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INÊS MARTO

INÊS MARTO

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O poder do feminino: transformismo, um eco de alma


Há coisas em nós que não se conseguem explicar nem com dois dedos de conversa, nem com meia dúzia de páginas de texto. O efeito lunar que o poder do feminino tem em mim é uma delas. E o pináculo disso, para mim, está no transformismo, por ser uma ode à mulher.
Não me esqueço tão depressa da última noite. É virtualmente impossível ser amante do transformismo neste país e não cruzar amores com a Deborah Kristall (Fernando Santos), a figura máxima actual deste panorama. Sorte das sortes, uma porta leva à outra. Neste caso, o corredor de portas foi circular.
O fascínio levou-me à Gala Abraço 2016. O André E. Teodósio tinha-me levado a Valentim de Barros. Também levou o José Raposo, que foi júri na Gala. Um ano depois, estava a subir ao palco, na Gala Abraço 2017, por um texto sobre Valentim de Barros, pelo José Raposo. Direcção Artística? Fernando Santos.



Demasiada coincidência? Há mais. A Gala Abraço trouxe-me o Paulo Monteiro e o dezanove... foi uma questão de juntar as peças. A noite passada o dezanove fez com que voltasse ao Finalmente, onde tinha ido só uma vez, e desejado ser transparente para poder ficar lá a absorver tudo aquilo.
Abençoada entrevista, abençoado regresso. Como o mundo dá voltas... Como é que isto tudo aconteceu? É cíclico, o meu voltar a pesquisar coisas sobre este mundo, há pouca coisa, mas nunca se sabe se alguém deixou sair mais um pedacinho de magia a público.
Via uma das entrevistas mais recentes do Fernando Santos, quando me vieram intuitivamente à cabeça perguntas que um dia lhe faria, se pudesse. Escrevi-as, porque... bem, porque não se perde nada... estava longe de imaginar é que ia ganhar tanto.
Tive um rasgo qualquer de desfaçatez, mandei as perguntas ao Paulo Monteiro. A próxima coisa que sei é que estava à porta do Finalmente, de salto alto sobre rodas, e as perguntas iam ser feitas. O que eles não sabem, nem quase ninguém, é como tudo isto (passo o duplo absurdo) é como caminhar sobre nuvens.
Vem de há muito tempo, o amor ao transformismo. Nem sabia o que era transformismo. Tinha visto uma reportagem da "Gaiola das Loucas" de Filipe La Féria, na televisão. A Zazá do José Raposo havia-de vir a ser muito mais  do que imaginava. Explica-se essa parte da história pelo texto que leu o José Raposo no lançamento do meu livro Combustão, em Março de 2017 (sim, mais uma das portas do meu corredor circular de coincidências felizes):
 
