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INÊS MARTO

INÊS MARTO

Só assim

Então não me preenchas. Nem me decifres. Muito menos me concluas. Pouco me interessa se tenho estrutura ou coesão, importa-me a textura e a respiração, antes do mais que exista. O som e a arte e a onda e o pulsar. Então não me entendas nem me venhas resgatar. Ser náufrago é necessário, e saber respirar sal. E perder-me em sensações, orgásmicas ilusões de ADN espiral.Então não me acompanhes, deixa-me ser só, contigo. Que seja eu a escolher entre relento e abrigo. E deixa-me morrer em mim, quantas vezes me apeteça. Porque só assim renasço, na ante-câmara de algo mais. Só naufragando estilhaço os horizontes banais.Como uma bala gelada que perfura um vidro fosco. Sensação de agulhas quentes em auréola nos pulmões. E uma gaiola de pavor, cristais e superstições. Quero ter casa nas estrelas, exacerbar abandono, exorcizar os fantasmas e rasgar a métrica e as rimas e desfazer cogitações, quero depenar a lógica, amputar os teoremas e corroer as funções. E esfaquear filosofias e estrangular frases feitas e enforcar o quotidiano. E apedrejar o normal. E pontapear parábolas e incendiar matrizes e atear os referenciais.E quero dar cabo do tempo e das bússolas e do norte e das pedras e dos passos e dos beijos. Quero ser para lá de louco onde a loucura transponha e não reste se não nada. E no nada fazer-me atómica explosão do que é feita a poesia. Nem sonetos nem quadras nem cabeça ou pés ou esqueleto. Arte só sem mais nada e vazio. Papel molhado à chuva de fogueiras subcutâneas.E transgredir a pele e desafiar a alma. Então não me entendas. Nem queiras que seja feliz. Sem ser triste sou banal. E não me restam se não dias iguais aos dos outros. E morro sem a loucura, na vida engavetada dos contentores que há no hoje.Deixa-me ficar contigo nesta alienação desfeita. Não venhas, mas dá-me a mão. Devagar e sem que a sinta. Fica, sem que te note. Não me decifres, muito menos me concluas. E deixa-me ser louco para lá da ponte onde a loucura se suicidou. Porque só assim.

Carlos Vieira

Náufrago (Carlos Vieira)

Sinto saudades tuas e de quando me habitas. À falta disso, não sou se não paredes devolutas de uma casa naufragada em pó e ponteiros. Fazes-me falta, por muito que me pese em confessar-to. Pesa-me também que vivas sem mim tão leve e intacta e segura dos teus próprios passos. Mas ao mesmo tempo que me pesa, conforta-me saber que não precisas de alguém como eu.Por muito que me concretizasse o precisares de mim, a ti, ia destruir-te aos poucos como a morte certa de um cigarro na neblina de uma tarde de outono à saída de um hotel qualquer.Sou como o mar, cujo aparente encanto, passando o tempo deixa apenas marcas e erosão nas rochas que nada mais fizeram se não ser-lhe ocupantes, preencher-lhe o vazio estado líquido de existência vã e salgada e fazê-lo casa.Nada mais fizeste tu se não fazer-me casa a mim e dar um propósito à carne e à pele e aos átomos que passeio dia após dia em passos pesados, cinzentos e sempre banais. Consequência desta minha tendência ao pensar excessivo, apercebi-me antes que o tempo tardasse a mais para serem irreversíveis as carícias erosivas que te ia decalcando no corpo.E vim embora sem to poder explicar. Não ias entender, nunca ninguém entende, pois que nunca ninguém ao olhar o mar se lembra da erosão, perde-se sim a pensar na sua grandeza. Julgas-me desapaixonado de ti, por tua lógica. Pois é o exacto reverso que me levou a partir. A minha densidade sem querer atracar-te-ia de mansinho a uma existência inquieta de quem não se conforma com os dias porque sim. E esse peso não quero nunca dá-lo nem dividi-lo nem afigurar-me sê-lo para ninguém. Apenas urjo em que saibas que te deixei unicamente por te querer demais. E recear que o meu querer-te te afogue na obscuridade que no fundo só tu serias capaz de estilhaçar.Sem mim tens mais asas, que não sei ser se não âncora. E mais leme, que não sei ser se não porto. E mais sonhos, não sei ser se não sal. E mais vida, não sei ser se não poeta.

Carlos Vieira

Contracurvas (Carlos Vieira)

Sopro frio, lento arrepio... pela pele, pela alma, poro a poro... cada pedaço de pele que toca... desfaz, dissipa, liberta...

