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INÊS MARTO

INÊS MARTO

Simão/Symone: "Gosto de cantar a solidão, ela gosta de mim, somos um par perfeito"

Fotografia: Miguel Prata

Simão Telles é também Symone de Lá Dragma. Já foi concorrente do programa The Voice, RTP.  Cantor. Intérprete. Transformista. Sonhador assumido. E, acima de tudo, uma força na luta pela igualdade. Nesta entrevista, abre-nos as portas ao seu mundo.

 

Inês Marto: Simão, comecemos por contar quem és.
Simão Telles: Olá querida Inês, olá a todos queridos leitores, o meu nome é Simão Telles, tenho 21 anos nasci no dia 27/06/1997 sou caranguejo, apaixonado, sensível amante de quem me é coração, das artes, dos poetas e de Portugal.

 

A tua profundidade é rara. Sentes que vens de outro tempo? Fala-me do teu mundo.
Sabes, há dias que penso que venho de outro tempo, de já há muitos anos atrás. E tenho dias que penso que venho do amanhã, do futuro, que estou a milhas de luz dos outros seres humanos. Para não me baralhar, e não baralhar os outros, prefiro dizer que nasci onde nasci, onde tinha de nascer, com a vontade de relembrar o passado para no futuro não ser esquecido.
O meu Mundo está e foi construído pelas feridas que a sociedade me foi impondo ao longo dos anos. As palavras machucam e doem, muitas vezes doem mais que um simples estalo. O meu mundo é a minha defesa, comecei por construí-lo no Cabaret (Bob Fosse / Liza Minnelli) aos 7/8 anos de idade e hoje acabo, já mais maduro, nas referências mais poéticas portuguesas.

 

A tua formação é de actor. Um dos teus sonhos é o Sunset Boulevard. Tens paixões inúmeras (Simone de Oliveira, Judy Garland, Dalida, etc). Há um padrão sobre o tipo de mulheres que te fascinam?
Sim, há. A mulher fatal. A mulher história, solidão, com força, garra, destruída mas amada.
A referência feminina, ao longo dos anos em que fui crescendo, deu-me gozo de ver. Quando falo em gozo, falo em prazer, falo em fascínio, o corpo da mulher é belo, o gesto singular da mulher é belo.
E depois lá está, cada referência tem o seu ponto de partida, a sua característica, mas todas elas, essas figuras que me atraem, têm algo em comum, todas fizeram a solidão a tristeza e a dor, arte!
O momento da minha vida em que eu acho que me apaixonei pela mulher foi quando ouvi o Somewhere Over the Rainbow, da Judy Garland, de um concerto que ela fez no fim de carreira, no Carnegie Hall. Foi aí que senti que aquilo era mais que uma canção, era mais que uma dor ou uma letra, era a arte. E acima de tudo era um pedido de ajuda, tão certo mas tão mal entendido.

 

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Existem fronteiras claras entre o Simão e a Symone, ou é outro lado de ti? Como é que surgiu?
Penso que quando me fazem este tipo de pergunta que estão à espera de uma resposta oposta aquilo que costumo dizer. Mas não, somos iguais, um usa peruca, outro usa o cabelo à “Vera Lagoa”, é a única coisa que nos diferencia.
Sim, a Symone é a minha plataforma, é a minha voz, nunca em Simão eu faria metade do que a Symone faz, sou uma pessoa muito calma, pacata, tímida, medrosa. Se parecer ou vos der a dar entender o contrário isso é apenas a carapaça, chama-se protecção pessoal. Os meus amigos estão escolhidos a dedo, nos dez dedos da minha mão ainda ficam alguns livres, sou peculiar, e exigente para com quem me rodeia, gosto de pessoas.
Gosto de um abraço, de um beijo apertado! Não sou do snobismo do aperto de mão, não sou rainha, sou pessoa.
Se pudesse, seria mais Symone, infelizmente não me deixam.

 

 

A tua presença tem um poder extraordinário de disrupção. Quer sobre a homofobia, quer sobre o binarismo de género, quer sobre a ditadura da imagem. És uma inspiração e um exemplo para a sociedade. E a ti, quem te inspira e te dá forças?
Desde já, obrigado pelo rasgado elogio. Fico lisonjeado quando fico a saber que tenho pessoas que admiram o meu trabalho e que entendem tão bem a minha mensagem. Fico feliz em saber que alguma coisa eu já fiz. Mesmo tentando, vou conseguindo.
Tudo me inspira sabes, as pessoas inspiram-me, a vizinha do lado inspira-me, e não necessita de ter uma história pós-dramática em morte. Basta ela fumar e já ser “antiga” que isso me inspira. O riso e o choro das pessoas inspiram-me.
Os poetas, aí esses loucos libertinos, o Ary, a Natália, o Eugénio de Andrade ... os músicos, a Simone ... a minha e de todos, Simone (que até hoje penso que foi quem me deu ao mundo do espectáculo, o conhecer de coisas tão belas como é a música ligeira portuguesa, o cheiro da vida, e a amargura de viver).

 

Também tens um lado negro, que te dá outra densidade. Por um lado é destrutivo, por outro é uma mina enquanto arte. Queres falar sobre essa dualidade?
Tudo o que canto é “gritado”, chorado, interpretado, é dor! Eu canto para pedir ajuda, o meu lado negro são as minhas dores, os meus pesares, as minhas amarguras, que ao cantar as espanto, mas que quando me deito na cama, voltam, pois sem essa escuridão tão poética, eu, Simão ou Symone, nunca iria conseguir viver bem, nunca seria o artista que gosto de ser. Eu gosto de cantar a solidão, ela gosta de mim, somos um par perfeito. Que hei-de eu fazer?

 

Neste momento quais são os teus maiores objectivos? Há projectos novos em mãos?
Neste momento, estou a passar por uma fase da minha vida em que quero tratar da minha saúde e de mim, vou submeter-me a uma cirurgia. Como não tenho trabalho na área do espectáculo vou propôr-me a esta nova fase da minha vida, para mudar de hábitos e tentar ficar ou ser uma pessoa melhor e mais saudável.
Agora um maior objectivo? Sunset Boulevard, é um grande sonho meu poder interpretar o papel de Norma Desmond, na versão musical adaptada por Andrew Lloyd Webber. Tudo é perfeito - roteiro, letras, cenários, figurinos. (Uma curiosidade - Norma Desmond foi o papel de sonho da Simone De Oliveira, que ela nunca teve oportunidade de interpretar.).

Imagina que tinhas oportunidade de ser ouvido pelo mundo inteiro. Que mensagem gostavas de deixar?
Amar. Amor. Amar e amar e mais amar.
Era o que eu gostava que todos nós fizéssemos, amar o próximo, dizer não ao ódio, regularizar e manter a paz serena.
Mais uma vez amar, compreender. Nada é fácil, mas também só se torna impossível se assim o quisermos. Eu estou aqui. Nunca pensei estar. Quero mais? Quero! Vivo para isso, tento viver. Desistir? NUNCA!

 

Obrigado Inês pela maravilhosa e confortável amigável entrevista.
Tudo de bom para ti e para o teu futuro.
Muita sorte para as vendas do teu novo livro, que eu espero que seja, e será, um grande sucesso! ❤️
Do teu queridx Simão/Symone ❤️

 

Entrevista: Inês Marto
Fotografias: Pedro Magalhães e Miguel Prata

Os processos emocionais no contexto performático

 

A dissecação dos ciclosemocionais de raiva, ansiedade e subsequente aceitação pessoal, a partir de Giovanni Frazzetto, aplicada à construção da performance (Unbreak)able.

