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INÊS MARTO

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Hawking e a quântica de ser maior | Opinião

 
 
 
Stephen Hawking deixou hoje o mundo mais rico. Como já é apanágio da sociedade, pelo menos hoje todos dizem "RIP <3" , todos são amantes de Física, todos partilham as suas frases mais inspiradas, todos se apressam a encontrar os mais comoventes vídeos de tributo. Hoje Hawking chega à boca do mundo pela massificação que traz sempre a morte de um herói. Mais que não seja, por aí, o mundo fica mais rico, triste é que seja tantas vezes preciso morrer-se.
Não, não estou esquecida de "A Teoria de Tudo" nem da brilhante interpretação de Eddie Redmayne, que de repente também levantou essa onda de massas, e ainda bem. Não, também não sou uma hipster, a vir para aqui dizer que já gostava dele antes disto tudo, que sempre me apaixonaram as suas complexas descobertas, a sua revolução científica. Por acaso foi mesmo mais depois do filme até, que o comecei a descobrir melhor, portanto ainda bem mesmo.
Ao contrário do que tudo em mim possa indicar, vim de Ciências e Tecnologias, não vim de Línguas e Humanidades. A minha conturbada relação com a Matemática faz com que eu e a Física, pelo menos a lectiva, a dependente de equações e fórmulas, nunca nos tenhamos dado bem sequer. Gosto sim da parte lógica (diga-se lógica não matemática) da Ciência, da observação, do empirismo, etc. Não vamos entrar por aí hoje. Isto para dizer que buracos negros ou energia cósmica não me são temas indiferentes, gosto de ler e aprender, mais até de filosofar sobre isso. Mas é mesmo só isso, um campo de interesse.
Não foi por aí que Hawking me cativou. Foi mesmo por ser quântico na sua existência. Foi mesmo por não se limitar às condicionantes que lhe impunha a Esclerose Lateral Amiotrófica. Foi mesmo por ser um dos reflexos mais evidentes de como se pode ser tanto mais do que as primeiras impressões denunciam. Foi mesmo pela enorme chapada de luva branca que deu permanentemente ao mundo com o seu humor acutilante. Foi mesmo pelo não se conformar, pelo acelerar na sua cadeira e não deixar de brincar, não deixar de se aventurar. Foi mesmo pelo ser brilhante, cientificamente e humanamente, tanto, e de forma tão marcada, que não havia como não olhar e ver além da limitação mais óbvia, porque simplesmente vivia e pronto. E nesse viver e pronto, a sua dimensão extravazava quaisquer limites de uma cadeira-de-rodas.
É isso que Hawking me faz ambicionar. O quântico, o de tal forma gigante que se torna intangível pela verdade universal, o espelho disso na vida e o espelho disso na arte. Das rodas metálicas com que nos movemos fazer reflexos e púlpitos para que a dimensão do que somos venha a falar mais alto, e que para isso nunca deixemos de querer ser mais. Hawking é a quântica de ser cada dia maior.

"Vai atrás do que queres" | um desabafo

Dom. - 17 Set. - 17:38 -  Lisboa

"[...] Os meus dias estão cada vez mais sós. Acho que faz parte.
Tenho lutado por me manter. Tenho tentado sonhar.
Mas se calhar não passam de tentativas, não sei, porque ao que diz toda a gente o que faço é ver a vida passar. Eu penso que luto.
Embora fique em pijama à frente de um computador, eu acho que luto. Não sei.
Talvez isto não seja lutar e eu seja covarde porque não sinto que o pouco onde posso ir sozinha e a fragilidade disso me valha o esforço imenso de me vestir e sair pela minha mão, para ver os outros "viver".
Todos os dias me destilo no que escrevo.
Todos os dias desenvolvo ideias para ganhar a vida.
Todos os dias acho que vivo mais em quatro paredes que tanta gente que é capaz de correr o mundo.Mas condenam-me. Dizem que não tento. Que não vou atrás de nada.
Todos os dias saio da cama sozinha. Comecei a limpar, pequenas coisas. Já não morro de fome por minha conta.
Estive cinco minutos a apanhar esta caneta do chão para escrever. Mas consegui.
Estas batalhas que ninguém conhece, devia gritá-las ao mundo.
Subestimam a garantia do básico. Por isso é que dizem que não luto.
Não sabem que estive 21 dos 22 anos que tenho sem poder tomar um banho 100% por minha conta. E mesmo agora basta não estar tudo a jeito que já se complica.
Ainda assim dizem "Vai atrás do que queres" como se fizesse eu outra coisa ao ainda sair da cama dia após dia.
Lutar, luto assim que abro os olhos e a realidade cai.
Sonhar, sonharei enquanto não parar de escrever.
Lamento que não se entenda que o tamanho das minhas asas se justifica pelo das minhas grades."