Explora, descobre, desvenda e quebra... quebra barreiras, fantasmas sem fundo...

Evapora tempestades, leva o barco em novo rumo.

Efémera, imprevisível, montanha russa, fugaz...

Em beijos mordidos com sabor a mar... dedos entrelaçados e o imenso de um olhar...

E cinturas que dançam em curvas de solidão...

Enfim cujas contracurvas preenchem o coração.

Caleidoscópio (Carlos Vieira)

Lábios que,como faíscas enchem de fogosas labaredas o meu âmago... doce pele com pele, beijo com beijo...

Leve dança de amantes como balões de ar quente, entrelaçados...

Alma com alma... pulsação desenfreada e inspiração certeira...

Bebo-te... inalo-te o cheiro e o sonho, o embargo da voz e a magia do olhar...

Sinto-te, analiso-te com precisão de ponteiro... e o tempo passa num voo.

Quero-te aqui, agora... envolve-se nas roupas aroma teu, noite fora.

E é magia sem fim, de cada vez especial.

É dança a dois, jogo de cintura, navio de espelhos, obra de arte...

É fogueira de índio nativo e vento agreste, improvisado ritual...

É sede, caleidoscópio... desejo... amor, afinal.

 

 

Vertigem (Carlos Vieira)

Bebo sem fim as curvas do teu corpo, entre o fumo dançarino de um cigarro demorado... Respiro-te a pele, o sonho, o suspiro e a melodia do olhar. Rasgo-me num ritual de encantos, perco-me em ti, em compasso lento e estudado... Passo a passo vou desbravando esse labirinto de fogo, a tua mente, com cuidado digno de pluma.

Absorvo-te a pele, o cheiro, o cansaço... Oásis de sonho em espelho de luzes... Sopro ao de leve, arrepio-te a alma em gesto meticulosamente lento...

Sinto-te então... toco-te as mãos, efémeros espectros... Arrepio, choque, vertigem fugaz...

Anseio-te no mais profundo do âmago... esse espírito selvagem, coração descompassado...

E cada traço do rosto, e cada beijo molhado... e cada espiral de desejo, cada sonho, cada abraço... Esculpi-os como arte, feitos estátuas de memória e batom.

Fogo fátuo (Carlos Vieira)

És fogo fátuo, olhar de mel... O arrepio encantado, compasso descompassado... E o congelar do tempo, em vão, numa correria louca o pulsar do coração... E vibram os sonhos calados cá dentro... de lábios, de abraços, de alma e de pele...

És chama ardente, fogosa mulher, musa escondida num verso qualquer... e a vertigem, o choque, o suspiro... a garra, as palavras, o gesto sentido... O beijo, a caixa de memórias, o sonho...

Os silêncios e o tempo que voa e não passa, a ânsia, a sede e labareda a arder... Labirinto de vontade impossível de esquecer...

Garras afiadas da paixão

 É reflexo do teu rostoEste sentimento que me causas de tristeza e desgostoÉ o infinito dos teus olhos que me ecoa na menteQue me deixa o coração a bater desesperado, descontente.É raiva, é dor, é este imenso ardor,São as garras afiadas que me cravas,Enjaulada no meu peitoE, pouco a pouco, trespassas sonhos que tive em meu leitoE rasgas sentimentos em pedaços de céu caídosE nas lágrimas de sangue estão teus olhos destruídos.Sentindo-me assim despedaçado,Quero gritar súplicas deste coração apaixonadoE as lágrimas me caem desamparadas no podre chão pisado.E em leves murmúrios de gritos por ti abafadosEstão sentimentos que fogem a correr desenfreadosE olhares por ti tapadosE cantos amordaçadosE corações e almas com fortes nós a teu peito amarrados.E luto, e luto, e luto em vão,Quero quebrar as grades e sair desta prisão,Quero ser livre de gritar tormentos,Quero destapar meus olhos e rever velhos momentos,E num último murmúrio solto um rugido animal,Resisto por um segundo a esta paixão carnalE do mais profundo beco de toda esta paixãoTe grito da minha almaPára de cravar as garras neste pobre coração!

