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INÊS MARTO

INÊS MARTO

O simbolismo da cor na dança | reflexão artística

Texto elaborado como resposta à avaliação escrita da unidade curricular de Teoria e Estética do Teatro, leccionada pela Professora Anabela Mendes, da Licenciatura em Artes do Espectáculo, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a 1 de Junho de 2018, sob premissa da reflexão do significado da cor enquanto elemento simbólico na arte, e, mais especificamente, na dança:

 
 
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Dimitris Papaioannou - Primal Matter
A questão da cor é desde sempre vasta. Prova-se ser algo profundamente enraizado histórico-socio-culturalmente. Quer no seu simbolismo, quer no efeito que em nós provoca. Do luto às celebrações, do culto religioso às atribuições de género e das ideologias políticas até aos poderes xamânicos.
Subliminarmente, e sem que na maioria das vezes estejamos cientes disso, a influência da cor denota-se um pouco por todo o lado.
Elogio frequentemente a negritude de certos timbres e improvisos vocais. Conotou-se um estilo à raça que lhe deu origem. Conotou-se uma raça à cor da pele dos que a compõem. Mas estará a negritude de alguém pendente da melanina? Pendente do berço? Pendente do meio envolvente? Quem diz negritude diz qualquer outra sensação de casa. Provirá do pó astral que nos compõe? Da memória ancestral? A sensação de pertença, o lugar no universo...
Conheço "evidentemente brancos" de alma negra. E aí? Tornar-se-á a cor um espectro referencial de encaixe da essência também? A abordagem ao tema poderia ser tanto mais múltipla e profunda quanto mais me debruce sobre ele.
 
 

Mas, por abreviação analítica, escolho centrar-me em Primal Matter de Dimitris Papaioannou. O corpo e o nada. O eu e a ausência. A incompletude do ser. A pele e o vácuo. A cor da pele e o vazio. O negro como o vazio. A vermelhidão do corpo contraído em esforço. O que fica, com tudo isto, presente na memória, são reflexões sobre o eu e o seu caminho. O eu e as suas batalhas. O eu e a sua pequenez que se agiganta na busca de sentido. O eu e o outro. O eu e a sede de encaixe. E a esperança de voo.
Também a bravura da conquista. Também a loucura do sonho. Também o intangível como ímpeto. É tudo isto feito a cor de pele e negro, a luz e sombra, a suor e madeira e a transparências de água.
A presença da cor será talvez uma gravura volátil na parede da memória. A dança é pintura em movimento.
Terá a cor do corpo hábil o sabor que lhe imagino? Como será a sensação de dominar o movimento de nós mesmos? Tudo isto me fascina.
Quem sabe eu, evidentemente disfuncional, pinte da minha própria paleta de corpo frágil, espástico, indomado, também novas cores com que fazer dança: a cor das cicatrizes sobre o metal das rodas. E talvez assim atinja a minha liberdade, na demanda de saber de que cores se pinta a força.
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Dimitris Papaioannou - Primal Matter