 
(Unbreak)able - draft
A performance (Unbreak)able teve como mote e como ímpeto criativo desde sempre abase cíclica e circular em que me afundo e afloro. Em que convirjo comigo,colido comigo, mergulho em mim e depois me elevo.
Esses círculos, esses ciclos, sãotanto a base da minha autoconsciência como, por consequência directa, da minhaarte que é objecto disso mesmo. E reflexo disso mesmo.
No caso específico da performanceescolhida como termo de análise dos processos emocionais subjacentes à criação– (Unbreak)able – as causas dessesmesmos ciclos e aquilo que em mim os aviva foram desde logo questões que tiveque explorar, chegando a motivos concretos, que pautam todo o percursoemocional.
Assim, escolhi assentar a minhaautoexploração nesses gatilhos emocionais concretos, por uma questão deexistência de um caminho delineado, com uma mensagem artística a passar, queconsiderei essencial à realização do trabalho performático.
Tratam-se de variantes diversas. Mastodas convergentes num denominador comum: a forma de me olhar a mim própria eas consequências disso. Mais pormenorizadamente, aquilo que nisso implicamquestões como a minha diversidade funcional – a chamada deficiência – e como meleva a perspectivas diferentes sobre o meu corpo e a forma como com ele merelaciono; a minha expressão de género, que é também factor determinante desseprocesso e até mesmo a minha sexualidade, onde tudo isto se reflectedirectamente.
Todos estes factores corroboram umquadro geral de como sinto e penso quando me olho ao espelho, ou quando metorno consciente de mim, quadro esse que tentei transpor para o trabalhoartístico variadas vezes, entre elas a performance (Unbreak)able.
Esse é o tal quadro que digoacontecer de forma cíclica ou circular. Esse é o tal quadro que em mim traz aarte quer enquanto escape quer enquanto espelho.
Procuro aqui, na análise de How we feel, de Giovanni Frazzetto,explorá-lo nos seus prismas psico-emocionais e biológicos para uma aproximaçãomais científica, para assim conseguir dissecar e deixar explícito de melhorforma esse que é o complexo mecanismo que acaba por me pautar em tanto do quesou.
Inicio a análise por onde a iniciatambém Frazzetto, no seu primeiro capítulo, “Anger: hot eruptions”.
Frazzetto começa logo por tocar numponto realmente interessante: “Anger is also fear with an armour. It works as a defensive, pre-emptive reaction beforesomething hurtful can be done to us.”1
Essa afirmação da raiva ser tambémmedo com uma armadura leva-me a considerar, primeiro que tudo, a raiz dafrustração e raiva que expressei como parte primeira da performance.
A reacção de revolta para com o meucorpo físico assenta essencialmente no medo da fragilidade que lhe é inerente.O medo dos obstáculos que isso me pode trazer de futuro, como até aqui tantasvezes trouxe.
O medo que é consequência justificadade o mundo não estar preparado para os nossos corpos não-normativos, para anossa diversidade funcional. E o desamparo que isso nos traz, o nunca saber porcerto como é o amanhã, se não tivermos ninguém. O ninguém ser garantido, nempara nós nem para os outros. E neste caso, a sobrevivência não ser,consequentemente, garantida, também.
E a frustração que isso nos traz, pornos lembrarmos a cada movimento consciente do fio de dependência física que lápermanece. E de, no fundo, nem sabermos como vamos ser, quem vamos ser nósamanhã, e em que padrão físico nos vamos reger. Já que, para nós, nem nósmesmos trazemos manual de instruções que nos valha.
Se um dia corre suavemente, talvezconsigamos cozinhar o almoço e lavar a loiça – é como quem diz escalar umamontanha, e talvez no fim nos sintamos válidos. Mas se, por outro lado, um diacomeça menos bem, desde logo sair da cama se torna uma missão impossível. Desdelogo o corpo não reage, desde logo a força não chega, desde logo tudo cai aochão e muitas vezes a nossa força também.
E desde logo não resta outra hipótesesenão colocar essa armadura que a raiva impõe ao medo. Aproveitar a explosão derevolta, do porque é que nos acontece a nós se não temos culpa de nada, edeixar que nos comande a força.
E, bem ou mal, sair da cama, mesmosem que nesse dia o corpo nos permita força para mais do que nos fazer refénsda cadeira-de-rodas, a mesma que nos outros dias é um par de asas.
E ainda assim, de pijama, descalços ea contentar-nos com o pacote de bolachas que conseguimos alcançar, fechar aporta do quarto que deixamos para trás das costas e seguir vida. Mesmo que nasnossas quatro paredes. Mesmo que a não ter outra coisa por ímpeto nesses diasque não fazer da nossa própria dor uma porta, escrever sobre ela, pensar sobreela, mergulhar nela e dissecá-la.
Talvez então chegar à arte. Talvezentão chegar a outras asas. Talvez um artigo, talvez uma performance, talvez umpoema. Seja como for, uma semente, seja como for, qualquer coisa para que ocustoso sair da cama não tenha sido em vão.
No caso, a raiva e a ansiedade estãointimamente ligados. A raiva é consequência dessa ansiedade, desses medos. É aexplosão dela que faz tantas vezes com que não nos reste outra coisa senãocontinuar em frente.
A ansiedade, contudo, parece-me serum processo menos linear, e sem a compensação de trazer consigo a força. Aansiedade é muitas vezes paralisante. E é também muitas vezes causada pelaraiva.
O caminho é bilateral. Se por um ladoleva a ela, por outro lado o atirar ao abismo em que a raiva nos coloca, podemuitas vezes trazer novas situações de desamparo em que a ansiedade escala,levando-nos ao poço de dúvidas que nos assola.
DizFrazzetto, no capítulo terceiro, que dedica à ansiedade: “If examined carefully,some of those worries sound ridiculous, or unnecessary to say the least, don’tthey? Yet, alone in the darkness of my bedroom, I didn’t seem to have muchcontrol over them.”2.
“I began to worry about themeaning of all I had done, whether or not I had taken the right decisions inlife . It was one of those moments when I thought I needed to do everything atonce, as if the world were about to end and I only had a few hours left toaccomplish all I had ever wanted to do.”3.
Mas a ansiedade também, no contextoda segunda parte da performance, mais raízes que não estão apenas ligadas àideia longínqua de um corpo funcional.
Prende-se muito também com o corponão-normativo na expressão de género, a fluidez de género, o não binarismo, omedo da exclusão social que, além do resto, isso também me traga, que me leve àsolidão – solidão essa que se torna mais assustadora ainda se considerarmostoda a explicação anterior – o medo da minha dimensão enquanto ser sexual nãoser reconhecida, o medo do desconhecido dos outros face a mim nesse contexto eque isso os afaste, como muitas vezes me chega a afastar a mim, por disforia epor revolta da distância face aos ideais.
“Fear has a specific target.What about anxiety? Well, anxiety is not as simple. Anxiety is usually a fearof the indefinite, something that we cannot always explain or even locate inspace and time. It is unpredictable, and often the anticipation of an unknownor not necessarily incumbent threat.”4.
No fim de contas, uma espiralexacerbada de preocupações sobre a desadequação, o isolamento e os sonhosgrandes demais para a realidade, que acaba por se tornar subcutânea e muitasvezes indefinida.
Mas é o afundar-me em tudo isso queme leva à terceira e última parte da performance. A aceitação, a resignação, oconformismo – embora nunca total porque já o sei cíclico, porque já me seicíclica a mim, e porque já me sei sonhadora sine qua non – é esse precipícioque me adensa e me torna maior, porque é também esse precipício que me permiteas ferramentas de fuga e de escape que me dão propósito, que me fazem valer osdias em que todo o resto me falha.
Nesse aspecto, pode até dizer-se sermeta-performance: (Unbreak)able foiem si mesmo um ponto de fuga, uma ponte para a aceitação induzida, enquantosimultaneamente acaba por versar sobre esse mesmo conteúdo, na sua parte final.
Em última análise, apraz-sepertinente expor conclusivamente o texto que escrevi enquanto enquadramentoteórico de defesa académica da performance, que creio encapsular da minhaprópria perspectiva este padrão sobre o qual nos debruçamos:
(Unbreak)able
 
