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INÊS MARTO

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O poder do feminino: transformismo, um eco de alma


Há coisas em nós que não se conseguem explicar nem com dois dedos de conversa, nem com meia dúzia de páginas de texto. O efeito lunar que o poder do feminino tem em mim é uma delas. E o pináculo disso, para mim, está no transformismo, por ser uma ode à mulher.
Não me esqueço tão depressa da última noite. É virtualmente impossível ser amante do transformismo neste país e não cruzar amores com a Deborah Kristall (Fernando Santos), a figura máxima actual deste panorama. Sorte das sortes, uma porta leva à outra. Neste caso, o corredor de portas foi circular.
O fascínio levou-me à Gala Abraço 2016. O André E. Teodósio tinha-me levado a Valentim de Barros. Também levou o José Raposo, que foi júri na Gala. Um ano depois, estava a subir ao palco, na Gala Abraço 2017, por um texto sobre Valentim de Barros, pelo José Raposo. Direcção Artística? Fernando Santos.



Demasiada coincidência? Há mais. A Gala Abraço trouxe-me o Paulo Monteiro e o dezanove... foi uma questão de juntar as peças. A noite passada o dezanove fez com que voltasse ao Finalmente, onde tinha ido só uma vez, e desejado ser transparente para poder ficar lá a absorver tudo aquilo.
Abençoada entrevista, abençoado regresso. Como o mundo dá voltas... Como é que isto tudo aconteceu? É cíclico, o meu voltar a pesquisar coisas sobre este mundo, há pouca coisa, mas nunca se sabe se alguém deixou sair mais um pedacinho de magia a público.
Via uma das entrevistas mais recentes do Fernando Santos, quando me vieram intuitivamente à cabeça perguntas que um dia lhe faria, se pudesse. Escrevi-as, porque... bem, porque não se perde nada... estava longe de imaginar é que ia ganhar tanto.
Tive um rasgo qualquer de desfaçatez, mandei as perguntas ao Paulo Monteiro. A próxima coisa que sei é que estava à porta do Finalmente, de salto alto sobre rodas, e as perguntas iam ser feitas. O que eles não sabem, nem quase ninguém, é como tudo isto (passo o duplo absurdo) é como caminhar sobre nuvens.
Vem de há muito tempo, o amor ao transformismo. Nem sabia o que era transformismo. Tinha visto uma reportagem da "Gaiola das Loucas" de Filipe La Féria, na televisão. A Zazá do José Raposo havia-de vir a ser muito mais  do que imaginava. Explica-se essa parte da história pelo texto que leu o José Raposo no lançamento do meu livro Combustão, em Março de 2017 (sim, mais uma das portas do meu corredor circular de coincidências felizes):
 
 
A Inês de 14 anos não sabia o que era transformismo. A Inês de 14 anos viu, absorveu, amou. A Inês de 14 anos sabia estar ali uma das peças da sua verdade, que não sabia como agarrar. Cresci em Fátima. Não se falava "destas coisas", lá. Ainda hoje não se fala.
Não sabia que havia espectáculos dedicados à arte do feminino, sabia só que qualquer coisa, nesse exacerbar por um lado e nesse contraste por outro (a androginia é outro estímulo), chamava por mim.
Descobri pela televisão que havia, algures lá longe em Lisboa, um lugar chamado Finalmente onde havia espectáculos assim. Não imaginava sequer que se pudesse pagar e entrar. Tinha para mim a ideia de um lugar de secretismo inatingível. E ninguém a quem perguntar.
Cada vez que tinha a oportunidade de ir a Lisboa, de fugida, pedia para passar pelas zonas onde se dizia, muito poucas vezes e em surdina, onde elas (travestis/crossdressers) costumavam estar mais vezes. Olhava pelo vidro do carro, e queria ficar ali, na esperança que me aparecesse uma Zazá emplumada... A fluidez de género ainda era um mistério. Já a sentia, só não sabia que existia pela rua livremente e de modo quotidiano.
Cheguei a Lisboa para ficar, finalmente. Mudança das mudanças. Cruzei-me com amigos com esse mundo por casa. E eu sempre na concha. Sempre no medo, sempre no pano de fundo de onde vinha, do inatingível que isso era, do nem se fazer perguntas. Mas sempre com os olhos brilhantes a cada migalha de descoberta.
Fui aprendendo da história do transformismo enquanto espectáculo o pouco que encontrava sem referências nenhumas.
Não sei onde cheguei ao nome Deborah Kristall. Sei que se abriu mundo. Achava mais que óbvio, ainda assim, que não poderia lá chegar, ver por mim. Era assunto para tirar da cabeça. O difícil era conseguir.
E de repente a Gala Abraço, um "Tenho que ir!" mais forte que tudo. Ainda não tinha entrado no S. Luiz quando vi, pela primeira vez aquilo era verdade. Faltou-me o ar como falta a uma criança a dar de caras com uma princesa da Disney.
Finda a noite sabia que tinha encontrado uma das peças que me faltavam há tanto tempo. E tinha a certeza e a vontade assoberbante de fazer parte desse mundo. Só não sabia como.
É aí que se fecha pelo menos esta parte do círculo: Valentim de Barros, José Raposo, a semente lançada.
No ano seguinte a concretização. E com a concretização uma porta aberta para o mundo às cores. Com a porta aberta, o dezanove. E com o dezanove, a maior coroa de glória: afinal podia lá chegar, não só lá cheguei como fui recebida e reconhecida, simplesmente por me querer dar ao que afinal sempre foi parte conjunta da minha raiz.
Não tenho melhor forma de finalizar do que deixar que o momento fale por si. Que seja um círculo de muitos. Que eu faça parte deste mundo, é uma honra e um eco de alma.

