças. A noite passada o dezanove fez com que voltasse ao Finalmente, onde tinha ido só uma vez, e desejado ser transparente para poder ficar lá a absorver tudo aquilo.
Abençoada entrevista, abençoado regresso. Como o mundo dá voltas... Como é que isto tudo aconteceu? É cíclico, o meu voltar a pesquisar coisas sobre este mundo, há pouca coisa, mas nunca se sabe se alguém deixou sair mais um pedacinho de magia a público.
Via uma das entrevistas mais recentes do Fernando Santos, quando me vieram intuitivamente à cabeça perguntas que um dia lhe faria, se pudesse. Escrevi-as, porque... bem, porque não se perde nada... estava longe de imaginar é que ia ganhar tanto.
Tive um rasgo qualquer de desfaçatez, mandei as perguntas ao Paulo Monteiro. A próxima coisa que sei é que estava à porta do Finalmente, de salto alto sobre rodas, e as perguntas iam ser feitas. O que eles não sabem, nem quase ninguém, é como tudo isto (passo o duplo absurdo) é como caminhar sobre nuvens.
Vem de há muito tempo, o amor ao transformismo. Nem sabia o que era transformismo. Tinha visto uma reportagem da "Gaiola das Loucas" de Filipe La Féria, na televisão. A Zazá do José Raposo havia-de vir a ser muito mais  do que imaginava. Explica-se essa parte da história pelo texto que leu o José Raposo no lançamento do meu livro Combustão, em Março de 2017 (sim, mais uma das portas do meu corredor circular de coincidências felizes):
 
 
A Inês de 14 anos não sabia o que era transformismo. A Inês de 14 anos viu, absorveu, amou. A Inês de 14 anos sabia estar ali uma das peças da sua verdade, que não sabia como agarrar. Cresci em Fátima. Não se falava "destas coisas", lá. Ainda hoje não se fala.
Não sabia que havia espectáculos dedicados à arte do feminino, sabia só que qualquer coisa, nesse exacerbar por um lado e nesse contraste por outro (a androginia é outro estímulo), chamava por mim.
Descobri pela televisão que havia, algures lá longe em Lisboa, um lugar chamado Finalmente onde havia espectáculos assim. Não imaginava sequer que se pudesse pagar e entrar. Tinha para mim a ideia de um lugar de secretismo inatingível. E ninguém a quem perguntar.
Cada vez que tinha a oportunidade de ir a Lisboa, de fugida, pedia para passar pelas zonas onde se dizia, muito poucas vezes e em surdina, onde elas (travestis/crossdressers) costumavam estar mais vezes. Olhava pelo vidro do carro, e queria ficar ali, na esperança que me aparecesse uma Zazá emplumada... A fluidez de género ainda era um mistério. Já a sentia, só não sabia que existia pela rua livremente e de modo quotidiano.
Cheguei a Lisboa para ficar, finalmente. Mudança das mudanças. Cruzei-me com amigos com esse mundo por casa. E eu sempre na concha. Sempre no medo, sempre no pano de fundo de onde vinha, do inatingível que isso era, do nem se fazer perguntas. Mas sempre com os olhos brilhantes a cada migalha de descoberta.
Fui aprendendo da história do transformismo enquanto espectáculo o pouco que encontrava sem referências nenhumas.
Não sei onde cheguei ao nome Deborah Kristall. Sei que se abriu mundo. Achava mais que óbvio, ainda assim, que não poderia lá chegar, ver por mim. Era assunto para tirar da cabeça. O difícil era conseguir.
E de repente a Gala Abraço, um "Tenho que ir!" mais forte que tudo. Ainda não tinha entrado no S. Luiz quando vi, pela primeira vez aquilo era verdade. Faltou-me o ar como falta a uma criança a dar de caras com uma princesa da Disney.
Finda a noite sabia que tinha encontrado uma das peças que me faltavam há tanto tempo. E tinha a certeza e a vontade assoberbante de fazer parte desse mundo. Só não sabia como.
É aí que se fecha pelo menos esta parte do círculo: Valentim de Barros, José Raposo, a semente lançada.
No ano seguinte a concretização. E com a concretização uma porta aberta para o mundo às cores. Com a porta aberta, o dezanove. E com o dezanove, a maior coroa de glória: afinal podia lá chegar, não só lá cheguei como fui recebida e reconhecida, simplesmente por me querer dar ao que afinal sempre foi parte conjunta da minha raiz.
Não tenho melhor forma de finalizar do que deixar que o momento fale por si. Que seja um círculo de muitos. Que eu faça parte deste mundo, é uma honra e um eco de alma.

- Entrou neste nosso universo, não é?
- Espero que sim!




Tornar-me arte | tatuagens como libertação do corpo

A procura é incessante. Insaciante. Nunca sabemos como vamos acordar amanhã. Fluidez de género é uma viagem permanente. Não estou a ser poética. Não estou a ser poético. Também não vou dizer que é um calvário, tem o seu quê de belo, a permanente metamorfose que nos acontece dentro. Vou aprendendo a gostar-me, nas minhas múltiplas vertentes e nos limbos delas, um dia de cada vez, um momento de cada vez. Bigender fluid - bigénero fluido - se tivesse que ter etiqueta era essa.
 
 
 
Oscilo em muita coisa. É apenas mais uma, que sempre me foi tão natural como respirar, ou talvez mais, respirar já teve vezes de ser um problema, isto nunca. O único senão é a disforia. Crava-se como facas. Não a tenho só de género, tenho-a de capacitismo também, em relação ao corpo funcional, hábil, fisicamente capaz, de mobilidade normativa.
 