“Quis despir-me. Na verdade, queriapoder despir mais que o corpo. Depois das roupas queria tirar a pele. Depois dapele queria arrancar a carne. Depois da carne desfazer os ossos entre os dedose os dentes. E desse nada que restasse, ver nos meus despojos até onde sedemarca a minha diferença. Isto sou eu. Não sei o que isso quer dizer. Não seia forma certa de me olhares, não há forma certa de me olhares, não há formacerta de coisa nenhuma, era por isso que não sabia como fazer nada disto.Partiria tudo do pressuposto do que vês quando me olhas. E a verdade absolutade mim, nem eu a tenho.
Uma pessoa, por acaso numa cadeira,ou uma cadeira com uma pessoa? Isto sou eu. Há 22 anos que ansiava pela minhaprópria libertação. Descobri a arte como espectro das minhas prisões. Oalimentar e o alimento circular dos meus fantasmas. Tempos a fio procurei umgrito de fénix. Mais tarde percebi ser cíclica. Caminhar lado a lado com amorte, respirar cara a cara com o frágil, transpirar pele a pele com o vácuo, éisso que me renova, é isso que me mantém. Será um dos meus poucos vícios,injectar sal nas feridas.
Quis mostrar esse tanto mais. Para láde posto em causa o diferente e o igual, o que fica por ver. Não sabia como. Omeu corpo, por si só, grita teses demasiado alto para que o resto sobressaia.
Então, quis ir mais longe ainda: fizda nudez ferramenta, das cicatrizes néones para um olhar aberto, dasdeformidades um púlpito por onde te trago a olhar-me desde mim. E despojei ocaminho expectável do resultado artístico. Ao que em mim há de poeta, retirei apoesia. Deito-me por terra, o nu do corpo espelha apenas a erupção que há-devir. Faço da sujeição à minha própria infimidade desmascarada, despudorada deartifícios, o veículo para a minha própria libertação.
Era isso que me faltava – não erampoemas, não era a demonstração óbvia do físico per si, não era o simbolismoartístico de uma identidade fluida de género, ou o fio da navalha da morte –isso é o que já sou todos os dias. Faltava-me a crueza de me deixar aoprecipício de mim, puxar da raiz de todos os traumas e deixar que a realidadetomasse o seu curso de explosão. Por uma (e de uma) vez, sem estéticas, ser-meveículo e permitir-me a chorar todas as lágrimas. Incorro no risco do sufocantedemasiado, ciente disso como na vida, acompanhar-me-ão os que souberem ficar,do maior resto não rezará a minha história. Hoje enfrento os meus fantasmas,cultivá-los-ei alimentados da minha pele, suor, lágrimas, e tudo o mais queeste deliberado incurso no precipício proporcionar, para que jamais me deixem.É deles que voo. A minha vidaé isso – vertigem.”

Dissertação produzida como proposta de avaliação à Unidade Curricular de Sociologia das Artes do Espectáculo, da Licenciatura de Estudos Artísticos - Artes do Espectáculo, docente Anabela Mendes, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2018.

 

O corpo inerte e o pensamento filosófico

Como a realidade da quietude forçada me leva a um mundo maior e incuba tendencialmente a filosofia e a arte em mim, por me alastrar naquilo onde consigo: o caminho mental.

 
 
 
Assim que acordo, dia-após-dia, a noção da divergência dos meus padrões de movimento face aos de mobilidade normativa está presente. É uma presença quase latente, por existir desde que eu própria existo, mas nem por isso deixa de estar lá. 
Afigura-se quase como a consciência da nossa própria respiração – ela acontece, por si mesma, automática, só se torna manual se induzirmos a autoconsciência sobre o processo. Do mesmo modo, a pronunciação da minha própria noção de padrões de movimento diferentes está cá, apenas se encontra numa espécie de ciclo automático. 
Seria assim. E é, em parte. É assim a minha autoconsciência de padrões físicos, pelo menos enquanto o meio envolvente me permite situações de conforto e não esforço, aí facilmente me esqueço de mim. 
Por exemplo, de momento, estando sentada na cadeira-de-rodas, a redigir este mesmo texto, não me lembraria que estou como estou, caso não tivesse que me despertar sobre isso para o escrever. 
 
No entanto, não obstante o hábito em relação a grande parte do que decorre no dia-a-dia, que atenua mais essa consciência, ou pelo menos a normaliza; basta-me precisar de ir buscar um copo de água ou abrir a porta, para o meu circuito de pensamento já ser completamente diferente. 
Desde logo tenho que pensar como o vou fazer. Como conduzo a cadeira, para dar espaço de abrir a porta, como transporto o copo enquanto volto para a secretária para não entornar a água. Como acordo e saio da cama e me visto e me calço, se conseguir, nem sempre consigo, e como vivo. 
Então, desde logo, uma boa parte do meu movimento está associada necessariamente a pensamento lógico, planeamento estratégico e geralmente esforço. O que faz com que sejam as situações mais inertes aquelas que me colocam menos alerta, e, por conseguinte, mais confortável e mais tendencialmente inclinada ao pensamento livre e filosófico. 
 
Contudo, estamos ainda a tocar apenas numa parte muito superficial da minha noção corporal. Regra geral, tudo isto que descrevi se processa sem que eu própria tenha que pensar muito sobre isso – ou há mecanismos e técnicas já aprendidas ao longo dos anos, que enraizei, ou, para o que não faço sozinha, felizmente na maioria dos casos ou encontro soluções ou consigo conformar-me a alternativas. 
No entanto, há particularidades acerca da paralisia cerebral, diplegia espástica, que tornam muitas vezes difícil esquecer-me do meu próprio corpo, e manter toda a noção de mim mesma latente. Principalmente a espasticidade, como o próprio nome indica. Que consiste nas permanentes sinapses cerebrais para contracção involuntária dos músculos. 
 
Isto é, na prática, a paralisia cerebral além das limitantes no que respeita ao movimento em si, torna-me também um corpo permanentemente tenso, o que faz com que me sinta mais. Sobretudo com estímulos, a grande probabilidade é que me contraia, mesmo sem querer. No meu caso específico, resulta num padrão de corpo esticado, maioria das vezes, e voz tolhida, de respiração mais curta. 
Já tenho isso como normalizado, tanto é que perco a noção que o faço e, muitas vezes, se me vir por exemplo em gravações de vídeo espontâneas, não tenho noção de determinadas posturas ou expressões. Mas, no momento em que decorrem, mesmo que as tenha enraizadas como naturais por força de hábito, a verdade é que, pela contracção, me trazem a mim e me lembram de mim. 
 
Tudo isto me leva a sentir mais conforto em dois polos opostos – ou naquilo que me foque necessariamente no meu corpo, e talvez assim extravase o overload que sinto subliminarmente todos os dias (como é o caso por exemplo de nadar, onde sinto o corpo com mais liberdade, ou do processo de ser tatuada, em que a dor me chama permanentemente a mim e me faz “habitar” o momento, escolhendo algo que me dói porque eu quero que doa, e marcando o meu corpo porque eu o quero marcado, permitindo-me assim algum domínio sobre ele). 
Ou então, o extremo contrário disso, aquilo que me permita o mais possível a alienação e o esquecimento momentâneo. Situações como escrever, ver filmes, ver peças de teatro, ouvir música, enfim, tudo aquilo que me transporte para fora de mim, funcionam como um bálsamo, porque me permitem habitar a esfera onde sou mais livre do que a do físico: a da mente. 
 
E talvez agora esteja a chegar ao cerne da questão que aqui pretendo provar. Maioritariamente, procuro formas quietas de estar, porque me permitem adensar-me mais. 
Ciclicamente, então, é nessas áreas que mais me desenvolvo. No explorar da escrita, das artes cénicas, no observar, no estudar, no descobrir e aprofundar padrões daquilo que me rodeia, na curiosidade em entender e sentir o mundo e como ele em mim se recria e reverbera. 
Não só, portanto, o desenvolvimento autodidata que faço dessas vertentes me permite ocupar o meu tempo da forma como me sinto mais eu – sem aparentes, ou pelo menos activamente notórias, limitantes – e portanto me leva a escolhas de vida que preferencialmente passem por isso, como, circularmente, por escolher repetidamente esses caminhos para o meu tempo, me aprofundo mais no conhecimento, na sensibilidade e na abertura para eles, e vou descobrindo também outros e novos temas paralelos, tornando-se um mundo cada vez maior aquele que descubro, lendo, investigando, observando e filosofando. 
 