O tabu cadeira-de-rodas

 
Hoje descobri a Robyn Lambird. Uma youtuber, actualmente com 20 anos, que também tem paralisia cerebral. Assim que vi este vídeo, percebi que isto era uma coisa de que eu tinha mesmo que falar. De facto, já há bastante tempo que queria discutir isto.
A verdade é que estamos no século XXI. E isto é um tabu tão socialmente enraizado que até foi preciso um vídeo para me trazer de volta à realidade, para voltar a aperceber-me que isto não devia mesmo estar a acontecer. Por isso é que não o fiz mais cedo. Fica-me debaixo da pele. É uma parte tal das nossas vidas que nos habituamos a isso, como se não houvesse nada de errado.
A Robyn foi um abre-olhos. Eu defendo muitas causas. Uma delas é o desmoronamento da ditadura da imagem corporal. E, por muito estranho que possa parecer, forçar-nos a que nos aproximemos fisicamente o mais possível daquilo que é convencionalmente tido como normal é tão corrosivo como toda a questão da invisibilidade e da pena.
Eu percebo. Supostamente o corpo humano foi feito para andar. Eu percebo, encaixava melhor no vosso conceito de ser saudável. Eu percebo, vocês pensam que estaria a viver a minha vida ao máximo. Se me permitem, contudo, um pequenino lembrete, é a MINHA vida, leram bem. E também é o meu corpo. Muito provavelmente, com quase 22 anos, conheço-o um bocadinho melhor eu. E mesmo que não conhecesse, continuava a ser o meu.
Parece que em tudo o resto, como ela diz, tudo se resume a qualidade de vida. Já neste caso, quase toda a gente tem que tentar com que façamos mais esforços, tentemos mais coisas. Não é que não aceitemos conselhos de quem quer que seja que saiba do que está a falar. Quer dizer, uma nova perspectiva sobre como tornar isto mais simples é sempre bem-vinda.
Mas é como se fôssemos máquinas a termos que ser arranjados. A termos que nos encaixar. A termos que corresponder a uma sociedade higienizada que ainda força aquilo a que chamam normalidade a toda a gente. De repente as pessoas acham-se no direito de chegar e dizer "não podes viver assim".
O que é que aconteceu ao "sê tu próprio"? O que é que aconteceu à liberdade individual de escolha? O que é que aconteceu ao deixar uma pessoa ser uma pessoa e não um conceito? Somos pessoas.
Todas as horas que passei a chorar, com dores, das cirurgias, dos alongamentos, das terapias... Há uma parte da minha infância que jamais terei de volta. E perdi-a a tentar tornar-me no que os outros entendiam como normal. Como melhor. Como sendo parte.
Não me arrependo de tudo. Algumas coisas deram-me capacidades que obviamente preciso, que de outra forma não teria alcançado, claro. Tê-lo-ia feito, na mesma, claro. Apenas o teria feito de forma diferente, se pudesse voltar atrás.
Não ia lutar por ideais de perfeição. Sobretudo ia lutar por uma vida. Que é o que faço agora.
E então, se for numa cadeira-de-rodas? Antes sobre rodas e com um sorriso, a aproveitar o caminho, do que andar durante 10 minutos e ter que voltar para casa. E se perdesse todos os progressos? Honestamente era um pesadelo. Mas ainda assim, eram na mesma o meu corpo e as minhas escolhas, desculpem a desilusão.
Conclusão: se calhar não precisamos de ser arranjados. Se calhar não temos que andar mais vezes. Se calhar não temos que tentar com mais força. Se calhar não temos que "mas ouve". Porque se calhar, a única coisa que temos mesmo é que viver da maneira que formos mais felizes.