 
A Inês de 14 anos não sabia o que era transformismo. A Inês de 14 anos viu, absorveu, amou. A Inês de 14 anos sabia estar ali uma das peças da sua verdade, que não sabia como agarrar. Cresci em Fátima. Não se falava "destas coisas", lá. Ainda hoje não se fala.
Não sabia que havia espectáculos dedicados à arte do feminino, sabia só que qualquer coisa, nesse exacerbar por um lado e nesse contraste por outro (a androginia é outro estímulo), chamava por mim.
Descobri pela televisão que havia, algures lá longe em Lisboa, um lugar chamado Finalmente onde havia espectáculos assim. Não imaginava sequer que se pudesse pagar e entrar. Tinha para mim a ideia de um lugar de secretismo inatingível. E ninguém a quem perguntar.
Cada vez que tinha a oportunidade de ir a Lisboa, de fugida, pedia para passar pelas zonas onde se dizia, muito poucas vezes e em surdina, onde elas (travestis/crossdressers) costumavam estar mais vezes. Olhava pelo vidro do carro, e queria ficar ali, na esperança que me aparecesse uma Zazá emplumada... A fluidez de género ainda era um mistério. Já a sentia, só não sabia que existia pela rua livremente e de modo quotidiano.
Cheguei a Lisboa para ficar, finalmente. Mudança das mudanças. Cruzei-me com amigos com esse mundo por casa. E eu sempre na concha. Sempre no medo, sempre no pano de fundo de onde vinha, do inatingível que isso era, do nem se fazer perguntas. Mas sempre com os olhos brilhantes a cada migalha de descoberta.
Fui aprendendo da história do transformismo enquanto espectáculo o pouco que encontrava sem referências nenhumas.
Não sei onde cheguei ao nome Deborah Kristall. Sei que se abriu mundo. Achava mais que óbvio, ainda assim, que não poderia lá chegar, ver por mim. Era assunto para tirar da cabeça. O difícil era conseguir.
E de repente a Gala Abraço, um "Tenho que ir!" mais forte que tudo. Ainda não tinha entrado no S. Luiz quando vi, pela primeira vez aquilo era verdade. Faltou-me o ar como falta a uma criança a dar de caras com uma princesa da Disney.
Finda a noite sabia que tinha encontrado uma das peças que me faltavam há tanto tempo. E tinha a certeza e a vontade assoberbante de fazer parte desse mundo. Só não sabia como.
É aí que se fecha pelo menos esta parte do círculo: Valentim de Barros, José Raposo, a semente lançada.
No ano seguinte a concretização. E com a concretização uma porta aberta para o mundo às cores. Com a porta aberta, o dezanove. E com o dezanove, a maior coroa de glória: afinal podia lá chegar, não só lá cheguei como fui recebida e reconhecida, simplesmente por me querer dar ao que afinal sempre foi parte conjunta da minha raiz.
Não tenho melhor forma de finalizar do que deixar que o momento fale por si. Que seja um círculo de muitos. Que eu faça parte deste mundo, é uma honra e um eco de alma.

- Entrou neste nosso universo, não é?
- Espero que sim!




Nice to meet you

My name is Inês. I am currently 21 years old, living in Lisbon, Portugal.

Still studying - taking a degree in performing arts. I aim to be a playwright, a theater producer, maybe a lyricist, maybe a collumn writer too and god knows what more. Basically I want to work in the artistic and literary fields in however many ways I find I might have a certain drive for.
Breathing on wheels is my third blog. I currently hold two more platforms, both in Portuguese: My site Inês Marto where I post creative writing and poetry quite often (I have also recently published my first book Combustão, a selection of texts I published for the last 7 years)  ; and Teatral-Mente Falando which is about theater, actors and plays being made currently in Portugal.
Maybe it wouldn't be a bad idea to explain the title. Here goes nothing then:
I was born on the 3rd of September, 1995. 3 months  premature (26 weeks of gestation) , with a twin brother. Rumour has it we didn't even have fully formed lungs back then. Which ended up in me having cerebral palsy, spastic dyplegia to be more specific, as a life-long companion.
Further on I am sure there will be more details about this, but long story short it affects my moving ability. With surgeries here and there and many years of therapies, I can manage pretty well to do the most that I want to - but we will also go deeper into that soon.
The thing is I have some... let's say unusual views about life and handicaps and recoveries and all that jazz.  I always said that I wouldn't do this. That I wouldn't speak up about the wheelchair. That I wouldn't even make space for it in my business card (yeah, it's a metaphor, I'm not that much of a serious person to have one of those - yet). It is precisely why I finally brought myself to do this - mhmm, I'm controverse as hell and if you plan on staying I'd advise you to get used to that - but no, this isn't going against that principle of mine - yes, I'll admit that I am confusing too - like I said, it is precisely why I did this.