- Entrou neste nosso universo, não é?
- Espero que sim!




Identidade de Género - debate ou salganhada ilógica conservadora? | Prós e Contras (RTP)

 

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Antes de mais nada, fica o link para o debate. Ia escrever ontem sobre tudo isto, mas tendo em conta o pano para mangas que muitos argumentos apresentados, que nem a argumentos chegam, às vezes chegando a tocar no ridículo mesmo, me ia dar, adiei.
E depois percebi que talvez não fosse preciso muito mais do que justamente expor passo por passo o que foi dito, para que ficasse de caras a completa falta de lógica apresentada pelos elementos neste caso contra a proposta de lei. Realmente a única argumentação válida e coerente que consegui extrair desse lado foi mesmo o questionar então e os restantes géneros não binários, onde ficam no meio disto, porque não, a fazer uma alteração, permitir a todo o espectro de género.
Sol de pouca dura, no entanto, pois não tardaram a cingir mulheres a características estereotipicamente femininas e homens a masculinas, apontando até um caos social pela permissão da alteração de género, quando a expressão do mesmo não lhe correspondesse de maneira aparentemente óbvia. De resto, foi um incessante bater na mesma tecla, mesmo depois de rectificações. Isso e um desvio do tema para casos particulares e questões mais que rebuscadas. 
Sem mais demoras, deixo então que o conteúdo do debate fale por si próprio, até porque a responderem a alhos com bugalhos como aconteceu, fica difícil mesmo comentar seja o que for. 

Desde logo o programa abre com o título “mudança de sexo aos 16 anos”, referindo-se à proposta de lei da alteração da idade permitida, de 18 para 16 anos de idade, com acompanhamento parental e sem necessidade de relatório médico, no que concerne à mudança de género apenas em registo civil. O procedimento é referido como alterações sem volta atrás.

Catarina Marcelino ressalva que aquilo que se está a fazer é retirar os factores de saúde de uma questão que é identitária e não patológica. E que a lei não se refere a operações de mudança de sexo, não tendo portanto a ver com saúde, é apenas a mudança de nome e de género em cartão de cidadão e registo civil. Destaca ainda o plano para tornar as escolas mais inclusivas para as crianças trans, formando também os professores para a questão.

Sofia Galvão discorda da proposta de lei. Aponta a transsexualidade e disforia de género como diagnósticos de perturbação da identidade. No entanto, distingue sexo anatómico de género, na elaboração do seu discurso, argumentando até que as mudanças de sexo deviam sair do binarismo vigente.

Sandra Cunha rectifica a questão da criminalização dos pais pelos filhos caso não aceitem a mudança de sexo, esclarecendo tratar-se apenas da actuação do Ministério Público na defesa dos interesses da criança, nos casos necessários. Acrescenta ainda que a autodeterminação é um direito fundamental, não susceptível de validação alheia. E que os jovens têm essa capacidade de autodeterminação, manifestando-se até desde muito cedo nas crianças. E a disforia de género decorre muito da impossibilidade de assumir o género e a descriminação da sociedade perante a situação. “Os médicos não avaliam identidades. Cada pessoa é que o sabe no seu íntimo”, encerra.