Olho o corpo que não queria vezes sem conta. Não me corresponde. Não me parece meu sequer, tem vezes que pareço ter que acordar-me, reavivar essa sensação de pertencer à pele, ou tudo resta com a noção de sonho - às vezes pouco - lúcido.
 
Tem dias que queria ter barba. Tem dias que queria ser diva. Todos os dias queria pernas. Todos os dias queria asas. Quase todos os dias acabo por inventá-las. Tem dias que queria ser esteticamente escultura. Tem dias que desejava que houvesse o referencial do que pode ser um corpo bigender fluid, não comprometedor de nenhum dos meus polos. Tem dias que acho que o encanto de eu ser eu é não ter solução.
 
 
 
 
Desenquadro-me. Potencialmente de cada vez mais maneiras. É o que é ponto. Parece que não nasci para ser linear. Tem dias que já penso sorte a minha, pode ser que carregue comigo algum dia a bandeira do humanismo despudorado, se continuar a aprender a beijar as minhas próprias feridas.
Não, não sei se vou parar de engordar. Síndrome do ovário policístico (PCOS) e prolactina alta (hiperprolactinemia) -devíamos ser mais a falar disto, com urgência. Não, não sei se me vai apetecer depilar-me todos os meses. Sim, a testosterona tem a ver com isso. Em metade da disforia sempre ajuda. Pois não, não faço o exercício que devia. Nem que o fizesse, nem que tivesse as pernas como queria para isso, dadas as estatísticas muita sorte tenho eu em não estar pior.

Tem dias que gostava de ser magra (muitos, demasiados). Tem dias que me martirizo. Tem dias que não queria ter o peito assim (muitos, demasiados), em metade da disforia desajuda. Sim, PCOS tem a ver com isso. Falta de progesterona tem a ver com isso. Hiperprolactinemia tem a ver com isso. Com isso e com mais uma longa lista de complicações. Não, não me chegava ter só um problema. Se calhar chegava, mas vou dizer outra vez, é o que é ponto.
 
 
 
 
"Não sei o que sou, sei que me sinto dispersa. Não sei o quequero que saibam de mim. Sei que queria deixar de ser presa pelos fantasmas queprovavelmente criei: do não saber já sonhar, do ficar agarrada à vida pelaesperança de um qualquer fio de prumo que me tire do meu vazio ou me estendapelo menos uma mão na escada (talvez seja ela, se não se afastar com este meunão ser nada), do querer aceitar o corpo e todos os dias chorá-lo porque não osinto meu, porque não me sinto eu, porque não me correspondo, porque não seiquem sou, mas sei o que não sou e que muito disso me habita. Do sermulher-homem sem ter a certeza até que ponto hoje e amanhã. Do quase nuncaolhar nos olhos pela ferida enraizada de que não mereço gente comigo, masqueria. Do querer falar e não sair a voz. De me trair o pânico de ter queexistir e fazer ocupar no mundo o meu espaço, o medo da minha bolha de solidãoser interpelada e que me vejam o caos que nem eu sei, que se nota nos meusbraços que se fecham, na minha cara espástica, na minha voz sufocada àtentativa absurda de quebrar o silêncio, cada vez que me olham nos olhos."
Escrevi algures e resume bem onde quero chegar. A procura é incessante, dizia. Mas encontrei uma tábua de salvação. Contra não caber nas caixas da sociedade, não só quis começar a pensar fora delas, como as decidi ir desfazendo com unhas e dentes; não obstante ainda lutar muitas vezes comigo mesma, não sejamos hipócritas e falsos moralistas, mas começo a resolver-me.
Tábua de salvação, dizia. Tornar o meu corpo não higienizado pelos padrões um estandarte do não-binário, antes de ser fotogénico, antes de ser comercial, antes de corresponder ao híbrido que afinal sonhava ser. Deixar de procurar ser estátua polida, acrobática. Antes tornar-me espectro. Antes deixar de importar a (dis)forma do meu corpo. Antes deixar de ser corpo. Passar a ser dança, espástica mesmo, presa mesmo, fazer dos limites o meu próprio padrão de beleza, deixar de me encaixar nos vigentes. Não querer mais ser vigente. 
 
Antes deixar de ser corpo, dizia. Passar a ser arte. Cobrir-me de tinta, de tatuagens. Tornar-me livro feito pele aos poucos que me sabem ler. Antes passar a ser bandeira aquilo que realmente escolho que me representa. Aí sim. Ter-me como proa, porque passo a ser obra, não padecerei de correcções inerentes a padrões externos. Nada mais importará. Serei sereia tatuada. Tornada signo de pássaro livre. Oxalá consiga. A minha libertação será essa, quero acreditar que sim, tornar-me eco da minha alma, grito do despudor. Assim, cobrir-me de tatuagens devolver-me-á a mim. Passo a passo.
(Imagens: screenshot frames de performance por Inês Marto)
 

Asas e tinta na pele | Frida Kahlo by Bilotta Tattoo

 

 
 
 
 
 
O tal Sábado que nunca mais chegava. 7 de Outubro. Nuncatinha tido processo destes tão talhado pela doçura como aconteceu com Igor, quefez o atendimento virtual de Bilotta Tattoo (da Don't Cry Collective). Sentia-me em casa, antes sequer de terchegado, e não, não é exagero.
 