The aim of Breathing on wheels is to show that there is so much more to us than actually merely breathing while on a wheelchair - hence I said on, not in, that's right - quoting Aaron Wheelz Fotheringham (if you dont't know who he is, do yourself a favour and meet one of the most epic people I have been lucky to find out about) “When someone says ‘You’re in a wheelchair,’ it’s like saying that I’m confined to my chair, I’m ‘on’ my wheelchair; I ride it like a skater ‘on’ a skateboard.”
I aim to write freely in here. Maybe actually become a social person even - the sky is the limit, right? - time (and feedback) will tell. Wether it is related to wheelchair life or not. Maybe by doing so I can show how it is not such big of a deal, riding wheels. Sometimes. Sometimes it is a pain in the ass (quite literally too, I may add). But that is exactly my point. Sometimes the spotlight is on it. Other times you barely notice it. Some days I feel it as an extension (quite a rusty one, glad I'm gonna get a new one pretty soon) of myself, and other times there comes the "why me?" again, and I wonder how it would be if there were no wheels needed.
I'm gonna be raw here. I'm gonna be a person here, not a motivational coach. Maybe to the extent that I might regret this someday, who knows. The first step has been taken. Hang on close by and I'm gonna open the window bit by bit to my twisted mind.

Colaboração | A Cor do Meu Verniz

Screenshot_1Recentemente fui contactada pela Vanda Leite, autora do blogue A Cor do Meu Verniza propósito de um passatempo, com parceria da Chiado Editora, para que os leitores se habilitassem a ganhar um exemplar do meu livro Combustão.Na sequência do contacto, surgiu a entrevista, que pode ser lida neste link. Através da qual me dou um pouco mais a conhecer.Como disse (para quem me acompanha nas redes sociais) não acaba aqui. Proporcionou-se uma colaboração. Começarei muito em breve a parceria com a Vanda. Não quisemos que fosse uma simples cedência de textos. Portanto, passar-se-á assim: a cada data de publicação, a Vanda escolherá uma palavra, sobre a qual eu devo ceder um texto (dos que podem encontrar aqui).Os mais atentos já devem conseguir adivinhar com qual começa - a primeira palavra escolhida é "celebração".A partir de agora, vemo-nos também então, n' A Cor do Meu Verniz  

Circo de pedra

Há dentro de mim ruínas invisíveis. Ossos do ofício de me desmoronar como um trago para essa sede maior. Coliseus devolutos do circo de feras de pedra que me dançam na cabeça.
Saltas o muro. Não te afligem os destroços. Caminhas no meu abandono como palma da tua mão. Apanhas do chão as pedras caídas do meu trilho. As que se fizeram cicatrizes insolúveis.
Olhas-te ao espelho partido que sobreviveu à erosão. Toca-lo. Revês-te. Fundes-te. Mostras-me as estátuas do teu circo. Ambas cobertas do pó e do musgo de que se faz a solidão.
Na tua alquimia de ser humana, fazes das minhas pedras perdidas bolas de sabão entre os teus dedos. Agarras-me. Envolves-me. Sem dizeres mais, jogamos de caras no mesmo tabuleiro de contrastes.
Ensinas-me o xadrez de estar viva. Descobres-me o mundo por dentro dos olhos, descobres-me a vida por dentro da pele, descobres-me o perfume por dentro da alma.
Passeias na minha distopia como uma primavera sem relógios. Vais-me tacteando as peças.
A tua distopia é uma praia rochosa. A minha um antro de anseios caído aos céus. Sento-me escondida entre as tuas rochas. Observo-te o mar. Absorvo-te. Aprendo-te. Temos a pedra em comum.
Ao sabor do nosso vento, há um jardim junto ao mar onde se plantam as estátuas da nossa fraqueza. Erguer um trono ao vulnerável, torná-lo fogo a céu aberto: esse é o nosso acto de amor.
No nosso circo de pedra, só esperamos uma coisa: verdade. Já tenho onde cair viva.