Abel Matos, psicólogo, declara que isto é um tema político porque não tem nada a ver com a área científica. Distingue também sexo de género, referindo até a multiplicidade de géneros existentes e o não-binarismo. No entanto, prossegue dizendo que vamos ter pessoas a mudar de género que não são transsexuais porque não vão fazer nada com o seu corpo. Dá dois exemplos, para explicar porque acha a lei ridícula: uma mulher trans que no final do treino num ginásio “vai tomar banho com as senhoras, com o seu pénis masculino”, considerando-o uma opressão. Refere ainda o exemplo de um homem trans que tenha engravidado, tornando-se um “homem grávido”, uma novidade em termos mundiais. E termina esta primeira intervenção referindo a autoridade do conservador do registo civil para avaliar a capacidade psíquica; e ainda diz haver questões de saúde pública postas em causa, devido às cirurgias realizadas aos bebés intersexo passarem a ser apenas realizadas em risco de saúde evidente, e também devido a ficar ao critério do jovem decidir ir ou não ao psicólogo, não podendo ir contra vontade. O psicólogo refere que há doenças psíquicas que podem levar a pessoa a pensar que é de outro género.

Catarina Marcelino quando questionada sobre a maturidade aos 16 anos, refere que a essa idade há muitos jovens que já têm a sua expressão de género e identidade formada, até muitas vezes com apoio dos pais. Portanto devem ter direito a que a sua identificação e forma como são legalmente tratados a reflicta.

Sofia Galvão responde dizendo que um indivíduo com expressão de género feminina, com esta alteração agora se quiser, pode fazer a mudança civil para género masculino e vice-versa (embora tenha anteriormente distinguido género, sexo e expressão de género; e referindo até o não-binarismo); refere que estamos a caminhar para uma sociedade em que na rua alguém tem uma aparência que identificamos como um género, que depois pode ser algo completamente diferente. Volta a proferir “perturbação da identidade de género”. Diz ainda que os conservadores do registo civil vão dizer que sim ou não com base na empatia que tem com os casos, sendo que não tem relatório nenhum.

Daniela Bento, mulher trans, traz contributo ao debate, mostrando as diferenças que existem até em meios mais conservadores, não existindo sequer informação ou linguagem relativa a estas questões de género, havendo também uma opressão muito maior. Introduz também a perspectiva de género enquanto constructo e performance social, e refere também que é segundo a expressão desses quadros referenciais estereotípicos que os médicos validam ou não a legitimação da mudança de género; forçando os indivíduos a performar segundo esses mesmos quadros, por forma a poderem fazer a mudança autorizada pelos médicos.

Abel Matos volta a referir o não acompanhamento dos filhos pelos pais ao psicólogo, sendo que podem ter uma doença de base que necessite de tratamento. Retoma ainda o exemplo da opressão no ginásio.

Ricardo Branco, constitucionalista, afirma que a lei tutela casos de expressão mais física ou mais psicológica, em resposta ao retracto social de Sofia Galvão. Mais, afirma, segundo a constituição e o direito ao livre desenvolvimento da personalidade: “As pessoas, a partir do momento em que são pessoas, externalizam-se e aparecem à sociedade e aparecem diante de si próprias e diante dos outros, enfim, como quiserem e como se sentem melhor.”. Diz ainda que, segundo a psicologia, sabemos que somos mais software que genética, e às vezes é justamente o software que nos obriga a sermos mulheres em vez de homens, o que acontece frequentemente. Relativamente à questão posta por Abel Matos sobre a opressão no caso do ginásio, afirma que talvez tenhamos que evoluir eventualmente para uma configuração logística dos espaços para balneários de vários géneros, ou mistos. O direito ao livre desenvolvimento da personalidade, acrescenta, traz a despatologização da questão de género, que, considerando-se uma perturbação, até aqui era corrosiva para o indivíduo. Mas quando questionado em relação à parte etária, refere que é na maioridade que neste momento a lei encerra uma capacidade de responsabilidade e maturidade plenas. E, portanto, não será errado baixar para os 16 anos ou eventualmente menos até, mas com um relatório médico, não a atestar validações de género, mas sim a atestar capacidades de querer e entender a superação dos riscos pelos benefícios, desta mudança.

