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INÊS MARTO

INÊS MARTO

Colaboração | A Cor do Meu Verniz

Screenshot_1Recentemente fui contactada pela Vanda Leite, autora do blogue A Cor do Meu Verniza propósito de um passatempo, com parceria da Chiado Editora, para que os leitores se habilitassem a ganhar um exemplar do meu livro Combustão.Na sequência do contacto, surgiu a entrevista, que pode ser lida neste link. Através da qual me dou um pouco mais a conhecer.Como disse (para quem me acompanha nas redes sociais) não acaba aqui. Proporcionou-se uma colaboração. Começarei muito em breve a parceria com a Vanda. Não quisemos que fosse uma simples cedência de textos. Portanto, passar-se-á assim: a cada data de publicação, a Vanda escolherá uma palavra, sobre a qual eu devo ceder um texto (dos que podem encontrar aqui).Os mais atentos já devem conseguir adivinhar com qual começa - a primeira palavra escolhida é "celebração".A partir de agora, vemo-nos também então, n' A Cor do Meu Verniz  

Circo de pedra

Há dentro de mim ruínas invisíveis. Ossos do ofício de me desmoronar como um trago para essa sede maior. Coliseus devolutos do circo de feras de pedra que me dançam na cabeça.
Saltas o muro. Não te afligem os destroços. Caminhas no meu abandono como palma da tua mão. Apanhas do chão as pedras caídas do meu trilho. As que se fizeram cicatrizes insolúveis.
Olhas-te ao espelho partido que sobreviveu à erosão. Toca-lo. Revês-te. Fundes-te. Mostras-me as estátuas do teu circo. Ambas cobertas do pó e do musgo de que se faz a solidão.
Na tua alquimia de ser humana, fazes das minhas pedras perdidas bolas de sabão entre os teus dedos. Agarras-me. Envolves-me. Sem dizeres mais, jogamos de caras no mesmo tabuleiro de contrastes.
Ensinas-me o xadrez de estar viva. Descobres-me o mundo por dentro dos olhos, descobres-me a vida por dentro da pele, descobres-me o perfume por dentro da alma.
Passeias na minha distopia como uma primavera sem relógios. Vais-me tacteando as peças.
A tua distopia é uma praia rochosa. A minha um antro de anseios caído aos céus. Sento-me escondida entre as tuas rochas. Observo-te o mar. Absorvo-te. Aprendo-te. Temos a pedra em comum.
Ao sabor do nosso vento, há um jardim junto ao mar onde se plantam as estátuas da nossa fraqueza. Erguer um trono ao vulnerável, torná-lo fogo a céu aberto: esse é o nosso acto de amor.
No nosso circo de pedra, só esperamos uma coisa: verdade. Já tenho onde cair viva.

Debruada a pérolas

Visitas-me o vácuo remanescente da condensação involuntária que se fez em mim.
Pisas com passos cautelosos de silêncio o chão de mim, feito de restos de tempestade. E no sentir-te chegar sobre a madeira do meu quarto desamparado fazes suscitar mais vida e mais tamanho.
Fazes-te música ao ouvido das minhas ânsias. Agigantas-te em mim, como uma onda tatuada na clavícula trave-mestra da minha solidão. Puxas de mim fios que entrelaças nos teus. Dos meus olhos sobram lágrimas escondidas para que nunca mais acabes.
Dou-te a pele inexplorada, a que só tocaram os meus desgostos.
E, na tua trascendência, fazes do meu limiar a janela destrancada por onde me vês como gostava de ser. A voz de terra que se incendeia forma em mim balões dissolúveis, convidas-me a  percorrer-me sem latitudes.
Observo-te, escudada entre o corpo e o precipício que o separa de quem sou. Do teu porte gostava de saber fazer desenhos, como os pinto mentalmente. Bebo taças da tua visceralidade debruada a pérolas, escondida nos cantos mal iluminados de mim.
Toco-te. Faz-se mundo. Tento respirar. Deixo que me invadas. Preenches a queda entre o nevoeiro onde me habito e a verdade.
Desamarro as cordas. Há consonância na voltagem dos nossos tempos-sonhos. Deixo que me inunde a tempestade que  trazes contigo.
Descubro novas paredes à minha casa devoluta. Encostas-te a elas, deixas-te sentar no chão. Acompanho-te. Traço-te e acaricio-te as raízes, no longe de onde venho. No fim do mar abraçam-se. No fim do mar somos mais.

Deserto verde

Amanhecer e um deserto verde. Luminosidade expansiva perpétua flui pelo tecto do nada. Árvores retorcidas ásperas espalhadas à toa. O ensurdecer do pensamento. Prédios de néon transbordam o desvanecer da noite. Viagens incessantes. Estradas fora. Rumos sem fim perante os olhos que se deixam ultrapassar parados. Gente desenfreada e um deserto verde.
Ao fundo, o vulto branco de arder gaseificado luminoso torna-se silhueta de um rapazinho sem nome. Lá nas colinas do deserto verde, do outro lado da estrada. Talvez o rapazinho sem nome que gostava de ter sido. Da árvore mais pequena e menos longe dos olhos faz sem pudores um varão.
Do corpo etéreo fundem-se a roupa e o nu, a superfície e o núcleo: é feito do cíclico aflorar de essências e pulsões, do resto quase nada importa. Passa a ponta dos dedos e o sexo pela aspereza do tronco, olha-me destemido. Passa a língua lenta pelos lábios, sem que se lhe note rasto.
Sem desviar os olhos, toca todas as árvores pelo caminho, varões da infindável noite de que faz coroa de existir, e que faz espelhar aos poucos - talvez nenhuns - que o conseguem ver.
Salta o muro com as pernas sedutoras. O vulto luminoso - rapazinho branco - define-se aos poucos. O contínuo aflorar define-se em forma-corpo, múltiplo. Atravessa a estrada sem olhar, imune às prisões mundanas.
Caminha como quem continua a dançar. Ao fundo permanece o deserto verde. Estende-me a mão como quem seria capaz de me tocar - definem-se os dedos, funde-se comigo por segundos - Abraça-me as costas - definem-se os braços, aquece-me como se fosse verdade - permanece sem cara, permanece sem imposições, permanece caleidoscópio do que quer que queira ser. Rapazinho branco permanece livre, metafísico, meta-sexo. Encosta a cara no meu ombro, sinto-lhe a barba - que naquele momento lhe apetece ter - segreda-me ao ouvido: Bernardo. E esvai-se. Sobra amanhecer e o deserto verde onde habita, mas só quando lhe apetece.