Um factor interessante de notar aqui também, são as cumulativas vezes em que quem me conhece virtualmente e pela escrita sente dificuldade em acreditar na minha idade cronológica. Creio também prender-se a resposta a essa questão exactamente à quietude física versus a longinquidade onde chego no pensar. 
Fisicamente, a realidade é que não vivi muito, pelo menos não tanto, nem metade sequer, do que uma cabeça sonhadora como a minha gostaria de viver. Em sensação física das experiências tenho um quotidiano, digamos, pouco temperado, para quem na verdade gostaria de perder amarras. Facilmente sou tida, por isso, como insossa ou banal à primeira vista, o que a minha natureza introvertida ajuda, mais o estereótipo que já traz por si só o “elefante na sala” que é uma cadeira-de-rodas, quer eu queira, quer não. 
 
Mas, mentalmente, não é isso que acontece. Na escrita também não é isso que acontece. Quem cria o primeiro impacto desse modo, tem de mim uma representação muito mais fiel daquilo que sinto que sou. Tanto é que coleciono um considerável rol de reacções de espanto, quando me encontro com quem chegou a mim assim e me desconhecia. Tenho na escrita o ponto de fuga. Tenho na escrita, e no pensar artístico, criativo e filosófico que lhe está associado, a minha forma de ser do tamanho que realmente sou e ainda me suplantar. 
Tenho na escrita, e na quietude dela, e em quase todas as janelas mentais que abro a descobrir mais mundo, que acabam por nela desaguar, o meu modo de chegar mais longe. O forçar-me ao corpo destitui-me desse meu propósito. É no despojar-me dele que indubitavelmente me sinto mais, e que produzo aquilo a que quem me conhece chama carinhosamente de “espasmos poéticos”, que realmente sinto irem ao encontro da minha essência e que a elevam. 
 
Creio que se fosse livre em corpo como sou em espírito, talvez não tivesse todo este mundo dentro, pelo menos não ainda. A idade não me corresponde. O tempo mental de quem se “auto-navega” é rápido demais para os relógios. Não será também ao acaso que quem me lê me chama até de “old soul”. O tempo da descoberta não espera pelos ponteiros. 
Mas acredito que se pudesse não ser presa pelas minhas limitantes – e especialmente já tendo estado deste lado e tendo noção do que perco – muita coisa não seria como é. 
Não seria assim, porque teria (e tenho, com teimosia continuo a ter) uma imensa vontade de viver o que não posso, de chegar onde não chego, de ir onde não vou, e sobretudo intensamente, e sobretudo longe, e sobretudo de modo tão frenético e assoberbado, que não me restaria tempo para pensar, nem para me adensar, nem para saber quem era, só para me sentir de uma vez e apenas – só para compensar tudo aquilo que me falta – só para o reverso da medalha, perdendo os limites de vista. 
E aí, não acredito que filosofasse, que me preocupasse em ler e investigar, que quisesse perder tempo quieta a escrever, se podia dançar de pé, se podia ser dona de todos os meus passos, se podia permanecer no fio da navalha e dar-me ao luxo de escolher brincar com a sobrevivência. 
 
Seria hipocrisia minha, se não admitisse que são muitos os dias em que trocava uma coisa por outra, caso tivesse escolha. Mas na realidade não sei até que ponto me sentiria completa. Não sei até que ponto sentiria propósito. Não quando tanto do que sou se assenta no que escrevo. E aí, chego até a agradecer, pela quietude que me é forçada, porque a afirmação mais franca que posso fazer é que não sei quem seria se não filosofasse, se não habitasse os mares que construo dentro, se não fizesse tudo o que aqui descrevi, que me abandona do eu físico para me espraiar onde ele é livre, e que tem no seu pináculo sempre a escrita. 
 
Concluo que as limitações que tenho enquanto corpo móvel, hábil, funcional, não só me tornam quem sou por não me deixarem outra escolha, como por me fazerem aguçar ao máximo todos os outros potenciais que não lhes estejam inerentes, numa espécie de acto de plasticidade cerebral aplicada à própria construção do self, em que faço uso do espaço que seria do corpo, para me aumentar no que me resta. 
Aliás, a própria experiência de redacção deste trabalho acaba por ser reflexo de tudo aquilo que tento defender: na inércia física em que redigi tudo isto, tacteei-me e percorri em mim distâncias enormes, potenciei um expoente maior da minha auto-descoberta e permiti que acontecesse aquilo que é por definição o meu meio de me expandir. 
 
Conclui-se circularmente, por tudo o que acabo de escrever, processo que é em si espelho do que ilustro, o que creio ser o ponto final ideal da minha reflexão livre, a metafísica do título: o corpo inerte no pensamento filosófico.

 

Dissertação produzida como proposta de avaliação à Unidade Curricular de Teoria e Estética do Teatro, da Licenciatura de Estudos Artísticos - Artes do Espectáculo, docente Anabela Mendes, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2018.

(UNBREAK)ABLE: a wheelchair performance


 


 

 

"Quis despir-me. Na verdade, queria poder despir mais que o corpo. Depois das roupas queria tirar a pele. Depois da pele queria arrancar a carne. Depois da carne desfazer os ossos entre os dedos e os dentes. E desse nada que restasse, ver nos meus despojos até onde se demarca a minha diferença. Isto sou eu. Não sei o que isso quer dizer. Não sei a forma certa de me olhares, não há forma certa de me olhares, não há forma certa de coisa nenhuma, era por isso que não sabia como fazer nada disto. Partiria tudo do pressuposto do que vês quando me olhas. E a verdade absoluta de mim, nem eu a tenho.



Uma pessoa, por acaso numa cadeira, ou uma cadeira com uma pessoa? Isto sou eu. Há 22 anos que ansiava pela minha própria libertação. Descobri a arte como espectro das minhas prisões. O alimentar e o alimento circular dos meus fantasmas. Tempos a fio procurei um grito de fénix. Mais tarde percebi ser cíclica. Caminhar lado a lado com a morte, respirar cara a cara com o frágil, transpirar pele a pele com o vácuo, é isso que me renova, é isso que me mantém. Será um dos meus poucos vícios, injectar sal nas feridas.



Quis mostrar esse tanto mais. Para lá de posto em causa o diferente e o igual, o que fica por ver. Não sabia como. O meu corpo, por si só, grita teses demasiado alto para que o resto sobressaia.



Então, quis ir mais longe ainda: fiz da nudez ferramenta, das cicatrizes néones para um olhar aberto, das deformidades um púlpito por onde te trago a olhar-me desde mim. E despojei o caminho expectável do resultado artístico. Ao que em mim há de poeta, retirei a poesia. Deito-me por terra, o nu do corpo espelha apenas a erupção que há-de vir. Faço da sujeição à minha própria infimidade desmascarada, despudorada de artifícios, o veículo para a minha própria libertação.



Era isso que me faltava – não eram poemas, não era a demonstração óbvia do físico per si, não era o simbolismo artístico de uma identidade fluida de género, ou o fio da navalha da morte – isso é o que já sou todos os dias. Faltava-me a crueza de me deixar ao precipício de mim, puxar da raiz de todos os traumas e deixar que a realidade tomasse o seu curso de explosão. Por uma (e de uma) vez, sem estéticas, ser-me veículo e permitir-me a chorar todas as lágrimas. Incorro no risco do sufocante demasiado, ciente disso como na vida, acompanhar-me-ão os que souberem ficar, do maior resto não rezará a minha história. Hoje enfrento os meus fantasmas, cultivá-los-ei alimentados da minha pele, suor, lágrimas, e tudo o mais que este deliberado incurso no precipício proporcionar, para que jamais me deixem. É deles que voo. A minha vida é isso – vertigem."