Quem é Bilotta? Pois bem, chegou a mim de surpresa. Como foisempre, esperava um sinal do universo de quando e como tornar derradeira em mima auto libertação de que tinha escrito o manifesto recentemente. Sabia que aresposta era Frida. Encontrei Bilotta Tattoo no Facebook, quando não procuravasequer, nesse compasso de espera. Apaixonei-me. “O tatuador mais fixe do Rio de Janeiro”,estava escrito. Não tive dúvidas porquê. Até self-tattoos ele tinha feito, deperder o ar.Ficava em Lisboa até ao fim do mês e zarpava. Era a vida a dizer-me que eraagora. O caminho fez-se.
 
Batiam as quatro da tarde certas, quando cheguei ao estúdio.Nervosismo nada, por mais estranho que fosse. Bilotta sorriu-me enquanto saíado carro. Os meus olhos brilhavam, tenho a certeza. “Então, me fale de Frida, me conta.” – abriu-se mundo ali.Falei dela como se fosse eu, falei de mim como se fosse ela, não sei bem ondese apaga o nosso ponto de fusão na verdade. Olhei Bilotta nos olhos, comoraramente faço. E ali havia verdade. Tanto foi que não tardámos a falar de fadosequer. E se precisasse de mais certezas de que tínhamos o mesmo comprimento deonda, estavam ali.
 
Desenhou em mim o primeiro rascunho. Disse ele que era só aparte de criança a divertir-se com uns rabiscos. Frida foi baixando em nós.Conversámos como se nos conhecêssemos há anos. Bilotta teve uma facilidade demestre em ver-me para além do que se vê mais imediatamente. O processo todofluiu. A energia toda fluiu. Mostrei-lhe Raquel Tavares. Ouvimo-la. Falei-lhede Alfama, também se tinha apaixonado já. Mais uma prova de que era dos meus.
 
E entre dedos de conversa sobre arte e existências,estudámos Frida, vi-o absorvê-la, enquanto me agradecia várias vezes o presentede fazer isto. Aquele não sei quê de onda gigante que une os que são desta raçaestava ali, diante dos nossos olhos. Captou-a. Amor à primeira vista.
 
À primeira linha disse “Que Frida esteja connosco.” E esteve,se esteve. Seis horas passaram. Uma eternidade xamânica. Uma dor demetamorfose. Lágrimas na linha de transbordo às vezes, por cada ponto de asasque se fazia pele. Outras vezes uma tranquilidade quase transe. Estou quasecerta de que nas nossas respirações estavam até entrelaçadas. Olhávamo-nos nosolhos um ao outro e estava ali patente – a força de Frida, a minha libertação,a arte que só se faz com esta entrega.
 
Bilotta deu-me as asas. E tenho a certeza que o soube tãobem quanto eu. Estava na cara. Estava na pele. Estava naquelas palmas quebatemos e que pareceram ecoar por Lisboa inteira quando levantou a agulha doúltimo ponto, era uma da manhã.
 
Se Frida esteve connosco? O que havia de Frida em nósemergiu ali. Foi isso que nos atou os laços, estou certa. Bilotta ficou umamigo. Pouco me importa o imediatismo com que o digo, abri-lhe a porta à minharaiz. E ele, com a sua arte elevada, deixou-me gravada a certeza que não mehavia de esquecer da força que essa raiz tem.
 
 
“Pies, para qué los quiero si tengo alas pa’ volar?”escreveu Frida no diário, corria 1953. Foi a frase que deu mote a isto tudo.Meta-voo dos meta-voos… Frida tornou-se as asas ela mesma. Foi dia demetamorfosear-me, ode à auto libertação, manifesto na pele, se foi. Saí alada.

 

"É o tornar-me mais mundo que acaba por me manter." | Inês Marto

Sexta à noite. Vim a casa da minha mãe. Estou numa altura com pouca coisa obrigatória que fazer (ainda bem), o que me deixa - ainda mais - com demasiado que pensar (se calhar não tão ainda bem... ou se calhar sim, a linha é ténue entre o desenvolvimento de novos caminhos ou o vertiginoso descarrilanço existencial, nestas alturas, o que pode ou não levar ao primeiro outra vez, também, mas isso é outra história).
Dou comigo no habitual eco de pensar em metas (a meio caminho entre o primeiro e o segundo, portanto, vamos lá ver)... Às vezes não sei se seria mais feliz se fosse menos inconformada, ou se é por ser inconformada que vou provando um bocadinho do que é ser feliz. Mas a verdade é que é consistente em mim a necessidade de mais. Algo mais. Nem sempre sei exactamente o quê, mas mais. Se por um lado gostava dessa coisa da tranquilidade dos anos - se é que seja verdade - por outro, acho que isso era bem capaz de ser a minha morte.
Estava a ver o podcast do Rui Unas, Maluco Beleza, com Herman José:
 
 
(De nada.) Quando, no contexto da conversa, Herman diz que, quando se tem absolutamente tudo acaba-se o desafio. E de repente fez um pouco mais de sentido, esta minha dicotomia entre a ânsia por alguma paz de espírito - passo a absoluta estupidez deste antagonismo - como dizia na entrevista, e a comichão desalvorada que me provoca a estagnação decorrente das zonas de conforto.
O podcast toca também na questão da reinvenção constante, que acaba por ser uma primeira necessidade sobretudo no campo artístico. E de facto, do alto dos meus 22 anos pequeninos, não posso deixar de o sentir.
Bem sei que tenho o terrível defeito de querer que tudo aconteça e depressa, que se desenrole e que venha mais. Bem sei que me falta a paciência para ver o que é que o tempo me reserva, de tal forma que muitas vezes quase me afogo.
Mas a verdade é que me encontro àquilo que a mim me parece muito tempo (a nós parece-nos sempre mais, pronto) à procura de um lugar válido, subsistente. Nunca quis tronos, mas gostava de sentir um bocadinho de chão. Um bocadinho de vida, boa ou má, mas conseguida à custa daquilo que desde que me lembro é o que quero da vida: a minha escrita.
E então dei de caras com a minha flagrante pequenez (como felizmente dou muitas vezes, não gosto disso de não pisar o chão) e indaguei até que ponto sou alguém, para alguma coisa. Até que ponto é que o mundo me deverá efectivamente um lugar, ou serei eu que tenho que infinitamente mais me tornar lugar a bem de vir a conquistar o meu bocadinho de mundo.