Sereia de coração

Quarta à noite. Outra como tantas. A passar por vídeos d' A Gaiola das Loucas enquanto tentava escrever alguns projectos planeados. Quando uma amiga me envia um vídeo de música. O que me leva a um vídeo da performance da Pink, "Try". A conversa desenrola-se e começamos a falar de dança e de expressão corporal.
Por estranho que pareça, corpos "funcionais" (à falta de melhor termo) fascinam-me completamente. Tendo eu paralisia cerebral desde, bem, sempre... Sempre me perguntei como é a sensação de simplesmente comandar o corpo e ele fazer aquilo que se quer sem imprevisibilidades. Talvez seja por isso que a dança me fascina tanto.
Nós, os que têm paralisia, somos ironicamente obcecados por controlo. Porque temos que ser. Temos que estudar os nossos passos, prever os nossos movimentos, desenvolver as nossas estratégias e chegar a um nível à prova de bala com uma mão cheia de planos alternativos no caso de tudo falhar, porque o nosso corpo de repente decide que o que já fizemos mais de 100 vezes desta vez não vai resultar.
Então sempre me questionei quão libertador deve ser não ter que fazer um rascunho detalhado de basicamente tudo para conseguir sobreviver. Sinto que nós estamos sempre em modo de sobrevivência.
Pessoalmente, mudava muita coisa se houvesse um simulador de paralisia cerebral para os amigos experimentarem, porque às vezes é impossível colocar por palavras a nossa forma de existência física.
Os corpos com paralisia cerebral, a diferentes graus claro já que tudo varia tanto individualmente, estão sempre sob algum tipo de tensão física, especialmente os espásticos como eu.
Recentemente descobri o Gregg Mozgala, um actor com paralisia cerebral que entrou num projecto (no mínimo) interessantíssimo chamado Enter the Faun, onde a coreógrafa Tamar Rogoff usou shaking e body scripting, duas técnicas que tinha desenvolvido para os seus bailarinos. A primeira para libertar tensão acumulada no corpo e a segunda para promover consciência física através da tradução do movimento num guião de palavras. E uma vez aplicadas a um corpo com paralisia, as técnicas obtiveram resultados absolutamente extraordinários. Gregg conseguiu movimentar-se como nunca antes tinha conseguido, e permitiram-lhe explorar-se a profundidades físicas como nunca tinha sido capaz. (Este vídeo ilustra bem as técnicas e os resultados).
Tudo isto levou a minha cabeça a começar a indagar sobre a consciência corporal. Parei de fazer fisioterapia quando tinha 15 anos, tinha começado antes de fazer um ano. Principalmente porque queria viver. Porque estava cansada da dor. Não havia muito mais a fazer. Talvez uma nova forma de alongar. Talvez agarrar um cubo em vez de uma bola enquanto andava... talvez mais duas ou três coisas que a longo prazo mudavam não virtualmente nada. Tinha percorrido um longo caminho e estava feliz com ele. O resto era manutenção. E mais que isso era uma questão de inventar as minhas formas de fazer o meu corpo colaborar para alcançar o que queria - e isso é algo que nenhuma terapia me ensinou: criatividade e desenrascanço. Que era o que eu sentia que precisava mais, bem mais do que rotinas dolorosas.
Ainda não sabia o que era capacitismo. E como discordava disso. Para mim, estava só a viver à minha maneira. Só recentemente, muito recentemente, é que desenvolvi a minha opinião sobre paralisia cerebral e como antes quero entendê-la e jogar com ela do que tentar apagá-la, como expliquei neste artigo.
Mas dito isto tudo, ainda sinto falta de exploração física. Exactamente por isso mesmo. Para conseguir aprender os padrões da paralisia e jogar com eles, tenho que me explorar mais a fundo e testar os limites desses padrões. E ainda está por encontrar um método de o fazer (o mais próximo até à data foi a aproximação de Tamar, que ainda não encontrei forma de fazer em Portugal)... Ou será que afinal tenho método?
Recentemente também descobri a  Leandrinha Du Art, um ser completamente fantástico, activista dos direitos trans, artista, youtuber e ícone, que também por acaso usa rodas. E descobri um texto maravilhoso no blogue dela onde se vê como uma sereia.
De repente juntei as peças todas e entendi. Se calhar não foi à toa que quando era bebé queria ser sereia. Que me sentava à beira mar à espera que crescessem as barbatanas que me haviam de libertar. Que descobri o meu porto seguro e o meu ex libris simultâneo no oceano. E que é quando nado sozinha que tenho as melhores ideias artísticas, também. Afinal tenho uma maneira de me auto-explorar e libertar. É tornar-me aquilo que sou no meu núcleo: uma sereia.
A minha primeira peça de escola até foi o Fora do Mar, pelo amor de Deus, estava destinado a acontecer.
Sinto uma liberdade e sensibilidade únicas quando estou na água. E é inegável que me permite explorar-me de maneiras que nunca era capaz de outra forma. Não só consigo andar sozinha como até descobri que sou capaz de saltar, vamos falar de fenómenos?
Talvez não tenha sido ao acaso sequer que os meus sonhos mais loucos em tempos eram dançar dentro de um aquário gigante em cima do palco...
Talvez eu seja uma sereia nascida no corpo errado, e tudo o que eu tenho que fazer é continuar a nadar à minha maneira e recusar-me a ir ao fundo!