 



(Texto produzido para contextualização do processo criativo da performance (Unbreak)able: - Estudos de Performance - Licenciatura Estudos Artísticos, Artes do Espectáculo, FLUL 2017.)

Cógito sobre Bullying ou (Con)Sequências da Vida | 24 de Março de 2015

 



Não sou motivational speaker nem quero ser, não fosse dar-se o caso de me tornar numa espécie de Gustavo Santos da santa terrinha (passo a redundância), mas sobre isto apetece-me falar.
Na minha altura (sou muito antiga) não se chamava bullying, ou pelo menos eu não tinha ouvido falar nisso, era mesmo só a idade da parvalheira.
Naturalmente, já várias vezes me pediram para falar publicamente sobre esta questão da paralisia cerebral, mas este assunto nunca se pôs. Bem, há capítulos que de vez em quando se têm que fechar, e este já faz uns aninhos que me anda aos trambolhões.
Miúda da voz grossa que me tentava fazer a vida num inferno (para o propósito desta dissertação vou-te chamar assim, até porque continuas a não dever interessar nem ao menino Jesus), primeiro que tudo, lamento, mas só conseguiste o teu plano maléfico provisoriamente. Não digo, deixando os meandros de mim para quem me conhece, que não tenha mudado nada, mas tem alguma graça a forma como as coisas se desenrolaram.
Miúda da voz grossa, abençoada distância, nunca mais te pus a vista em cima, nem sei nada de ti. Mas tenho que admitir que me diverte imaginar-te, ainda com a tua voz grossa (desculpa, isto se calhar também é bullying) a tentar descobrir ainda quem tu és, agora que (só se calhar) deixaste de andar atrás de toda a gente em rebanho.
Tu e as outras, e os outros, também. Cada vez que me lembro que me espetavam os bicos dos lápis na borracha, em jeito de protesto silencioso... santa inocência.
Ah, miúda da voz grossa, outra coisa gira era quando me chamavas puta... das duas uma, ou 'tadita não sabias o que isso era, ou então deixa-me que te diga que tens uns standards muito baixos...
Para a próxima que quiseres gozar avisa, entretanto aprendi umas graçolas giras, com esta coisa do teatro, é capaz de ficar mais criativo que isso, hein?
Isto para dizer o quê? Ah... está-se bem, cá por Lisboa, até quase que me esqueço que exististe. Mas depois lembro-me que às vezes é preciso partir muito carvão para se encontrar diamantes. Acho que te devo um obrigada por isso, miúda da voz grossa, fizeste-me elevar a fasquia.
E um desculpa, que provavelmente ter-me como alvo por tantos anos não foi fácil, deve ser por isso que ficaste para trás.
(Considera-nos quites.)

 

 
Texto recuperado de 24 de Março de 2015, já que, numa onda de balanços e reavaliações de mim mesma, voltei a dar de caras com ele e o achei sinceramente bem mandado demais para o deixar ali.

Contentar-me com o que é meu? O meu agora é o do amor | 5 de Janeiro de 2016

 
Texto recuperado de 5 de Janeiro de 2016:
 
Derivações do silêncio: 5 de Janeiro de 2016 (às minhas âncoras):
Aqui, na mesma cama onde tantas vezes já chorei e ri até não respirar. Onde já jurei pela vida... não voltar e onde voltei sem ser capaz de ficar longe. Aqui onde tanto se fez casa à força do amor, como se manteve no fundo da garganta esse sabor a lugar estranho. Onde se manteve o desejo de mudar. Onde permaneceu a esperança de um amanhã mais risonho. Aqui na mesma cama que podia ter sido qualquer uma das camas por onde passei, girou o disco e voltou a tocar a mesma canção em todas. Onde encostam testa com testa estilhaços de traumas e insónias e a força de acreditar que se pode chamar casa de qualquer palmo de terra onde nos possamos amar em paz... as vezes que me ecoaram estas últimas palavras na cabeça...
Pergunto-me muitas vezes, vezes demais, tanto porquê como para quê esta insatisfação. Vezes demais porquê estas asas que teimam em crescer, vezes demais para quê este sonhar tanto e o só estar bem onde ainda não cheguei. Porque é que não me conformo a caminhos curtos, a saídas fáceis, a zonas de conforto. Porque é que não ouço as maiorias que tanto disseram que dava passos maiores que a perna e me chamaram utópica. E provavelmente o continuarão a fazer lá longe, que eu, à força de voar mais e mais, não estou lá para ouvir.
Certo é que tenho muitos "ses" a ecoar, vezes demais. E me pergunto em demasia como raio seria se me tivesse conformado à condição que tanta gente achou que me estava imposta e que eu - teimosa - teimo em chamar de característica. Certo é que sobram noites a mais a pensar se não quererei afinal voos maiores que os que consigo alcançar e não deveria antes contentar-me com o que é meu e ficar assim.
E a resposta é não. Até hoje foi não e continua a ser não. E se deixar de ser não, ou sou finalmente feliz ou algo de muito errado se passou comigo. Continua a ser não. Não aqui, não assim, não. Teimosa, pois sou.
Pergunto-me vezes demais o porquê desta insatisfação que me parece permanente. E há um chão de vidro que estala e me transporta de novo ao que ficou a ecoar.
E continua a ser não a esta vida como ela é hoje porque quero ser alma velha e arte em paz. Porque quero ser do contra, dos horários dos poetas, do deitar-me com o sol nascer em nome de fazer arte, das tertúlias regadas, do chão cheio de papéis, das dores de cabeça dos projectos por fazer e dos nervos das estreias e dos prazos a acabar. E do gira-discos a tocar fora-de-horas porque a arte chama e de uma casa cheia de desalinhados para quem os sonhos falam mais alto. Dos que fazem casa de qualquer canto porque aquele nosso canto será casa por ser nosso, de quantos nós quisermos ser, desde que sejamos felizes.
Continua a ser não, porque afinal ainda ecoa o poder amar em paz, o poder ser dos desalinhados em paz, sem ter que obedecer a regras ocas dos caminhos direitos porque sim.
Continua a ser não, porque assim como está o agora me tenho que lembrar das âncoras mais vezes do que as posso sentir. Porque quero ser convosco sempre que quiserem ser comigo. E que possamos sê-lo juntos sempre que nos apetecer, mais vezes do que nos lembramos à distância da falta que estamos a fazer. Continua a ser não porque quero uma vida e um lugar onde o campo de batalha se dissipe e onde possa espraiar o lado que as âncoras nunca desistem de colorir. Continua a ser não porque quero um agora onde só custe o que tiver que custar. Onde possa chamar-vos, ter-vos e ficar-vos, e ficarmo-nos. E conversar noite fora ou não fazer nenhum.
Continua o inconformismo porque quero um agora onde não seja preciso agarrar-me às nossas memórias porque vos posso ter comigo sempre que quisermos ter-nos. Porque não quero procurar agoras onde vos possa amar em paz e continuar o eco. Continuo a sentir as asas crescer, mesmo que não devessem, porque quero um agora onde possa ser-vos casa e limpar os escombros de uma vez. Quero um agora onde, além de tatuados na pele, me estejam tatuados na vida sem que se imponham barreiras, já chega que seja difícil quando tem que ser, que o meu agora não nos impeça o amor.
E então que as maiorias (para quem isto não fará sentido nenhum) me chamem mimada e exigente e me apontem o dedo à falta de racionalidade. Felizmente, sou alma velha e desempoeirada, mesmo quando o agora não o permite, que fará quando puder ter a vida que quero. Continua a ser não, continuo a sonhar, porque sou ancorada a quem me faz acreditar que a melhor casa é o amor. E eu - teimosa - hei-de conseguir chegar às quatro paredes onde possamos ser o que quisermos.