Debruada a pérolas

Visitas-me o vácuo remanescente da condensação involuntária que se fez em mim.
Pisas com passos cautelosos de silêncio o chão de mim, feito de restos de tempestade. E no sentir-te chegar sobre a madeira do meu quarto desamparado fazes suscitar mais vida e mais tamanho.
Fazes-te música ao ouvido das minhas ânsias. Agigantas-te em mim, como uma onda tatuada na clavícula trave-mestra da minha solidão. Puxas de mim fios que entrelaças nos teus. Dos meus olhos sobram lágrimas escondidas para que nunca mais acabes.
Dou-te a pele inexplorada, a que só tocaram os meus desgostos.
E, na tua trascendência, fazes do meu limiar a janela destrancada por onde me vês como gostava de ser. A voz de terra que se incendeia forma em mim balões dissolúveis, convidas-me a  percorrer-me sem latitudes.
Observo-te, escudada entre o corpo e o precipício que o separa de quem sou. Do teu porte gostava de saber fazer desenhos, como os pinto mentalmente. Bebo taças da tua visceralidade debruada a pérolas, escondida nos cantos mal iluminados de mim.
Toco-te. Faz-se mundo. Tento respirar. Deixo que me invadas. Preenches a queda entre o nevoeiro onde me habito e a verdade.
Desamarro as cordas. Há consonância na voltagem dos nossos tempos-sonhos. Deixo que me inunde a tempestade que  trazes contigo.
Descubro novas paredes à minha casa devoluta. Encostas-te a elas, deixas-te sentar no chão. Acompanho-te. Traço-te e acaricio-te as raízes, no longe de onde venho. No fim do mar abraçam-se. No fim do mar somos mais.

Deserto verde

Amanhecer e um deserto verde. Luminosidade expansiva perpétua flui pelo tecto do nada. Árvores retorcidas ásperas espalhadas à toa. O ensurdecer do pensamento. Prédios de néon transbordam o desvanecer da noite. Viagens incessantes. Estradas fora. Rumos sem fim perante os olhos que se deixam ultrapassar parados. Gente desenfreada e um deserto verde.
Ao fundo, o vulto branco de arder gaseificado luminoso torna-se silhueta de um rapazinho sem nome. Lá nas colinas do deserto verde, do outro lado da estrada. Talvez o rapazinho sem nome que gostava de ter sido. Da árvore mais pequena e menos longe dos olhos faz sem pudores um varão.
Do corpo etéreo fundem-se a roupa e o nu, a superfície e o núcleo: é feito do cíclico aflorar de essências e pulsões, do resto quase nada importa. Passa a ponta dos dedos e o sexo pela aspereza do tronco, olha-me destemido. Passa a língua lenta pelos lábios, sem que se lhe note rasto.
Sem desviar os olhos, toca todas as árvores pelo caminho, varões da infindável noite de que faz coroa de existir, e que faz espelhar aos poucos - talvez nenhuns - que o conseguem ver.
Salta o muro com as pernas sedutoras. O vulto luminoso - rapazinho branco - define-se aos poucos. O contínuo aflorar define-se em forma-corpo, múltiplo. Atravessa a estrada sem olhar, imune às prisões mundanas.
Caminha como quem continua a dançar. Ao fundo permanece o deserto verde. Estende-me a mão como quem seria capaz de me tocar - definem-se os dedos, funde-se comigo por segundos - Abraça-me as costas - definem-se os braços, aquece-me como se fosse verdade - permanece sem cara, permanece sem imposições, permanece caleidoscópio do que quer que queira ser. Rapazinho branco permanece livre, metafísico, meta-sexo. Encosta a cara no meu ombro, sinto-lhe a barba - que naquele momento lhe apetece ter - segreda-me ao ouvido: Bernardo. E esvai-se. Sobra amanhecer e o deserto verde onde habita, mas só quando lhe apetece.