Catarina Marcelino, respondendo sobre as habilitações do conservador do registo civil, afirma que a situação não é nova, e que já existem muito mais casos onde estes têm que avaliar se os processos são legítimos, como no casamento, cuja idade legal é também os 16 anos.

Abel Matos volta ao assunto da imaturidade aos 16 anos, apoiando-se no desenvolvimento incompleto do córtex pré-frontal do cérebro, dizendo que é por isso que a maioridade é aos 18, e que se não se pode votar, nem fumar nem beber, mas pode-se mudar de sexo, não fazendo sentido. Refere ainda uma vez mais as patologias psíquicas, dizendo ser isto portanto um problema de saúde individual e de saúde pública.

Sandra Cunha refere que nada disto invalida o acompanhamento médico e avaliação do indivíduo, voluntário, apenas não é necessário à alteração do registo civil.

Sofia Galvão, assim como Abel Matos, contrapõem a proposta de lei dizendo que é tratada com demasiada ligeireza, pelo acompanhamento médico não ser obrigatório, e por o conservador se encontrar completamente sozinho na decisão, não sendo claras as situações em que pode indeferir o pedido, tratando-se então portanto de uma questão de empatia com o caso. Retoma ainda a ideia da expressão de género poder não vir a bater certo com o género legal, a partir daqui.
Sandra Cunha questiona qual é o problema disso, e refere que a forma como se veste e se apresenta não define aquilo que uma pessoa é. Ao que Sofia Galvão pergunta então porque é que quer mudar. Sandra Cunha retoma com a pergunta, se quiser vestir fato e gravata e usar boxers deixa de ser mulher por causa disso? Ao que Sofia Galvão responde que não. E pergunta então porque é que alguém que se apresente como mulher quer ir ao registo civil para passar a ser homem (a mesma que referiu o não-binarismo primeiramente).

 



Sofia Cunha pergunta, diz ela para se perceber como isto é político e politicamente correcto e relativismo, se falaram com os conservadores, e com os médicos. Ao que Sandra Cunha e Catarina Marcelino respondem que os médicos recomendam a autodeterminação. E Catatina Marcelino refere que não existe nenhuma objecção a que se levem os filhos ao médico, apenas não se podem fazer alterações e tratamentos modificadores às crianças sem o seu consentimento.

O debate volta ao assunto intersexo, Paolo Casella, cirurgião pediátrico responde que é muito difícil ter que esperar pelo tratamento aos 16 anos, mas refere-se apenas a uma malformação peniana de desenvolvimento específica, preferindo não tocar em questões de disforia de género, que diz não serem da sua especialidade.

Catarina Marcelino corrige que nestes casos o diploma não refere os 16 anos, e que nas questões de risco comprovado para a saúde não se coloca. Apenas em questões que impliquem modificações a nível do corpo e das características sexuais, não devem ser realizados procedimentos até que seja manifestada a identidade de género. Paolo Casella refere que o conceito de saúde é relativo.

Carla Moleiro, professora de Psicologia, questionada acerca dos 16 anos, afirma que a maturidade não tem uma idade definida. Refere ainda que a transexualidade define apenas a incongruência entre o sexo designado à nascença e o género com que a pessoa se identifica, não necessitando, nem até agora, de ter executado nenhum procedimento cirúrgico, hormonal ou outro para ser reconhecida essa identidade, medicamente no relatório avaliativo.

Abel Matos responde então que, se ao que Carla Moleiro referiu, esta lei já abrange esses casos, o que se está a fazer aqui é uma questão ideológica. E que temos que salvaguardar aqueles que não tendo um transtono de identidade de género per si, mas por terem uma patologia de base, possam ser defendidos pelo sistema de saúde. Expõe um caso de um homem de 65 anos “casado e com filhos”, que chegou ao seu consultório dizendo que era uma mulher. Estranhando que acontecesse a essa idade, encaminhou para a neurologia, onde detectou um tumor cerebral. “Foi operado e essa ideia passou-lhe”.

Margarida Faria, Presidente da AMPLOS, aponta a caricatura e jornal do incrível, que aqui se está a fazer. Aponta para a fluidez do espectro de género, e que há pessoas com a noção desde sempre da sua identidade de género. Os pais, após a angústia, costumam entender e apoiar a criança, fazendo com que consigam desenvolver-se nessa identidade. Encerra dizendo que ninguém vai mudar de sexo nos registos, vão-se alterar os registos para que passem a confirmar aquilo que muitas vezes já se sabe desde tão cedo.