Estamos na era do imediatismo.  Talvez venha daí também alguma da minha dificuldade em dar tempo ao tempo. E sempre que assento os pés no chão, contrasta-se a minha avidez por um lugar com esta tal noção de ser mera gota.É daqui que nasce a minha sede de desafios, é sempre deste contraste. Pauto-me por crescer. Sempre que me debato sobre ficar, é o tornar-me mais mundo que acaba por me manter.
No caminho para cá falava sobre possibilidades de futuro. Cheguei depressa à óbvia falta de desafios que sinto. E não é que tenha nada na mão, propriamente, até se torna num quadro ridículo de estagnação a pairar, sem a zona de conforto sequer.
A única coisa que sinto conquistada aos poucos, a pulso, é um punhado de gente, não muito grande, mas muito sólido, que começa a querer ouvir os meus gritos. E nisso não nego o privilégio.
Pensava, nesse entretanto, talvez voltar a Psicologia. Talvez mestrado em Filosofia. E a seguir o previsível "Mas que saídas é que isso me dá?". A questão é que não quero "seguir" nada disso, mesmo. O que quero (tentar, na medida em que mereça) poder fazer da vida é realmente arte, seja lá em que valência melhor a transmita, ainda acho que é escrever. Mas talvez me desse mais credibilidade. Mais "direito" a uma plataforma, a um lugar, a esse bocadinho de mundo que me deixasse ter a minha vida.
E, ironicamente, depois de tanta pressa em agarrar tudo, penso "Mas gostava de fazer isso no meu tempo, enquanto vivo." (não sei que parte da frase me deu mais vontade de rir)... por auto-expansão, se me pudesse dar a esse luxo, como quem se cultiva enquanto tem a sua vida, só que na esperança de poder ter legitimamente a sua vida... podia ser um caminho...
Será isso? Será que é aí que me encontro nesta contradição? Entre o querer que a vida inteira me aconteça para ontem, tanta é a ansiedade; e o dar-me tempo para viver no meu compasso e me expandir, até que aconteça por mérito, que seja quando for é no tempo certo? Há mediatriz, sequer?
Se tivesse respostas, não era eu.
 
 

Sereia de coração

Quarta à noite. Outra como tantas. A passar por vídeos d' A Gaiola das Loucas enquanto tentava escrever alguns projectos planeados. Quando uma amiga me envia um vídeo de música. O que me leva a um vídeo da performance da Pink, "Try". A conversa desenrola-se e começamos a falar de dança e de expressão corporal.
Por estranho que pareça, corpos "funcionais" (à falta de melhor termo) fascinam-me completamente. Tendo eu paralisia cerebral desde, bem, sempre... Sempre me perguntei como é a sensação de simplesmente comandar o corpo e ele fazer aquilo que se quer sem imprevisibilidades. Talvez seja por isso que a dança me fascina tanto.
Nós, os que têm paralisia, somos ironicamente obcecados por controlo. Porque temos que ser. Temos que estudar os nossos passos, prever os nossos movimentos, desenvolver as nossas estratégias e chegar a um nível à prova de bala com uma mão cheia de planos alternativos no caso de tudo falhar, porque o nosso corpo de repente decide que o que já fizemos mais de 100 vezes desta vez não vai resultar.
Então sempre me questionei quão libertador deve ser não ter que fazer um rascunho detalhado de basicamente tudo para conseguir sobreviver. Sinto que nós estamos sempre em modo de sobrevivência.
Pessoalmente, mudava muita coisa se houvesse um simulador de paralisia cerebral para os amigos experimentarem, porque às vezes é impossível colocar por palavras a nossa forma de existência física.
Os corpos com paralisia cerebral, a diferentes graus claro já que tudo varia tanto individualmente, estão sempre sob algum tipo de tensão física, especialmente os espásticos como eu.
Recentemente descobri o Gregg Mozgala, um actor com paralisia cerebral que entrou num projecto (no mínimo) interessantíssimo chamado Enter the Faun, onde a coreógrafa Tamar Rogoff usou shaking e body scripting, duas técnicas que tinha desenvolvido para os seus bailarinos. A primeira para libertar tensão acumulada no corpo e a segunda para promover consciência física através da tradução do movimento num guião de palavras. E uma vez aplicadas a um corpo com paralisia, as técnicas obtiveram resultados absolutamente extraordinários. Gregg conseguiu movimentar-se como nunca antes tinha conseguido, e permitiram-lhe explorar-se a profundidades físicas como nunca tinha sido capaz. (Este vídeo ilustra bem as técnicas e os resultados).
Tudo isto levou a minha cabeça a começar a indagar sobre a consciência corporal. Parei de fazer fisioterapia quando tinha 15 anos, tinha começado antes de fazer um ano. Principalmente porque queria viver. Porque estava cansada da dor. Não havia muito mais a fazer. Talvez uma nova forma de alongar. Talvez agarrar um cubo em vez de uma bola enquanto andava... talvez mais duas ou três coisas que a longo prazo mudavam não virtualmente nada. Tinha percorrido um longo caminho e estava feliz com ele. O resto era manutenção. E mais que isso era uma questão de inventar as minhas formas de fazer o meu corpo colaborar para alcançar o que queria - e isso é algo que nenhuma terapia me ensinou: criatividade e desenrascanço. Que era o que eu sentia que precisava mais, bem mais do que rotinas dolorosas.
Ainda não sabia o que era capacitismo. E como discordava disso. Para mim, estava só a viver à minha maneira. Só recentemente, muito recentemente, é que desenvolvi a minha opinião sobre paralisia cerebral e como antes quero entendê-la e jogar com ela do que tentar apagá-la, como expliquei neste artigo.
Mas dito isto tudo, ainda sinto falta de exploração física. Exactamente por isso mesmo. Para conseguir aprender os padrões da paralisia e jogar com eles, tenho que me explorar mais a fundo e testar os limites desses padrões. E ainda está por encontrar um método de o fazer (o mais próximo até à data foi a aproximação de Tamar, que ainda não encontrei forma de fazer em Portugal)... Ou será que afinal tenho método?
Recentemente também descobri a  Leandrinha Du Art, um ser completamente fantástico, activista dos direitos trans, artista, youtuber e ícone, que também por acaso usa rodas. E descobri um texto maravilhoso no blogue dela onde se vê como uma sereia.
De repente juntei as peças todas e entendi. Se calhar não foi à toa que quando era bebé queria ser sereia. Que me sentava à beira mar à espera que crescessem as barbatanas que me haviam de libertar. Que descobri o meu porto seguro e o meu ex libris simultâneo no oceano. E que é quando nado sozinha que tenho as melhores ideias artísticas, também. Afinal tenho uma maneira de me auto-explorar e libertar. É tornar-me aquilo que sou no meu núcleo: uma sereia.
A minha primeira peça de escola até foi o Fora do Mar, pelo amor de Deus, estava destinado a acontecer.
Sinto uma liberdade e sensibilidade únicas quando estou na água. E é inegável que me permite explorar-me de maneiras que nunca era capaz de outra forma. Não só consigo andar sozinha como até descobri que sou capaz de saltar, vamos falar de fenómenos?
Talvez não tenha sido ao acaso sequer que os meus sonhos mais loucos em tempos eram dançar dentro de um aquário gigante em cima do palco...
Talvez eu seja uma sereia nascida no corpo errado, e tudo o que eu tenho que fazer é continuar a nadar à minha maneira e recusar-me a ir ao fundo! 
 