 

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"Sou ambígua e não faz mal!" - as minhas maiores (verdadeiras) dificuldades

 

Estive a pensar durante uma semana sobre o que escrever a seguir. Acho que tudo isto já se tornou tão habitual para mim, que nem sempre acho que haja tópicos relevantes sobre os quais escrever, relacionados com as rodas. O que era, afinal de contas, o meu objectivo ao criar esta plataforma. Parece que já provei a minha própria tese - bem, foi rápido!

Ainda assim, continua a haver muita coisa debatível, suponho. De repente vi-me perdida a pensar em quais seriam as minhas maiores dificuldades actuais. E, do nada, vazio... Não me lembrava de nada. Por isso é que demorou tanto a escrever um post novo.
Mas finalmente percebi. As minhas maiores dificuldades, grande parte pelo menos, não está relacionada com a paralisia cerebral. Muitas são consequências indirectas de como ela me fez ver a vida, mas há bastante tempo que deixou de ser tanto sobre as questões físicas.
Mas vamos dividir isto por partes, por uma questão de tentar ser exacta (já estou a prever que me vou espraiar em alguns tópicos), mas vamos lá então.
- Fisicamente, as coisas que acho mais difíceis são: transferências de e para a cadeira-de-rodas em situações não planeadas, ir à rua sozinha com a cadeira manual (ainda não consigo subir e descer degraus e rampas íngremes, vamos ver se a cadeira nova ajuda nisso), chegar a sítios altos (tenho 1,40m, por isso levantar-me não adianta grande coisa também), obviamente andar sozinha (mais uma vez olá triângulo amoroso pânico-espasticidade-cair, obrigadinha), dobrar os joelhos e tudo o que possa depender necessariamente disso (isto é devido a uma cirurgia que fiz em 2007, que consiste na trocar dos tendões flexores e extensores dos joelhos, por forma a conseguir esticar as pernas, o que anteriormente não era possível). E assim de repente não me lembro de muito mais.
 
Ok, agora que essa parte está despachada, podemos passar aos assuntos mais sérios. As minhas maiores dificuldades não são físicas/fisicamente minhas. E, acreditem, é bem mais fácil lidar com as que são. Há aquelas que são relacionadas com essas:
- Foi o raio de um pesadelo encontrar um apartamento que não tivesse um único degrau, sim, em plena Lisboa no século XXI (mas finalmente tenho uma casa!). Usar transportes públicos por minha conta ainda é uma dor de cabeça (outra vez, assim que aprenda a usar a cadeira nova em todo o seu esplendor poder ser que isto mude) principalmente porque quando estou sozinha tenho que usar a scooter eléctrica ( a quem interessar, é uma Invacare Colibri) o que significa ter que esperar por um autocarro adaptado e também que ele esteja vazio o suficiente para conseguir que a scooter lá caiba. E quanto ao metro, "atenção ao intervalo entre o cais e o comboio" não podia ser mais verdade para uma scooter, dos elevadores das estações nem sequer falo, que davam para um post inteiro. Outra coisa tem a ver com a arquitectura pombalina. Adoro Lisboa e não trocava morar aqui por mais nenhuma cidade (não, nem Nova Iorque), mas estes malditos degraus em todas as portas... e já disse que tenho uma tendência para gostar dos cenários mais complicados de todos? Newsflash: sou apaixonada pelos bairros mais antigos... e sim, já tentei ir de scooter por Alfama acima... bem, há coisas piores...
 