Subterfúgio

Ultrapassemos a estranheza dos corpos. Saibamos a detalhe as nossas unhas e o eco dos corpos fundidos um no outro. Façamos da boca pares de pétalas cadentes com que celebramos a reciprocidade da noite.
O tempo externo teima em ser câmara lenta e os teus dedos tecem-me bordados inéditos por dentro dos órgãos, contorcidos na gastrite de ser só. Cola em mim a electricidade que trazes nos olhos, não desfaças, espalma contra os limites do meu existir os teus suspiros feitos vapor contra a madrugada branca da minha pele nua.
Suprime os passos na areia grossa, passa o sal pelos cabelos e passeia o desenho fluido do teu corpo na contra-luz da alvorada, de encontro à espuma rarefeita do mar onde costumamos vir para despejar segredos, no permanente vaivém das ondas que um dia gostava que me levassem para longe.
E ainda que não existas, não me negues a eterna quimera de um sonho, caminha comigo, com os dedos frágeis cortados contra as rochas de braços abertos e de peito livre. Ainda que não existas, ultrapassemos os horizontes da carne. Ainda que não existas, faz-te cinza e que do queimares-te se levante ar quente, que se erga aos céus e se faça o meu perfume. Consome-me. Ainda que não existas, por-te-ei no pescoço e atrás das orelhas e esfregar-te-ei, na fricção de ambos os pulsos onde gostava que pudesses vir dar beijos, como que promessas que não te abandono na terra dos vivos.
Ultrapassemos a estranheza dos corpos. Porque ainda que não existas, talvez seja a nossa inexistência o subterfúgio onde me reanimo melhor.

Contra-senso-vício

O silêncio de mim grita. Gostava que a minha cabeça tivesse um gravador. Não me apetece a fisicalidade de escrever, nem o som das teclas, nem sei daquele caderno, o epitáfio gigante dos meus dias que não revelo a ninguém.
Resigno-me, que remédio. Estou cansado deste ecrã, não mais que da minha própria cabeça e da voz dela: esse misto de resíduos secos de tabaco e tragos de cerveja quente, que não tem nome, que não tem olhos, que tem a cadência mais rápida do que os meus dedos.
Imagino-te na cadeira vazia onde te eternizei quando estiveste, porque fui menos sozinho. Porque não me apetece ser sozinho, não hoje e não agora. O silêncio de mim grita, dizia.
Tenho cigarras que não se calam cá dentro, apetecia-me embebedá-las com o Porto barato do fundo do armário. Não me apetece beber sozinho.
Finjo-me vivo. Despejo o tempo para fora das pálpebras. Não estou a aguentar qualquer tipo de som, porque me lembra que existo. Salva-me a música, que me é neutra pela raiz.
Tenho, contudo, que a recusar por hora, para que me afunde. Porque sem chegar ao fundo de mim não me torno a encontrar a superfície.
Este estado de desencontro é um contra-senso-vício onde tenho que - mas não aguento - estar. Será na infindável procura sem solução que me descubro, pela precisa impossibilidade de me descobrir? Será esse o catalisador de reinvenções de mim próprio, aquilo que me impele a continuar caminho, revelando-se a cada passo imprevisível e sem margem de manobra?
O silêncio de mim grita, enquanto caio no permanente abismo como sede intravenosa. A lucidez é um assombro. Exploro os incessantes padrões de luz fluorescente que trago dentro dos olhos fechados, procuro-lhes sentido como método de permanecer em queda lenta. Anseio a vertigem e o sufoco pela libertação dela: essa luta mantém-me vivo.
Ardo-me. Procuro fotogramas de ti nos milímetros da queda, de todas as solidões acompanhadas que são pesadelos em forma de multidão, a tua parece saber-me bem.
O silêncio de mim grita. Acordo-me para continuar os dias.