 

O tabu cadeira-de-rodas

 
Hoje descobri a Robyn Lambird. Uma youtuber, actualmente com 20 anos, que também tem paralisia cerebral. Assim que vi este vídeo, percebi que isto era uma coisa de que eu tinha mesmo que falar. De facto, já há bastante tempo que queria discutir isto.
A verdade é que estamos no século XXI. E isto é um tabu tão socialmente enraizado que até foi preciso um vídeo para me trazer de volta à realidade, para voltar a aperceber-me que isto não devia mesmo estar a acontecer. Por isso é que não o fiz mais cedo. Fica-me debaixo da pele. É uma parte tal das nossas vidas que nos habituamos a isso, como se não houvesse nada de errado.
A Robyn foi um abre-olhos. Eu defendo muitas causas. Uma delas é o desmoronamento da ditadura da imagem corporal. E, por muito estranho que possa parecer, forçar-nos a que nos aproximemos fisicamente o mais possível daquilo que é convencionalmente tido como normal é tão corrosivo como toda a questão da invisibilidade e da pena.
Eu percebo. Supostamente o corpo humano foi feito para andar. Eu percebo, encaixava melhor no vosso conceito de ser saudável. Eu percebo, vocês pensam que estaria a viver a minha vida ao máximo. Se me permitem, contudo, um pequenino lembrete, é a MINHA vida, leram bem. E também é o meu corpo. Muito provavelmente, com quase 22 anos, conheço-o um bocadinho melhor eu. E mesmo que não conhecesse, continuava a ser o meu.
Parece que em tudo o resto, como ela diz, tudo se resume a qualidade de vida. Já neste caso, quase toda a gente tem que tentar com que façamos mais esforços, tentemos mais coisas. Não é que não aceitemos conselhos de quem quer que seja que saiba do que está a falar. Quer dizer, uma nova perspectiva sobre como tornar isto mais simples é sempre bem-vinda.
Mas é como se fôssemos máquinas a termos que ser arranjados. A termos que nos encaixar. A termos que corresponder a uma sociedade higienizada que ainda força aquilo a que chamam normalidade a toda a gente. De repente as pessoas acham-se no direito de chegar e dizer "não podes viver assim".
O que é que aconteceu ao "sê tu próprio"? O que é que aconteceu à liberdade individual de escolha? O que é que aconteceu ao deixar uma pessoa ser uma pessoa e não um conceito? Somos pessoas.
Todas as horas que passei a chorar, com dores, das cirurgias, dos alongamentos, das terapias... Há uma parte da minha infância que jamais terei de volta. E perdi-a a tentar tornar-me no que os outros entendiam como normal. Como melhor. Como sendo parte.
Não me arrependo de tudo. Algumas coisas deram-me capacidades que obviamente preciso, que de outra forma não teria alcançado, claro. Tê-lo-ia feito, na mesma, claro. Apenas o teria feito de forma diferente, se pudesse voltar atrás.
Não ia lutar por ideais de perfeição. Sobretudo ia lutar por uma vida. Que é o que faço agora.
E então, se for numa cadeira-de-rodas? Antes sobre rodas e com um sorriso, a aproveitar o caminho, do que andar durante 10 minutos e ter que voltar para casa. E se perdesse todos os progressos? Honestamente era um pesadelo. Mas ainda assim, eram na mesma o meu corpo e as minhas escolhas, desculpem a desilusão.
Conclusão: se calhar não precisamos de ser arranjados. Se calhar não temos que andar mais vezes. Se calhar não temos que tentar com mais força. Se calhar não temos que "mas ouve". Porque se calhar, a única coisa que temos mesmo é que viver da maneira que formos mais felizes.