 

Carlos Vieira

Estilhaços

 Escrevo... refugio-me deste mundo que me rasga a alma em pedaços de silêncio profundo... escrevo esqueço-me do caminho amargo pelas pedras de calçada, nas ruas da solidão... escrevo... desabafo cada gota de sangue caída no chão... cada marca de cada ferida... das garras da vida cravadas no meu fraco coração...Sinto-me um trapo, deitado mo chão, amarrotado... meu coração um farrapo... contorcido, esquecido no peito, ancorado...Minha alma quer gritar bem alto rugidos de raiva e de dor... tenta em vão ser ouvida neste imenso mar sem cor... e saem fracos murmúrios... leves... sussurrados, suprimidos, estilhaçados... fracos pedaços de alma soltos a voar no brilho de olhos cansados... perdidos... ignorados...Pedaços de alma voam... fracos... sem brilho... até que caem nas tábuas podres desta vida, embatem no chão com toda a força, num último esforço, em vão, de se fazer ouvir... quebram-se em mil pedaços, no chão da vida os estilhaços da minha alma a ruir... e vão caindo... devagar... devagarinho... como bate o coração... sem esperanças... sem forças... lentamente se desgasta... devagar... devagarinho... deixo-me cair no chão... amargos suspiros frios... estilhaços que a vida arrasta...

Carlos Vieira

Cavalgada de estrelas

Olhei-me no espelho e vi aqueles olhos vazios, carentes, frios, sedentos de alma, de abraços quentes. Vi aquele ser rastejante, perdido no mundo, pobre viajante, tão só e vagabundo, nesta vida, mar sem fundo.Vi os meus óculos baços a inspirar solidão, vi a minha barba áspera que te pica o coração... e olhei... olhei até me perder para lá da realidade... e olhei... olhei até adormecer sonhando com a felicidade...Vi um cavalo a cavalgar no nevoeiro, nos meus olhos se perdia, no tempo eterno passageiro, cavalgava sem destino e corria o mundo inteiro, sentia na crina a vida com sabor a sentimento verdadeiro. Ondulava entre as nuvens, fantástico fogo alado, deslizava pelas estrelas, misterioso anjo disfarçado...Esperava por ti, para cavalgar ao relento, doce anjo disfarçado, estrela guia do meu sentimento...E cavalgaram tempos sem fim, dias e noites ao luar, correram entre pedaços de céu pelos sonhos sem lugar, teu cabelo ao vento dançava na fantasia, teu sorriso reluzente aquecia a noite fria.E o piano tocava, fazia-me companhia, vendo-te desenhar com o cavalo movimentos de magia...E o cavalo desceu, passou pela minha janela, entre as marcas da chuva secas vi o teu sorriso brilhar, trouxeste contigo pó de estrela, que me entrou pela janela, com o piano a tocar, levantou-se num vulto e começou a dançar, sussurrou-me ao ouvido que a Lua prometeu que ias dançar comigo tempos sem fim, dias e noites ao luar, envoltos em sentimento entre pedaços de céu sem lugar...Fico assim à tua espera para irmos cavalgar, por cada estrela do céu, daremos um beijo ao luar...

Carlos Vieira

Facadas do coração

 Acordei, não sei se a meio do dia ou se já no fim... entre cada batimento do meu coração parecem passar semanas, perco a noção do tempo ao reviver pensamentos, perco a noção do espaço ao voar nos sentimentos... e escrevo...  escrevo porque a garrafa está vazia, escrevo, porque as palavras me fazem companhia...E o meu coração bate... bate... bate... aflito, farto de estar preso nesta gaiola sem saída que eu sou... inquieto... quer sair, quer ser livre... dá fortes pancadas no meu peito como quem me crava uma faca cá dentro... bate... bate... bate... cada vez mais fraco, porém não pára e continua a bater... mas porque é que tanto insistes? Porque é que não desistes desta ânsia de viver? Não te entendo, não consigo perceber, como é que ainda resistes e não te deixas morrer?Ah... já só consigo suspirar... porque é que não me ensinas a ver a vida a brilhar? Não resisto... quero chorar... quero beber... quero cravar as garras no tapete até rasgar, quero ver as gotas pela garrafa a escorrer, quero perder-me no mundo, quero ser o cobarde imundo que se deixa adormecer... quero-me esconder dos olhares frios, penosos... quero gemer súplicas de animais raivosos... quero entregar-me ao vício... quero deixar-me cair até ao fim do precipício... quero arrancar de raiva os cabelos, um por um caídos no chão... quero afogar em licor os flagelos deste desesperado coração...Quero gritar bem alto até ecoar na solidão,Quero-me afundar no mundo, sem fundo, no mar profundo da escuridão,Quero ser um vagabundo, um pobre sem coração,Quero-me arrastar como um verme, sem me levantar do chão...Quero ter aquela essência, aquela loucuraQuero ser a decadência, o pranto, a amargura...

Digam-me que isto não é viver... que não sei o que estou a dizer... que exagero... que desespero e que de nada me vai valer... pois... por uma palavra que fosse, eu arriscava morrer...

 

Carlos Vieira