Sofia Galvão acrescenta que estes diplomas confundem sistematicamente sexo e género (a mesma que descredibilizou o género pela forma como se veste e tem o cabelo) e que o sistema é binário nos diplomas, descurando outras realidades, que não se resolvem. (idem ao parêntesis).

Catarina Marcelino defende que só se fizeram mudanças em relação ao que já existia, eliminando o factor saúde destas questões de identidade. Ricardo Branco defende que talvez devesse haver uma fundamentação do requerimento no plano jurídico, dizer porquê, embora não conceba que alguém utilize esta lei para questões fúteis de apenas mudança de nome porque sim. Referindo ainda que não se pode endeusar a posição dos pais.
 
E o tempo do programa chega aqui ao fim. Acho que a capacidade de argumentação mostra a lógica da opinião no espelho da coerência dos argumentos...
 

 

"Sou ambígua e não faz mal!" - as minhas maiores (verdadeiras) dificuldades

 

Estive a pensar durante uma semana sobre o que escrever a seguir. Acho que tudo isto já se tornou tão habitual para mim, que nem sempre acho que haja tópicos relevantes sobre os quais escrever, relacionados com as rodas. O que era, afinal de contas, o meu objectivo ao criar esta plataforma. Parece que já provei a minha própria tese - bem, foi rápido!

Ainda assim, continua a haver muita coisa debatível, suponho. De repente vi-me perdida a pensar em quais seriam as minhas maiores dificuldades actuais. E, do nada, vazio... Não me lembrava de nada. Por isso é que demorou tanto a escrever um post novo.
Mas finalmente percebi. As minhas maiores dificuldades, grande parte pelo menos, não está relacionada com a paralisia cerebral. Muitas são consequências indirectas de como ela me fez ver a vida, mas há bastante tempo que deixou de ser tanto sobre as questões físicas.
Mas vamos dividir isto por partes, por uma questão de tentar ser exacta (já estou a prever que me vou espraiar em alguns tópicos), mas vamos lá então.
- Fisicamente, as coisas que acho mais difíceis são: transferências de e para a cadeira-de-rodas em situações não planeadas, ir à rua sozinha com a cadeira manual (ainda não consigo subir e descer degraus e rampas íngremes, vamos ver se a cadeira nova ajuda nisso), chegar a sítios altos (tenho 1,40m, por isso levantar-me não adianta grande coisa também), obviamente andar sozinha (mais uma vez olá triângulo amoroso pânico-espasticidade-cair, obrigadinha), dobrar os joelhos e tudo o que possa depender necessariamente disso (isto é devido a uma cirurgia que fiz em 2007, que consiste na trocar dos tendões flexores e extensores dos joelhos, por forma a conseguir esticar as pernas, o que anteriormente não era possível). E assim de repente não me lembro de muito mais.
 
Ok, agora que essa parte está despachada, podemos passar aos assuntos mais sérios. As minhas maiores dificuldades não são físicas/fisicamente minhas. E, acreditem, é bem mais fácil lidar com as que são. Há aquelas que são relacionadas com essas:
- Foi o raio de um pesadelo encontrar um apartamento que não tivesse um único degrau, sim, em plena Lisboa no século XXI (mas finalmente tenho uma casa!). Usar transportes públicos por minha conta ainda é uma dor de cabeça (outra vez, assim que aprenda a usar a cadeira nova em todo o seu esplendor poder ser que isto mude) principalmente porque quando estou sozinha tenho que usar a scooter eléctrica ( a quem interessar, é uma Invacare Colibri) o que significa ter que esperar por um autocarro adaptado e também que ele esteja vazio o suficiente para conseguir que a scooter lá caiba. E quanto ao metro, "atenção ao intervalo entre o cais e o comboio" não podia ser mais verdade para uma scooter, dos elevadores das estações nem sequer falo, que davam para um post inteiro. Outra coisa tem a ver com a arquitectura pombalina. Adoro Lisboa e não trocava morar aqui por mais nenhuma cidade (não, nem Nova Iorque), mas estes malditos degraus em todas as portas... e já disse que tenho uma tendência para gostar dos cenários mais complicados de todos? Newsflash: sou apaixonada pelos bairros mais antigos... e sim, já tentei ir de scooter por Alfama acima... bem, há coisas piores...
 