 

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"Sou ambígua e não faz mal!" - as minhas maiores (verdadeiras) dificuldades

 

Estive a pensar durante uma semana sobre o que escrever a seguir. Acho que tudo isto já se tornou tão habitual para mim, que nem sempre acho que haja tópicos relevantes sobre os quais escrever, relacionados com as rodas. O que era, afinal de contas, o meu objectivo ao criar esta plataforma. Parece que já provei a minha própria tese - bem, foi rápido!

Ainda assim, continua a haver muita coisa debatível, suponho. De repente vi-me perdida a pensar em quais seriam as minhas maiores dificuldades actuais. E, do nada, vazio... Não me lembrava de nada. Por isso é que demorou tanto a escrever um post novo.
Mas finalmente percebi. As minhas maiores dificuldades, grande parte pelo menos, não está relacionada com a paralisia cerebral. Muitas são consequências indirectas de como ela me fez ver a vida, mas há bastante tempo que deixou de ser tanto sobre as questões físicas.
Mas vamos dividir isto por partes, por uma questão de tentar ser exacta (já estou a prever que me vou espraiar em alguns tópicos), mas vamos lá então.
- Fisicamente, as coisas que acho mais difíceis são: transferências de e para a cadeira-de-rodas em situações não planeadas, ir à rua sozinha com a cadeira manual (ainda não consigo subir e descer degraus e rampas íngremes, vamos ver se a cadeira nova ajuda nisso), chegar a sítios altos (tenho 1,40m, por isso levantar-me não adianta grande coisa também), obviamente andar sozinha (mais uma vez olá triângulo amoroso pânico-espasticidade-cair, obrigadinha), dobrar os joelhos e tudo o que possa depender necessariamente disso (isto é devido a uma cirurgia que fiz em 2007, que consiste na trocar dos tendões flexores e extensores dos joelhos, por forma a conseguir esticar as pernas, o que anteriormente não era possível). E assim de repente não me lembro de muito mais.
 
Ok, agora que essa parte está despachada, podemos passar aos assuntos mais sérios. As minhas maiores dificuldades não são físicas/fisicamente minhas. E, acreditem, é bem mais fácil lidar com as que são. Há aquelas que são relacionadas com essas:
- Foi o raio de um pesadelo encontrar um apartamento que não tivesse um único degrau, sim, em plena Lisboa no século XXI (mas finalmente tenho uma casa!). Usar transportes públicos por minha conta ainda é uma dor de cabeça (outra vez, assim que aprenda a usar a cadeira nova em todo o seu esplendor poder ser que isto mude) principalmente porque quando estou sozinha tenho que usar a scooter eléctrica ( a quem interessar, é uma Invacare Colibri) o que significa ter que esperar por um autocarro adaptado e também que ele esteja vazio o suficiente para conseguir que a scooter lá caiba. E quanto ao metro, "atenção ao intervalo entre o cais e o comboio" não podia ser mais verdade para uma scooter, dos elevadores das estações nem sequer falo, que davam para um post inteiro. Outra coisa tem a ver com a arquitectura pombalina. Adoro Lisboa e não trocava morar aqui por mais nenhuma cidade (não, nem Nova Iorque), mas estes malditos degraus em todas as portas... e já disse que tenho uma tendência para gostar dos cenários mais complicados de todos? Newsflash: sou apaixonada pelos bairros mais antigos... e sim, já tentei ir de scooter por Alfama acima... bem, há coisas piores...
 
Mas não era aqui que queria chegar. Vamos à nudez então. As dificuldades que mais me impactam numa base diária são:
- Depressão e ansiedade
- Ataques de pânico (às vezes provocados pelas questões físicas que correm mal) que me fazem petrificar e não conseguir mexer-me mais
- Aceitação. Ok, esta é grande, talvez a maior de todas. O meu problema com isto assume muitas formas. Auto-aceitação, para começar: a dificuldade de enfiar na cabeça que eu sou o suficiente, que tento o suficiente e que faço força suficiente. O desafio de acreditar nas minhas próprias crenças até quando o mundo parece colapsar.
- Imagem pública: esta relaciona-se com a anterior, mas não só. A cena do "olha, ela está numa cadeira" mata-me, não vou mentir. As expectativas relacionadas com isso, maioritariamente. As ideias enraizadas de que ou somos completamente inúteis ou atletas olímpicos em ascenção. A pressão social de nos mantermos a fazer terapias, activos, andar mais, tentar mais (sim, tenho noção que também o faço a mim mesma e é uma merda). E ser chamada de preguiçosa, mais do que tudo, como se o que eu faço ou deixo de fazer não fosse opção minha, como toda a gente (incluindo ser preguiçosa se me apetecer!).
- Relação corpo-mente: claro que isto também está ligado ao resto. Mas eu aceitar o meu próprio corpo como ele é (barriga incluída) não tem sido fácil de todo. Aceitar que as minhas pernas não se vão mexer da forma que eu quero é uma das partes mais difíceis de não me ofender a mim mesma e de não me culpar por tudo.
- Sexualidade: isto é um tópico difícil. Definitivamente um post muito em breve. Mas a ideia generalizada de que nós das rodas não a temos ultrapassa-me. E depois os meus próprios medos em ser sexualmente rejeitada por causa desta merda toda... pois.
- Expressão de género: chiça, se eu queria falar disto há séculos! Identifico-me como bigénero. Então claro que uma das maiores dificuldades é não ter medo de expressar o meu lado masculino. Aceitar o pêlo, por exemplo, sem ficar auto-consciente, eu mesma, por causa do que os outros vão pensar. (Brevemente também devia explorar mais isto).
- Estilo de vida: sou uma escritora. Sim, daqueles típicos solitários. Também sou uma coruja e geralmente afundo nas minhas próprias ideias e projectos até às 6h, todos os dias. Detesto completamente as manhãs e evito-as a todo o custo. Mas a questão é, porque raio é que isto não pode ser socialmente aceite? Porque é que soo louca e utópica por viver em prol da minha arte à luz da lua, se isso para mim resulta? Em que é que isso difere de um homem de negócios que acorda às horas que eu me deito para seguir o seu sonho? É que estamos a fazer o mesmo.
 