(Des)digo

Cai cinza na superfície estagnada das minhas sinapses liquefeitas. Assenta disforme provocando embriagados desígnios tribais de uma chuva irrepetível. No rio que sou dissolve-se a poeira do teu existir. O meu sangue coagula-se perante a tua invasão, que me deixa o corpo tolhido, mas que ainda assim sabe bem.
Olhei-me há pouco ao espelho, como quem procura a verdade no fundo inatingível dos olhos tristes, não me (te) encontrei. Privo-me por sistema de acreditar na tua permanência, como um leopardo com farpas espetadas nas manchas da pele, a fugir ao toque.
Observo a minha essência esfumar-se diante de um reflexo que não reconheço. O exterior torna-se câmara lenta e difusa. A tua invasão revela-se agulhas quentes na nuca que quero mas não quero apagar. O meu ritual de destilar-me em texto é interrompido pela existência psíquica de ti. Agitas-me as águas. Quero mas não quero que te vás embora. Quero mas não quero que me arranques a carne. Quero mas não quero que me consumas sem dó. Quero mas não quero que me queimes as imposições quotidianas.
(Des)digo o "mas", se me tocares com o indicador nos lábios e me fechares os olhos de tal forma que acredite que, desta vez, não és ave que só vem na primavera, sem chegar a pousar as malas na brancura do meu peito.
O pior disto foi sempre o ter que te inventar em nomes e olhares incertos, em cabides de peles fugidias - quanto mais melhor - porque se ficasses arriscavas despir-me de mim... E depois do mergulho o que restava? Nada. E depois da corrida o que restava? Nada. E depois de me tornares as águas baças com o teu pó de astro inconstante, o que restava? Nada. Um fundo de olhos triste onde não me (te) conseguiria encontrar, outra vez.
Deito-te a cabeça sobre a mesa, desligo-te o autómato de estares viva. Queria só que me olhasses nos olhos. Que a falta de haver o que dizermos, por uma vez, dissesse tudo. Mandasse às urtigas as úlceras que tenho no estômago e as peladas escondidas que não deixo ninguém ver, culpa das noites sem dormir porque não havia a certeza disto: de que, um dia, o nosso silêncio havia de dizer tudo.
Desfaço a pele aos pedaços e convido a que me habites sem porta de saída. Mas fecho os olhos, as pálpebras convulsionam.
Cai cinza do teu cigarro e o tempo não passa, a realidade também não, acumulo nos cantos do amor-que-não-sei-se-queres coisas que tinha para (mas nunca te posso) dizer. À tona de mim ficam decalques dos anjos que desenhámos deitadas, ao relento em noites sem nome nem realidade.
Cai cinza. Quero mas não quero. Fica.

 

 

Os poetas não... 

Os poetas não deviam ter horários. Foda-se. Porque é que me excita o clitóris criativo a neblina mental dos barbitúricos que estou à espera de tomar? Os poetas não deviam ter horários. Porque é que a boca não me sabe sempre a laranjas? Porque é que me pesam as pálpebras? Os poetas não deviam ter sono. Os poetas não deviam ter fome. Os poetas não deviam ter horários. Foda-se. 

Porque é que o corpo me chama permanentemente às rotinas de existir? Os poetas não deviam ter ouvidos. Os poetas não deviam ter relógios. Porque é que não tenho a língua feita de canela e grãos de café? 

Os poetas não deviam ter obrigações. Os poetas não deviam ter moralidade. Os poetas não deviam ter tendinites. 

Porque é que não tenho as tuas mãos pintadas a detalhe na cabeça como queria ter no colo? 

Os poetas não deviam ter anemias. Os poetas não deviam ter medo. Os poetas não deviam ter vergonha na cara. Os poetas não deviam ter roupa no corpo. 

Porque é que não sei a que sabe a tua saliva quando escorre no meu tórax exausto enquanto abandono o corpo no sofá enrugado e deixo de existir, cativo do meu próprio precipício identitário? 

Os poetas não deviam ter género. Os poetas não deviam ter amarras. Os poetas não deviam ter bom senso. Os poetas não deviam ter horários. Foda-se. 

Porque é que não sei a que sabe o rasto da minha pele refém do verniz das tuas unhas? Porque é que não sei como soam as tuas costelas contra a parede falsa do meu peito? Porque é que não sei de cor o som que deixas escapar dos lábios fracos enquanto te passo a barba e os beijos no pescoço? 

Os poetas não deviam ter pudores. Os poetas não deviam ter latitude. Os poetas não deviam ter tamanho. 

Porque é que não sei como soa a minha voz nos teus pesadelos? Os poetas não deviam ser unívocos. Os poetas não deviam ser tridimensionais.

Porque é que não sou amorfo? Porque é que não me evaporo? Porque é que não me deixas dormir? 

Os poetas não deviam sucumbir ao cansaço. Os poetas não deviam ter tona de água. Os poetas não deviam ter salvação. Os poetas não deviam ter atenuantes. Os poetas não deviam horários ... Os poetas são o pleonasmo do próprio ser. Os poetas não deviam ter definição.