Tornar-me arte | tatuagens como libertação do corpo

A procura é incessante. Insaciante. Nunca sabemos como vamos acordar amanhã. Fluidez de género é uma viagem permanente. Não estou a ser poética. Não estou a ser poético. Também não vou dizer que é um calvário, tem o seu quê de belo, a permanente metamorfose que nos acontece dentro. Vou aprendendo a gostar-me, nas minhas múltiplas vertentes e nos limbos delas, um dia de cada vez, um momento de cada vez. Bigender fluid - bigénero fluido - se tivesse que ter etiqueta era essa.
 
 
 
Oscilo em muita coisa. É apenas mais uma, que sempre me foi tão natural como respirar, ou talvez mais, respirar já teve vezes de ser um problema, isto nunca. O único senão é a disforia. Crava-se como facas. Não a tenho só de género, tenho-a de capacitismo também, em relação ao corpo funcional, hábil, fisicamente capaz, de mobilidade normativa.
 
Olho o corpo que não queria vezes sem conta. Não me corresponde. Não me parece meu sequer, tem vezes que pareço ter que acordar-me, reavivar essa sensação de pertencer à pele, ou tudo resta com a noção de sonho - às vezes pouco - lúcido.
 
Tem dias que queria ter barba. Tem dias que queria ser diva. Todos os dias queria pernas. Todos os dias queria asas. Quase todos os dias acabo por inventá-las. Tem dias que queria ser esteticamente escultura. Tem dias que desejava que houvesse o referencial do que pode ser um corpo bigender fluid, não comprometedor de nenhum dos meus polos. Tem dias que acho que o encanto de eu ser eu é não ter solução.
 
 
 
 
Desenquadro-me. Potencialmente de cada vez mais maneiras. É o que é ponto. Parece que não nasci para ser linear. Tem dias que já penso sorte a minha, pode ser que carregue comigo algum dia a bandeira do humanismo despudorado, se continuar a aprender a beijar as minhas próprias feridas.
Não, não sei se vou parar de engordar. Síndrome do ovário policístico (PCOS) e prolactina alta (hiperprolactinemia) -devíamos ser mais a falar disto, com urgência. Não, não sei se me vai apetecer depilar-me todos os meses. Sim, a testosterona tem a ver com isso. Em metade da disforia sempre ajuda. Pois não, não faço o exercício que devia. Nem que o fizesse, nem que tivesse as pernas como queria para isso, dadas as estatísticas muita sorte tenho eu em não estar pior.

Tem dias que gostava de ser magra (muitos, demasiados). Tem dias que me martirizo. Tem dias que não queria ter o peito assim (muitos, demasiados), em metade da disforia desajuda. Sim, PCOS tem a ver com isso. Falta de progesterona tem a ver com isso. Hiperprolactinemia tem a ver com isso. Com isso e com mais uma longa lista de complicações. Não, não me chegava ter só um problema. Se calhar chegava, mas vou dizer outra vez, é o que é ponto.
 
 
 
 
"Não sei o que sou, sei que me sinto dispersa. Não sei o quequero que saibam de mim. Sei que queria deixar de ser presa pelos fantasmas queprovavelmente criei: do não saber já sonhar, do ficar agarrada à vida pelaesperança de um qualquer fio de prumo que me tire do meu vazio ou me estendapelo menos uma mão na escada (talvez seja ela, se não se afastar com este meunão ser nada), do querer aceitar o corpo e todos os dias chorá-lo porque não osinto meu, porque não me sinto eu, porque não me correspondo, porque não seiquem sou, mas sei o que não sou e que muito disso me habita. Do sermulher-homem sem ter a certeza até que ponto hoje e amanhã. Do quase nuncaolhar nos olhos pela ferida enraizada de que não mereço gente comigo, masqueria. Do querer falar e não sair a voz. De me trair o pânico de ter queexistir e fazer ocupar no mundo o meu espaço, o medo da minha bolha de solidãoser interpelada e que me vejam o caos que nem eu sei, que se nota nos meusbraços que se fecham, na minha cara espástica, na minha voz sufocada àtentativa absurda de quebrar o silêncio, cada vez que me olham nos olhos."
Escrevi algures e resume bem onde quero chegar. A procura é incessante, dizia. Mas encontrei uma tábua de salvação. Contra não caber nas caixas da sociedade, não só quis começar a pensar fora delas, como as decidi ir desfazendo com unhas e dentes; não obstante ainda lutar muitas vezes comigo mesma, não sejamos hipócritas e falsos moralistas, mas começo a resolver-me.
Tábua de salvação, dizia. Tornar o meu corpo não higienizado pelos padrões um estandarte do não-binário, antes de ser fotogénico, antes de ser comercial, antes de corresponder ao híbrido que afinal sonhava ser. Deixar de procurar ser estátua polida, acrobática. Antes tornar-me espectro. Antes deixar de importar a (dis)forma do meu corpo. Antes deixar de ser corpo. Passar a ser dança, espástica mesmo, presa mesmo, fazer dos limites o meu próprio padrão de beleza, deixar de me encaixar nos vigentes. Não querer mais ser vigente. 
 
Antes deixar de ser corpo, dizia. Passar a ser arte. Cobrir-me de tinta, de tatuagens. Tornar-me livro feito pele aos poucos que me sabem ler. Antes passar a ser bandeira aquilo que realmente escolho que me representa. Aí sim. Ter-me como proa, porque passo a ser obra, não padecerei de correcções inerentes a padrões externos. Nada mais importará. Serei sereia tatuada. Tornada signo de pássaro livre. Oxalá consiga. A minha libertação será essa, quero acreditar que sim, tornar-me eco da minha alma, grito do despudor. Assim, cobrir-me de tatuagens devolver-me-á a mim. Passo a passo.
(Imagens: screenshot frames de performance por Inês Marto)
 

Espelho visceral (Inês Marto e Paula Sá)

“Um coração pronto a pulsar na nossa mão”. Fomos O’Neill feito sal nas veias. Sulcámos as nossas pegadas na densidade do frágil. Consumámos a impotência, a verdade escura, contida e amarrotada. A que não pulula, a que não se diverte nem se convence. Traçámos os contornos à floresta dos medos. A boca sobre os dedos. Os olhos sobre as asas. O espírito consumado ao peito.Almejámos o longe. E na consonância das respirações encontrámos um salão de baile onde se dança por instinto; de um quase-toque sem tocar, de um quase-verso sem falar, de um todo-abrigo à mera existência.Nos passos firmes pousámos incertezas. E sobre os copos das ânsias enfeitámos um abraço. Sussurrámos as lâminas ácidas nos silêncios que pesavam à bagagem. Depois abandonámos as malas. Despimos a pele, hora após hora, trago após trago. Engendrámos novos passos, de sombra em sombra.Desenhámos de cor a expressão, como quem se sabe de outra vida. E fomos ferro e fogo e céu. E fomos útero e queda e túmulo. Do intangível tecemos redes onde despojar o corpo. E de sempre em sempre quebrámos horizontes a pulso. Os braços sobre o tronco. O flutuar sobre as tábuas.Um labirinto venoso disposto ao toque. Um abrir dos braços feito mundo. Um luar de raízes enleadas feito dança. O permanecer solar de uma essência feita chamas, que se adensa no entrelaçar de duas mãos abertas, fluidas, crescentes, que se libertam no espelho visceral.