E acho que o busílis das minhas dificuldades reside mesmo aí. Em aceitar que estou apenas a lutar pelos meus sonhos e não faz mal. Estou cá para ser feliz e não faz mal, e mais ainda que isso basta. E que as pessoas também entendam isso. Mas se nem eu mesma sou consistente, como é que os outros podem entender, certo? Errado! Completamente errado. Independentemente do quão estilhaçada ou ambígua eu possa ser, eu sei que partes de mim são realmente eu, e quais são apenas reflexos das coisas que disse acima.
E afinal de coisas, era só isso que eu queria. Que as pessoas entendessem que não sou toda feita de pinturas direitinhas e de flores, mas também não quero ser. Ainda que me ofenda a mim mesma demasiadas vezes. Estou a aprender a amar a minha própria escuridão. Estou a a aprender a libertar as minhas cicatrizes (literais e não só). Um passo de cada vez (trocadilho intencional) mas estou a chegar lá.
É isso que quero dizer: sou ambígua e não faz mal. Sou inconsistente e não faz mal. Tenho barriga e não faz mal. Sou bigénero e não faz mal. Sou ginessexual (pessoa sexualmente atraída pela expressão de características tipicamente tidas como femininas, não necessariamente apenas em mulheres - outro artigo a escrever brevemente!) e não faz mal. Sou uma sonhadora e não faz mal. Sou poliamorosa e não faz mal. Ainda estou a aprender e não faz mal. Sou eternamente mutável e não faz mal. Ainda tenho dificuldades e não faz mal. Ainda por cima sou contraditória também e, adivinhem, não faz mal! Principalmente: sou real. E qualquer dia neste mundo isso não vai fazer mal.
 

 

 
 
 
 

Bullying e suicídio: realidade crua

Este sempre foi um dos tópicos que nunca tive muitas certezas sobre como abordar. Mas como disse, quero manter as coisas cruas e naturais por aqui. Sim, houve bullying, principalmente na escola. Antes de usar a cadeira, já que sempre fui minúscula, passava bem a usar um carrinho de bebé, para caminhadas longas. De resto costumavam andar comigo ao colo, ou se fosse coisa pouca dava uns passinhos agarrada.
Tive a primeira cadeira-de-rodas no quarto ano, creio que uma Invacare Action Junior, em 2004. Antes disso nunca me tinha sentido realmente "a miúda da cadeira". Não é que estivesse propriamente integrada com os outros miúdos, mas também não me sentia um alien ainda. Na altura tinha uma personalidade forte e extrovertida. A minha inclinação para as artes performativas já tinha arranjado maneira de se manifestar na minha vida, gostava de organizar peças e espectáculos com os outros miúdos. Mas a verdade é que, assim que começaram com o saltar à corda e jogar à bola, lembro-me de passar mais tempo a olhar para eles e a desejar ser capaz de fazer o mesmo do que a tentar efectivamente encontrar maneiras possíveis de fazer parte.
Não demorou muito até começar a ser a última a ser escolhida para todas as actividades de grupo que não incluíssem artes ou escrever (era vista como uma vantagem nessas). Mas ainda éramos nós simplesmente a ser crianças sem sabermos bem como me integrar. A minha (há muito tempo desaparecida) personalidade forte também não ajudava grande coisa.
Por essa altura já tinha começado a interessar-me mais por ler, ver filmes, ouvir música e principalmente ter conversas mentalmente expansivas que duravam eternidades depois do jantar (e que eram um tédio completo para a maioria das crianças) incluindo tópicos como "para que é que estamos vivos?".
Como era de prever, isso aumentou o meu já crescente isolamento, e gradualmente deixei de fazer um esforço para ser uma miúda a fazer coisas de miúdos. Então, no fim da escola primária, já era a esquisita. Ainda assim, sendo uma menina bastante imaginativa, alguns gostavam de brincar comigo ao faz-de-conta, o que me agradava bastante.
Tinha uma tendência também para o futebol. Nunca gostei de ver jogos, mas gostava da sensação de correr atrás da bola. Lembro-me de tentar jogar de andarilho, ou no chão, de gatas (destruí montes de pares de sapatos por os arrastar por todo o lado assim, era o meu meio principal de locomoção autónoma). Resultava, embora obviamente nunca fosse uma vantagem para a minha equipa. Mas desde que me deixassem jogar, para mim estava tudo bem. Não fazia intenções de ser boa, de qualquer forma, e pelo menos assim tinha alguma coisa a ver com eles.
Mas claro que o pior ainda estava para vir. Os pré-adolescentes têm uma forma natural de se tornar cruéis, ao que parece. E assim que ser guarda-redes de joelhos deixou de dar resultado para os cativar (sabe Deus porquê), começou tudo a acontecer.
Ainda não era do tipo de ficar calada, e maioria das vezes calava aquilo que me diziam com uma resposta bem mandada. Mas era inútil, sendo que era eu a querer conquistar a companhia deles, e não o contrário. Eventualmente chegou ao ponto dos professores repreenderem o meu comportamento, já que eu também me tinha tornado amarga para os colegas. Diziam "não devias ser assim, afinal és tu que precisas deles.". E eu acreditei nisso, durante demasiado tempo.
 