Mas não era aqui que queria chegar. Vamos à nudez então. As dificuldades que mais me impactam numa base diária são:
- Depressão e ansiedade
- Ataques de pânico (às vezes provocados pelas questões físicas que correm mal) que me fazem petrificar e não conseguir mexer-me mais
- Aceitação. Ok, esta é grande, talvez a maior de todas. O meu problema com isto assume muitas formas. Auto-aceitação, para começar: a dificuldade de enfiar na cabeça que eu sou o suficiente, que tento o suficiente e que faço força suficiente. O desafio de acreditar nas minhas próprias crenças até quando o mundo parece colapsar.
- Imagem pública: esta relaciona-se com a anterior, mas não só. A cena do "olha, ela está numa cadeira" mata-me, não vou mentir. As expectativas relacionadas com isso, maioritariamente. As ideias enraizadas de que ou somos completamente inúteis ou atletas olímpicos em ascenção. A pressão social de nos mantermos a fazer terapias, activos, andar mais, tentar mais (sim, tenho noção que também o faço a mim mesma e é uma merda). E ser chamada de preguiçosa, mais do que tudo, como se o que eu faço ou deixo de fazer não fosse opção minha, como toda a gente (incluindo ser preguiçosa se me apetecer!).
- Relação corpo-mente: claro que isto também está ligado ao resto. Mas eu aceitar o meu próprio corpo como ele é (barriga incluída) não tem sido fácil de todo. Aceitar que as minhas pernas não se vão mexer da forma que eu quero é uma das partes mais difíceis de não me ofender a mim mesma e de não me culpar por tudo.
- Sexualidade: isto é um tópico difícil. Definitivamente um post muito em breve. Mas a ideia generalizada de que nós das rodas não a temos ultrapassa-me. E depois os meus próprios medos em ser sexualmente rejeitada por causa desta merda toda... pois.
- Expressão de género: chiça, se eu queria falar disto há séculos! Identifico-me como bigénero. Então claro que uma das maiores dificuldades é não ter medo de expressar o meu lado masculino. Aceitar o pêlo, por exemplo, sem ficar auto-consciente, eu mesma, por causa do que os outros vão pensar. (Brevemente também devia explorar mais isto).
- Estilo de vida: sou uma escritora. Sim, daqueles típicos solitários. Também sou uma coruja e geralmente afundo nas minhas próprias ideias e projectos até às 6h, todos os dias. Detesto completamente as manhãs e evito-as a todo o custo. Mas a questão é, porque raio é que isto não pode ser socialmente aceite? Porque é que soo louca e utópica por viver em prol da minha arte à luz da lua, se isso para mim resulta? Em que é que isso difere de um homem de negócios que acorda às horas que eu me deito para seguir o seu sonho? É que estamos a fazer o mesmo.
 
E acho que o busílis das minhas dificuldades reside mesmo aí. Em aceitar que estou apenas a lutar pelos meus sonhos e não faz mal. Estou cá para ser feliz e não faz mal, e mais ainda que isso basta. E que as pessoas também entendam isso. Mas se nem eu mesma sou consistente, como é que os outros podem entender, certo? Errado! Completamente errado. Independentemente do quão estilhaçada ou ambígua eu possa ser, eu sei que partes de mim são realmente eu, e quais são apenas reflexos das coisas que disse acima.
E afinal de coisas, era só isso que eu queria. Que as pessoas entendessem que não sou toda feita de pinturas direitinhas e de flores, mas também não quero ser. Ainda que me ofenda a mim mesma demasiadas vezes. Estou a aprender a amar a minha própria escuridão. Estou a a aprender a libertar as minhas cicatrizes (literais e não só). Um passo de cada vez (trocadilho intencional) mas estou a chegar lá.
É isso que quero dizer: sou ambígua e não faz mal. Sou inconsistente e não faz mal. Tenho barriga e não faz mal. Sou bigénero e não faz mal. Sou ginessexual (pessoa sexualmente atraída pela expressão de características tipicamente tidas como femininas, não necessariamente apenas em mulheres - outro artigo a escrever brevemente!) e não faz mal. Sou uma sonhadora e não faz mal. Sou poliamorosa e não faz mal. Ainda estou a aprender e não faz mal. Sou eternamente mutável e não faz mal. Ainda tenho dificuldades e não faz mal. Ainda por cima sou contraditória também e, adivinhem, não faz mal! Principalmente: sou real. E qualquer dia neste mundo isso não vai fazer mal.
 