Mas não era aqui que queria chegar. Vamos à nudez então. As dificuldades que mais me impactam numa base diária são:
- Depressão e ansiedade
- Ataques de pânico (às vezes provocados pelas questões físicas que correm mal) que me fazem petrificar e não conseguir mexer-me mais
- Aceitação. Ok, esta é grande, talvez a maior de todas. O meu problema com isto assume muitas formas. Auto-aceitação, para começar: a dificuldade de enfiar na cabeça que eu sou o suficiente, que tento o suficiente e que faço força suficiente. O desafio de acreditar nas minhas próprias crenças até quando o mundo parece colapsar.
- Imagem pública: esta relaciona-se com a anterior, mas não só. A cena do "olha, ela está numa cadeira" mata-me, não vou mentir. As expectativas relacionadas com isso, maioritariamente. As ideias enraizadas de que ou somos completamente inúteis ou atletas olímpicos em ascenção. A pressão social de nos mantermos a fazer terapias, activos, andar mais, tentar mais (sim, tenho noção que também o faço a mim mesma e é uma merda). E ser chamada de preguiçosa, mais do que tudo, como se o que eu faço ou deixo de fazer não fosse opção minha, como toda a gente (incluindo ser preguiçosa se me apetecer!).
- Relação corpo-mente: claro que isto também está ligado ao resto. Mas eu aceitar o meu próprio corpo como ele é (barriga incluída) não tem sido fácil de todo. Aceitar que as minhas pernas não se vão mexer da forma que eu quero é uma das partes mais difíceis de não me ofender a mim mesma e de não me culpar por tudo.
- Sexualidade: isto é um tópico difícil. Definitivamente um post muito em breve. Mas a ideia generalizada de que nós das rodas não a temos ultrapassa-me. E depois os meus próprios medos em ser sexualmente rejeitada por causa desta merda toda... pois.
- Expressão de género: chiça, se eu queria falar disto há séculos! Identifico-me como bigénero. Então claro que uma das maiores dificuldades é não ter medo de expressar o meu lado masculino. Aceitar o pêlo, por exemplo, sem ficar auto-consciente, eu mesma, por causa do que os outros vão pensar. (Brevemente também devia explorar mais isto).
- Estilo de vida: sou uma escritora. Sim, daqueles típicos solitários. Também sou uma coruja e geralmente afundo nas minhas próprias ideias e projectos até às 6h, todos os dias. Detesto completamente as manhãs e evito-as a todo o custo. Mas a questão é, porque raio é que isto não pode ser socialmente aceite? Porque é que soo louca e utópica por viver em prol da minha arte à luz da lua, se isso para mim resulta? Em que é que isso difere de um homem de negócios que acorda às horas que eu me deito para seguir o seu sonho? É que estamos a fazer o mesmo.
 
E acho que o busílis das minhas dificuldades reside mesmo aí. Em aceitar que estou apenas a lutar pelos meus sonhos e não faz mal. Estou cá para ser feliz e não faz mal, e mais ainda que isso basta. E que as pessoas também entendam isso. Mas se nem eu mesma sou consistente, como é que os outros podem entender, certo? Errado! Completamente errado. Independentemente do quão estilhaçada ou ambígua eu possa ser, eu sei que partes de mim são realmente eu, e quais são apenas reflexos das coisas que disse acima.
E afinal de coisas, era só isso que eu queria. Que as pessoas entendessem que não sou toda feita de pinturas direitinhas e de flores, mas também não quero ser. Ainda que me ofenda a mim mesma demasiadas vezes. Estou a aprender a amar a minha própria escuridão. Estou a a aprender a libertar as minhas cicatrizes (literais e não só). Um passo de cada vez (trocadilho intencional) mas estou a chegar lá.
É isso que quero dizer: sou ambígua e não faz mal. Sou inconsistente e não faz mal. Tenho barriga e não faz mal. Sou bigénero e não faz mal. Sou ginessexual (pessoa sexualmente atraída pela expressão de características tipicamente tidas como femininas, não necessariamente apenas em mulheres - outro artigo a escrever brevemente!) e não faz mal. Sou uma sonhadora e não faz mal. Sou poliamorosa e não faz mal. Ainda estou a aprender e não faz mal. Sou eternamente mutável e não faz mal. Ainda tenho dificuldades e não faz mal. Ainda por cima sou contraditória também e, adivinhem, não faz mal! Principalmente: sou real. E qualquer dia neste mundo isso não vai fazer mal.