Com o passar dos anos eles começaram a ser mais subtis. Não era tanto já sobre o que diziam propriamente, e não havia respostas com que me defender. Por essa altura era tudo à volta de olhares de nojo, bilhetinhos passivo-agressivos, não abrir as portas para me deixar entrar (não conseguia abri-las sozinha), e repugnar qualquer tipo de proximidade comigo.
Então comecei a ficar mais calada. A minha forma de pensar não era para eles, de qualquer forma, e pelo menos assim não tinha que me desvanecer só para conseguir integrar-me. E depois a adolescência disparou. E foi um pesadelo. Se ninguém gostava de mim antes, e tinha mais amigos professores do que colegas (ainda que eles me continuassem a condenar por "não fazeres um esforço por me dar com os outros, embora continues a precisar fisicamente de ajuda constante deles"), depois tornou-se uma selva de "vamos ver quem é que consegue fazer isto pior". O que ia desde destruírem as minhas coisas a chamarem-me puta só por usar calções, ou deixarem-me sozinha sem andarilho nem cadeira por perto (havia uma tabela rotativa de 2 pessoas de cada vez, designadas "responsáveis" por me ajudarem, para eu conseguir pelo menos sobreviver. Eles odiavam isso e eu também. Fosse tudo tão mau como fosse, isso ainda me fazia sentir mais como um fardo gigante).
 
Nunca me tinha sentido tão sozinha como aos 12 ou 13 anos. Começaram a desprezar-me abertamente. Felizmente para mim, o cérebro humano tende a eliminar o que é demasiado doloroso, por isso são maioritariamente memórias difusas agora. Tomei o silêncio como a minha arma. Emocionalmente também. Transformei-me numa parede. Nunca falava com ninguém mais do que o estritamente necessário e evitava contacto visual ao máximo. Pensei que eventualmente acabasse aquilo tudo, mas já era o patinho feio há demasiado tempo para ser passível de se esquecerem, parece.
Mas a gota de água mesmo, lembro-me como se fosse hoje, foi a turma criar uma conta falsa no messenger como sendo um rapaz chamado Daniel. Caí que nem um patinho. Sozinha como estava, atirava-me com toda a facilidade do mundo para os braços de alguém que se dignasse a dizer olá. O "Daniel" começou a dizer que estava apaixonado por mim. Caí que nem um patinho outra vez. Assim que aceitei "namorar" apesar da "distância física", rebentou o inferno e eu passei a ser a porca desavergonhada puta fácil.
Obviamente a depressão encontrou o seu lugar na minha vida. E em força. Nunca fui diagnosticada. Detestava psicólogos. Tanto quanto detestava discursos motivacionais. Odiava que me dissessem aquilo que eu já estava farta de saber (hello, sempre tive excesso de pensamento, não foi falta dele, era difícil de ver?). Isso e dizerem-me que estava só a querer chamar a atenção e tinha era falta de ambições na vida.
O suicídio também encontrou lugar na minha vida. Aos 14 anos tinha tentado 4 vezes, já que não fazia sentido em ser o fardo excluído e nojento na vida de toda a gente. De cada vez que falhava, odiava-me ainda mais. Foi tudo um tema deixado na sombra, embora claro que os meus pais reparavam, sendo que só chorava quando trancava a porta do quarto. Eles não negligenciaram a situação, falávamos sobre mim e a minha vida, mas penso que sempre estiveram certos que eu era mais forte do que isto tudo, por isso nunca pegámos o touro pelos cornos propriamente.
No 10º ano encontrei a minha tropa. Os queers e os nerds uniram-se. Éramos só 4, mas se fazíamos barulho... O teatro salvou-me. Começámos a fazer os nossos próprios projectos. E mais ainda que isso, a ideia profundamente enraizada de ir para Lisboa deu-me esperança, e a esperança era a chave para eu continuar, eu sabia que pelo menos algumas mentes iam ser maiores lá (cá!) e estava bem certa!
Sinceramente sinto que comecei a viver realmente há 4 anos atrás, quando vim para Lisboa. A auto-aceitação até já começou a ser alguma coisa, agora. Estava tão certa. O meu lugar sempre tinha sido aqui, mais perto dos artistas, das mentes abertas, dos espíritos livres, dos doidos, daqueles que arriscam o precipício... também não são assim tantos até agora, mas, caramba, são enormes!
Mas não vamos tornar isto tudo arco-íris (sim, trocadilho LGBT+ propositado, sou um unicórnio com asas!) e finais felizes. O bullying não me tornou uma pessoa melhor. E a depressão também não torna. Nem a ansiedade. Nem a merda suicida toda. Nem a maldita cadeira-de-rodas. Já disse que não sou oradora motivacional nenhuma. Isto quase que me estilhaçou completamente. Mas eventualmente acabou. E quanto aos que fizeram isso, nunca mais ouvi falar sequer das sombras deles. Mas tenho a certeza que eles ouviram falar de mim, e ainda vão ouvir mais, por muitos anos, sorry not sorry. Não sou imparável, mas sou teimosa como tudo! Da próxima vez, tentem com mais força.