Identidade de Género - debate ou salganhada ilógica conservadora? | Prós e Contras (RTP)

 

Resultado de imagem para pros e contras
 
Antes de mais nada, fica o link para o debate. Ia escrever ontem sobre tudo isto, mas tendo em conta o pano para mangas que muitos argumentos apresentados, que nem a argumentos chegam, às vezes chegando a tocar no ridículo mesmo, me ia dar, adiei.
E depois percebi que talvez não fosse preciso muito mais do que justamente expor passo por passo o que foi dito, para que ficasse de caras a completa falta de lógica apresentada pelos elementos neste caso contra a proposta de lei. Realmente a única argumentação válida e coerente que consegui extrair desse lado foi mesmo o questionar então e os restantes géneros não binários, onde ficam no meio disto, porque não, a fazer uma alteração, permitir a todo o espectro de género.
Sol de pouca dura, no entanto, pois não tardaram a cingir mulheres a características estereotipicamente femininas e homens a masculinas, apontando até um caos social pela permissão da alteração de género, quando a expressão do mesmo não lhe correspondesse de maneira aparentemente óbvia. De resto, foi um incessante bater na mesma tecla, mesmo depois de rectificações. Isso e um desvio do tema para casos particulares e questões mais que rebuscadas. 
Sem mais demoras, deixo então que o conteúdo do debate fale por si próprio, até porque a responderem a alhos com bugalhos como aconteceu, fica difícil mesmo comentar seja o que for. 

Desde logo o programa abre com o título “mudança de sexo aos 16 anos”, referindo-se à proposta de lei da alteração da idade permitida, de 18 para 16 anos de idade, com acompanhamento parental e sem necessidade de relatório médico, no que concerne à mudança de género apenas em registo civil. O procedimento é referido como alterações sem volta atrás.

Catarina Marcelino ressalva que aquilo que se está a fazer é retirar os factores de saúde de uma questão que é identitária e não patológica. E que a lei não se refere a operações de mudança de sexo, não tendo portanto a ver com saúde, é apenas a mudança de nome e de género em cartão de cidadão e registo civil. Destaca ainda o plano para tornar as escolas mais inclusivas para as crianças trans, formando também os professores para a questão.

Sofia Galvão discorda da proposta de lei. Aponta a transsexualidade e disforia de género como diagnósticos de perturbação da identidade. No entanto, distingue sexo anatómico de género, na elaboração do seu discurso, argumentando até que as mudanças de sexo deviam sair do binarismo vigente.

Sandra Cunha rectifica a questão da criminalização dos pais pelos filhos caso não aceitem a mudança de sexo, esclarecendo tratar-se apenas da actuação do Ministério Público na defesa dos interesses da criança, nos casos necessários. Acrescenta ainda que a autodeterminação é um direito fundamental, não susceptível de validação alheia. E que os jovens têm essa capacidade de autodeterminação, manifestando-se até desde muito cedo nas crianças. E a disforia de género decorre muito da impossibilidade de assumir o género e a descriminação da sociedade perante a situação. “Os médicos não avaliam identidades. Cada pessoa é que o sabe no seu íntimo”, encerra.

Abel Matos, psicólogo, declara que isto é um tema político porque não tem nada a ver com a área científica. Distingue também sexo de género, referindo até a multiplicidade de géneros existentes e o não-binarismo. No entanto, prossegue dizendo que vamos ter pessoas a mudar de género que não são transsexuais porque não vão fazer nada com o seu corpo. Dá dois exemplos, para explicar porque acha a lei ridícula: uma mulher trans que no final do treino num ginásio “vai tomar banho com as senhoras, com o seu pénis masculino”, considerando-o uma opressão. Refere ainda o exemplo de um homem trans que tenha engravidado, tornando-se um “homem grávido”, uma novidade em termos mundiais. E termina esta primeira intervenção referindo a autoridade do conservador do registo civil para avaliar a capacidade psíquica; e ainda diz haver questões de saúde pública postas em causa, devido às cirurgias realizadas aos bebés intersexo passarem a ser apenas realizadas em risco de saúde evidente, e também devido a ficar ao critério do jovem decidir ir ou não ao psicólogo, não podendo ir contra vontade. O psicólogo refere que há doenças psíquicas que podem levar a pessoa a pensar que é de outro género.

Catarina Marcelino quando questionada sobre a maturidade aos 16 anos, refere que a essa idade há muitos jovens que já têm a sua expressão de género e identidade formada, até muitas vezes com apoio dos pais. Portanto devem ter direito a que a sua identificação e forma como são legalmente tratados a reflicta.

Sofia Galvão responde dizendo que um indivíduo com expressão de género feminina, com esta alteração agora se quiser, pode fazer a mudança civil para género masculino e vice-versa (embora tenha anteriormente distinguido género, sexo e expressão de género; e referindo até o não-binarismo); refere que estamos a caminhar para uma sociedade em que na rua alguém tem uma aparência que identificamos como um género, que depois pode ser algo completamente diferente. Volta a proferir “perturbação da identidade de género”. Diz ainda que os conservadores do registo civil vão dizer que sim ou não com base na empatia que tem com os casos, sendo que não tem relatório nenhum.

Daniela Bento, mulher trans, traz contributo ao debate, mostrando as diferenças que existem até em meios mais conservadores, não existindo sequer informação ou linguagem relativa a estas questões de género, havendo também uma opressão muito maior. Introduz também a perspectiva de género enquanto constructo e performance social, e refere também que é segundo a expressão desses quadros referenciais estereotípicos que os médicos validam ou não a legitimação da mudança de género; forçando os indivíduos a performar segundo esses mesmos quadros, por forma a poderem fazer a mudança autorizada pelos médicos.

Abel Matos volta a referir o não acompanhamento dos filhos pelos pais ao psicólogo, sendo que podem ter uma doença de base que necessite de tratamento. Retoma ainda o exemplo da opressão no ginásio.

Ricardo Branco, constitucionalista, afirma que a lei tutela casos de expressão mais física ou mais psicológica, em resposta ao retracto social de Sofia Galvão. Mais, afirma, segundo a constituição e o direito ao livre desenvolvimento da personalidade: “As pessoas, a partir do momento em que são pessoas, externalizam-se e aparecem à sociedade e aparecem diante de si próprias e diante dos outros, enfim, como quiserem e como se sentem melhor.”. Diz ainda que, segundo a psicologia, sabemos que somos mais software que genética, e às vezes é justamente o software que nos obriga a sermos mulheres em vez de homens, o que acontece frequentemente. Relativamente à questão posta por Abel Matos sobre a opressão no caso do ginásio, afirma que talvez tenhamos que evoluir eventualmente para uma configuração logística dos espaços para balneários de vários géneros, ou mistos. O direito ao livre desenvolvimento da personalidade, acrescenta, traz a despatologização da questão de género, que, considerando-se uma perturbação, até aqui era corrosiva para o indivíduo. Mas quando questionado em relação à parte etária, refere que é na maioridade que neste momento a lei encerra uma capacidade de responsabilidade e maturidade plenas. E, portanto, não será errado baixar para os 16 anos ou eventualmente menos até, mas com um relatório médico, não a atestar validações de género, mas sim a atestar capacidades de querer e entender a superação dos riscos pelos benefícios, desta mudança.

Catarina Marcelino, respondendo sobre as habilitações do conservador do registo civil, afirma que a situação não é nova, e que já existem muito mais casos onde estes têm que avaliar se os processos são legítimos, como no casamento, cuja idade legal é também os 16 anos.

Abel Matos volta ao assunto da imaturidade aos 16 anos, apoiando-se no desenvolvimento incompleto do córtex pré-frontal do cérebro, dizendo que é por isso que a maioridade é aos 18, e que se não se pode votar, nem fumar nem beber, mas pode-se mudar de sexo, não fazendo sentido. Refere ainda uma vez mais as patologias psíquicas, dizendo ser isto portanto um problema de saúde individual e de saúde pública.

Sandra Cunha refere que nada disto invalida o acompanhamento médico e avaliação do indivíduo, voluntário, apenas não é necessário à alteração do registo civil.

Sofia Galvão, assim como Abel Matos, contrapõem a proposta de lei dizendo que é tratada com demasiada ligeireza, pelo acompanhamento médico não ser obrigatório, e por o conservador se encontrar completamente sozinho na decisão, não sendo claras as situações em que pode indeferir o pedido, tratando-se então portanto de uma questão de empatia com o caso. Retoma ainda a ideia da expressão de género poder não vir a bater certo com o género legal, a partir daqui.
Sandra Cunha questiona qual é o problema disso, e refere que a forma como se veste e se apresenta não define aquilo que uma pessoa é. Ao que Sofia Galvão pergunta então porque é que quer mudar. Sandra Cunha retoma com a pergunta, se quiser vestir fato e gravata e usar boxers deixa de ser mulher por causa disso? Ao que Sofia Galvão responde que não. E pergunta então porque é que alguém que se apresente como mulher quer ir ao registo civil para passar a ser homem (a mesma que referiu o não-binarismo primeiramente).