 

 
 
 
 

Bullying e suicídio: realidade crua

Este sempre foi um dos tópicos que nunca tive muitas certezas sobre como abordar. Mas como disse, quero manter as coisas cruas e naturais por aqui. Sim, houve bullying, principalmente na escola. Antes de usar a cadeira, já que sempre fui minúscula, passava bem a usar um carrinho de bebé, para caminhadas longas. De resto costumavam andar comigo ao colo, ou se fosse coisa pouca dava uns passinhos agarrada.
Tive a primeira cadeira-de-rodas no quarto ano, creio que uma Invacare Action Junior, em 2004. Antes disso nunca me tinha sentido realmente "a miúda da cadeira". Não é que estivesse propriamente integrada com os outros miúdos, mas também não me sentia um alien ainda. Na altura tinha uma personalidade forte e extrovertida. A minha inclinação para as artes performativas já tinha arranjado maneira de se manifestar na minha vida, gostava de organizar peças e espectáculos com os outros miúdos. Mas a verdade é que, assim que começaram com o saltar à corda e jogar à bola, lembro-me de passar mais tempo a olhar para eles e a desejar ser capaz de fazer o mesmo do que a tentar efectivamente encontrar maneiras possíveis de fazer parte.
Não demorou muito até começar a ser a última a ser escolhida para todas as actividades de grupo que não incluíssem artes ou escrever (era vista como uma vantagem nessas). Mas ainda éramos nós simplesmente a ser crianças sem sabermos bem como me integrar. A minha (há muito tempo desaparecida) personalidade forte também não ajudava grande coisa.
Por essa altura já tinha começado a interessar-me mais por ler, ver filmes, ouvir música e principalmente ter conversas mentalmente expansivas que duravam eternidades depois do jantar (e que eram um tédio completo para a maioria das crianças) incluindo tópicos como "para que é que estamos vivos?".
Como era de prever, isso aumentou o meu já crescente isolamento, e gradualmente deixei de fazer um esforço para ser uma miúda a fazer coisas de miúdos. Então, no fim da escola primária, já era a esquisita. Ainda assim, sendo uma menina bastante imaginativa, alguns gostavam de brincar comigo ao faz-de-conta, o que me agradava bastante.
Tinha uma tendência também para o futebol. Nunca gostei de ver jogos, mas gostava da sensação de correr atrás da bola. Lembro-me de tentar jogar de andarilho, ou no chão, de gatas (destruí montes de pares de sapatos por os arrastar por todo o lado assim, era o meu meio principal de locomoção autónoma). Resultava, embora obviamente nunca fosse uma vantagem para a minha equipa. Mas desde que me deixassem jogar, para mim estava tudo bem. Não fazia intenções de ser boa, de qualquer forma, e pelo menos assim tinha alguma coisa a ver com eles.
Mas claro que o pior ainda estava para vir. Os pré-adolescentes têm uma forma natural de se tornar cruéis, ao que parece. E assim que ser guarda-redes de joelhos deixou de dar resultado para os cativar (sabe Deus porquê), começou tudo a acontecer.
Ainda não era do tipo de ficar calada, e maioria das vezes calava aquilo que me diziam com uma resposta bem mandada. Mas era inútil, sendo que era eu a querer conquistar a companhia deles, e não o contrário. Eventualmente chegou ao ponto dos professores repreenderem o meu comportamento, já que eu também me tinha tornado amarga para os colegas. Diziam "não devias ser assim, afinal és tu que precisas deles.". E eu acreditei nisso, durante demasiado tempo.
 
Com o passar dos anos eles começaram a ser mais subtis. Não era tanto já sobre o que diziam propriamente, e não havia respostas com que me defender. Por essa altura era tudo à volta de olhares de nojo, bilhetinhos passivo-agressivos, não abrir as portas para me deixar entrar (não conseguia abri-las sozinha), e repugnar qualquer tipo de proximidade comigo.
Então comecei a ficar mais calada. A minha forma de pensar não era para eles, de qualquer forma, e pelo menos assim não tinha que me desvanecer só para conseguir integrar-me. E depois a adolescência disparou. E foi um pesadelo. Se ninguém gostava de mim antes, e tinha mais amigos professores do que colegas (ainda que eles me continuassem a condenar por "não fazeres um esforço por me dar com os outros, embora continues a precisar fisicamente de ajuda constante deles"), depois tornou-se uma selva de "vamos ver quem é que consegue fazer isto pior". O que ia desde destruírem as minhas coisas a chamarem-me puta só por usar calções, ou deixarem-me sozinha sem andarilho nem cadeira por perto (havia uma tabela rotativa de 2 pessoas de cada vez, designadas "responsáveis" por me ajudarem, para eu conseguir pelo menos sobreviver. Eles odiavam isso e eu também. Fosse tudo tão mau como fosse, isso ainda me fazia sentir mais como um fardo gigante).
 