 



Sofia Cunha pergunta, diz ela para se perceber como isto é político e politicamente correcto e relativismo, se falaram com os conservadores, e com os médicos. Ao que Sandra Cunha e Catarina Marcelino respondem que os médicos recomendam a autodeterminação. E Catatina Marcelino refere que não existe nenhuma objecção a que se levem os filhos ao médico, apenas não se podem fazer alterações e tratamentos modificadores às crianças sem o seu consentimento.

O debate volta ao assunto intersexo, Paolo Casella, cirurgião pediátrico responde que é muito difícil ter que esperar pelo tratamento aos 16 anos, mas refere-se apenas a uma malformação peniana de desenvolvimento específica, preferindo não tocar em questões de disforia de género, que diz não serem da sua especialidade.

Catarina Marcelino corrige que nestes casos o diploma não refere os 16 anos, e que nas questões de risco comprovado para a saúde não se coloca. Apenas em questões que impliquem modificações a nível do corpo e das características sexuais, não devem ser realizados procedimentos até que seja manifestada a identidade de género. Paolo Casella refere que o conceito de saúde é relativo.

Carla Moleiro, professora de Psicologia, questionada acerca dos 16 anos, afirma que a maturidade não tem uma idade definida. Refere ainda que a transexualidade define apenas a incongruência entre o sexo designado à nascença e o género com que a pessoa se identifica, não necessitando, nem até agora, de ter executado nenhum procedimento cirúrgico, hormonal ou outro para ser reconhecida essa identidade, medicamente no relatório avaliativo.

Abel Matos responde então que, se ao que Carla Moleiro referiu, esta lei já abrange esses casos, o que se está a fazer aqui é uma questão ideológica. E que temos que salvaguardar aqueles que não tendo um transtono de identidade de género per si, mas por terem uma patologia de base, possam ser defendidos pelo sistema de saúde. Expõe um caso de um homem de 65 anos “casado e com filhos”, que chegou ao seu consultório dizendo que era uma mulher. Estranhando que acontecesse a essa idade, encaminhou para a neurologia, onde detectou um tumor cerebral. “Foi operado e essa ideia passou-lhe”.

Margarida Faria, Presidente da AMPLOS, aponta a caricatura e jornal do incrível, que aqui se está a fazer. Aponta para a fluidez do espectro de género, e que há pessoas com a noção desde sempre da sua identidade de género. Os pais, após a angústia, costumam entender e apoiar a criança, fazendo com que consigam desenvolver-se nessa identidade. Encerra dizendo que ninguém vai mudar de sexo nos registos, vão-se alterar os registos para que passem a confirmar aquilo que muitas vezes já se sabe desde tão cedo.

Sofia Galvão acrescenta que estes diplomas confundem sistematicamente sexo e género (a mesma que descredibilizou o género pela forma como se veste e tem o cabelo) e que o sistema é binário nos diplomas, descurando outras realidades, que não se resolvem. (idem ao parêntesis).

Catarina Marcelino defende que só se fizeram mudanças em relação ao que já existia, eliminando o factor saúde destas questões de identidade. Ricardo Branco defende que talvez devesse haver uma fundamentação do requerimento no plano jurídico, dizer porquê, embora não conceba que alguém utilize esta lei para questões fúteis de apenas mudança de nome porque sim. Referindo ainda que não se pode endeusar a posição dos pais.
 
E o tempo do programa chega aqui ao fim. Acho que a capacidade de argumentação mostra a lógica da opinião no espelho da coerência dos argumentos...
 

 

Asas e tinta na pele | Frida Kahlo by Bilotta Tattoo

 

 
 
 
 
 
O tal Sábado que nunca mais chegava. 7 de Outubro. Nuncatinha tido processo destes tão talhado pela doçura como aconteceu com Igor, quefez o atendimento virtual de Bilotta Tattoo (da Don't Cry Collective). Sentia-me em casa, antes sequer de terchegado, e não, não é exagero.
 
Quem é Bilotta? Pois bem, chegou a mim de surpresa. Como foisempre, esperava um sinal do universo de quando e como tornar derradeira em mima auto libertação de que tinha escrito o manifesto recentemente. Sabia que aresposta era Frida. Encontrei Bilotta Tattoo no Facebook, quando não procuravasequer, nesse compasso de espera. Apaixonei-me. “O tatuador mais fixe do Rio de Janeiro”,estava escrito. Não tive dúvidas porquê. Até self-tattoos ele tinha feito, deperder o ar.Ficava em Lisboa até ao fim do mês e zarpava. Era a vida a dizer-me que eraagora. O caminho fez-se.
 
Batiam as quatro da tarde certas, quando cheguei ao estúdio.Nervosismo nada, por mais estranho que fosse. Bilotta sorriu-me enquanto saíado carro. Os meus olhos brilhavam, tenho a certeza. “Então, me fale de Frida, me conta.” – abriu-se mundo ali.Falei dela como se fosse eu, falei de mim como se fosse ela, não sei bem ondese apaga o nosso ponto de fusão na verdade. Olhei Bilotta nos olhos, comoraramente faço. E ali havia verdade. Tanto foi que não tardámos a falar de fadosequer. E se precisasse de mais certezas de que tínhamos o mesmo comprimento deonda, estavam ali.
 
Desenhou em mim o primeiro rascunho. Disse ele que era só aparte de criança a divertir-se com uns rabiscos. Frida foi baixando em nós.Conversámos como se nos conhecêssemos há anos. Bilotta teve uma facilidade demestre em ver-me para além do que se vê mais imediatamente. O processo todofluiu. A energia toda fluiu. Mostrei-lhe Raquel Tavares. Ouvimo-la. Falei-lhede Alfama, também se tinha apaixonado já. Mais uma prova de que era dos meus.
 
E entre dedos de conversa sobre arte e existências,estudámos Frida, vi-o absorvê-la, enquanto me agradecia várias vezes o presentede fazer isto. Aquele não sei quê de onda gigante que une os que são desta raçaestava ali, diante dos nossos olhos. Captou-a. Amor à primeira vista.
 
À primeira linha disse “Que Frida esteja connosco.” E esteve,se esteve. Seis horas passaram. Uma eternidade xamânica. Uma dor demetamorfose. Lágrimas na linha de transbordo às vezes, por cada ponto de asasque se fazia pele. Outras vezes uma tranquilidade quase transe. Estou quasecerta de que nas nossas respirações estavam até entrelaçadas. Olhávamo-nos nosolhos um ao outro e estava ali patente – a força de Frida, a minha libertação,a arte que só se faz com esta entrega.
 
Bilotta deu-me as asas. E tenho a certeza que o soube tãobem quanto eu. Estava na cara. Estava na pele. Estava naquelas palmas quebatemos e que pareceram ecoar por Lisboa inteira quando levantou a agulha doúltimo ponto, era uma da manhã.
 
Se Frida esteve connosco? O que havia de Frida em nósemergiu ali. Foi isso que nos atou os laços, estou certa. Bilotta ficou umamigo. Pouco me importa o imediatismo com que o digo, abri-lhe a porta à minharaiz. E ele, com a sua arte elevada, deixou-me gravada a certeza que não mehavia de esquecer da força que essa raiz tem.
 
 
“Pies, para qué los quiero si tengo alas pa’ volar?”escreveu Frida no diário, corria 1953. Foi a frase que deu mote a isto tudo.Meta-voo dos meta-voos… Frida tornou-se as asas ela mesma. Foi dia demetamorfosear-me, ode à auto libertação, manifesto na pele, se foi. Saí alada.