Nunca me tinha sentido tão sozinha como aos 12 ou 13 anos. Começaram a desprezar-me abertamente. Felizmente para mim, o cérebro humano tende a eliminar o que é demasiado doloroso, por isso são maioritariamente memórias difusas agora. Tomei o silêncio como a minha arma. Emocionalmente também. Transformei-me numa parede. Nunca falava com ninguém mais do que o estritamente necessário e evitava contacto visual ao máximo. Pensei que eventualmente acabasse aquilo tudo, mas já era o patinho feio há demasiado tempo para ser passível de se esquecerem, parece.
Mas a gota de água mesmo, lembro-me como se fosse hoje, foi a turma criar uma conta falsa no messenger como sendo um rapaz chamado Daniel. Caí que nem um patinho. Sozinha como estava, atirava-me com toda a facilidade do mundo para os braços de alguém que se dignasse a dizer olá. O "Daniel" começou a dizer que estava apaixonado por mim. Caí que nem um patinho outra vez. Assim que aceitei "namorar" apesar da "distância física", rebentou o inferno e eu passei a ser a porca desavergonhada puta fácil.
Obviamente a depressão encontrou o seu lugar na minha vida. E em força. Nunca fui diagnosticada. Detestava psicólogos. Tanto quanto detestava discursos motivacionais. Odiava que me dissessem aquilo que eu já estava farta de saber (hello, sempre tive excesso de pensamento, não foi falta dele, era difícil de ver?). Isso e dizerem-me que estava só a querer chamar a atenção e tinha era falta de ambições na vida.
O suicídio também encontrou lugar na minha vida. Aos 14 anos tinha tentado 4 vezes, já que não fazia sentido em ser o fardo excluído e nojento na vida de toda a gente. De cada vez que falhava, odiava-me ainda mais. Foi tudo um tema deixado na sombra, embora claro que os meus pais reparavam, sendo que só chorava quando trancava a porta do quarto. Eles não negligenciaram a situação, falávamos sobre mim e a minha vida, mas penso que sempre estiveram certos que eu era mais forte do que isto tudo, por isso nunca pegámos o touro pelos cornos propriamente.
No 10º ano encontrei a minha tropa. Os queers e os nerds uniram-se. Éramos só 4, mas se fazíamos barulho... O teatro salvou-me. Começámos a fazer os nossos próprios projectos. E mais ainda que isso, a ideia profundamente enraizada de ir para Lisboa deu-me esperança, e a esperança era a chave para eu continuar, eu sabia que pelo menos algumas mentes iam ser maiores lá (cá!) e estava bem certa!
Sinceramente sinto que comecei a viver realmente há 4 anos atrás, quando vim para Lisboa. A auto-aceitação até já começou a ser alguma coisa, agora. Estava tão certa. O meu lugar sempre tinha sido aqui, mais perto dos artistas, das mentes abertas, dos espíritos livres, dos doidos, daqueles que arriscam o precipício... também não são assim tantos até agora, mas, caramba, são enormes!
Mas não vamos tornar isto tudo arco-íris (sim, trocadilho LGBT+ propositado, sou um unicórnio com asas!) e finais felizes. O bullying não me tornou uma pessoa melhor. E a depressão também não torna. Nem a ansiedade. Nem a merda suicida toda. Nem a maldita cadeira-de-rodas. Já disse que não sou oradora motivacional nenhuma. Isto quase que me estilhaçou completamente. Mas eventualmente acabou. E quanto aos que fizeram isso, nunca mais ouvi falar sequer das sombras deles. Mas tenho a certeza que eles ouviram falar de mim, e ainda vão ouvir mais, por muitos anos, sorry not sorry. Não sou imparável, mas sou teimosa como tudo! Da próxima vez, tentem com mais força.