Subterfúgio

Ultrapassemos a estranheza dos corpos. Saibamos a detalhe as nossas unhas e o eco dos corpos fundidos um no outro. Façamos da boca pares de pétalas cadentes com que celebramos a reciprocidade da noite.
O tempo externo teima em ser câmara lenta e os teus dedos tecem-me bordados inéditos por dentro dos órgãos, contorcidos na gastrite de ser só. Cola em mim a electricidade que trazes nos olhos, não desfaças, espalma contra os limites do meu existir os teus suspiros feitos vapor contra a madrugada branca da minha pele nua.
Suprime os passos na areia grossa, passa o sal pelos cabelos e passeia o desenho fluido do teu corpo na contra-luz da alvorada, de encontro à espuma rarefeita do mar onde costumamos vir para despejar segredos, no permanente vaivém das ondas que um dia gostava que me levassem para longe.
E ainda que não existas, não me negues a eterna quimera de um sonho, caminha comigo, com os dedos frágeis cortados contra as rochas de braços abertos e de peito livre. Ainda que não existas, ultrapassemos os horizontes da carne. Ainda que não existas, faz-te cinza e que do queimares-te se levante ar quente, que se erga aos céus e se faça o meu perfume. Consome-me. Ainda que não existas, por-te-ei no pescoço e atrás das orelhas e esfregar-te-ei, na fricção de ambos os pulsos onde gostava que pudesses vir dar beijos, como que promessas que não te abandono na terra dos vivos.
Ultrapassemos a estranheza dos corpos. Porque ainda que não existas, talvez seja a nossa inexistência o subterfúgio onde me reanimo melhor.

Contra-senso-vício

O silêncio de mim grita. Gostava que a minha cabeça tivesse um gravador. Não me apetece a fisicalidade de escrever, nem o som das teclas, nem sei daquele caderno, o epitáfio gigante dos meus dias que não revelo a ninguém.
Resigno-me, que remédio. Estou cansado deste ecrã, não mais que da minha própria cabeça e da voz dela: esse misto de resíduos secos de tabaco e tragos de cerveja quente, que não tem nome, que não tem olhos, que tem a cadência mais rápida do que os meus dedos.
Imagino-te na cadeira vazia onde te eternizei quando estiveste, porque fui menos sozinho. Porque não me apetece ser sozinho, não hoje e não agora. O silêncio de mim grita, dizia.
Tenho cigarras que não se calam cá dentro, apetecia-me embebedá-las com o Porto barato do fundo do armário. Não me apetece beber sozinho.
Finjo-me vivo. Despejo o tempo para fora das pálpebras. Não estou a aguentar qualquer tipo de som, porque me lembra que existo. Salva-me a música, que me é neutra pela raiz.
Tenho, contudo, que a recusar por hora, para que me afunde. Porque sem chegar ao fundo de mim não me torno a encontrar a superfície.
Este estado de desencontro é um contra-senso-vício onde tenho que - mas não aguento - estar. Será na infindável procura sem solução que me descubro, pela precisa impossibilidade de me descobrir? Será esse o catalisador de reinvenções de mim próprio, aquilo que me impele a continuar caminho, revelando-se a cada passo imprevisível e sem margem de manobra?
O silêncio de mim grita, enquanto caio no permanente abismo como sede intravenosa. A lucidez é um assombro. Exploro os incessantes padrões de luz fluorescente que trago dentro dos olhos fechados, procuro-lhes sentido como método de permanecer em queda lenta. Anseio a vertigem e o sufoco pela libertação dela: essa luta mantém-me vivo.
Ardo-me. Procuro fotogramas de ti nos milímetros da queda, de todas as solidões acompanhadas que são pesadelos em forma de multidão, a tua parece saber-me bem.
O silêncio de mim grita. Acordo-me para continuar os dias.

(Des)digo

Cai cinza na superfície estagnada das minhas sinapses liquefeitas. Assenta disforme provocando embriagados desígnios tribais de uma chuva irrepetível. No rio que sou dissolve-se a poeira do teu existir. O meu sangue coagula-se perante a tua invasão, que me deixa o corpo tolhido, mas que ainda assim sabe bem.
Olhei-me há pouco ao espelho, como quem procura a verdade no fundo inatingível dos olhos tristes, não me (te) encontrei. Privo-me por sistema de acreditar na tua permanência, como um leopardo com farpas espetadas nas manchas da pele, a fugir ao toque.
Observo a minha essência esfumar-se diante de um reflexo que não reconheço. O exterior torna-se câmara lenta e difusa. A tua invasão revela-se agulhas quentes na nuca que quero mas não quero apagar. O meu ritual de destilar-me em texto é interrompido pela existência psíquica de ti. Agitas-me as águas. Quero mas não quero que te vás embora. Quero mas não quero que me arranques a carne. Quero mas não quero que me consumas sem dó. Quero mas não quero que me queimes as imposições quotidianas.
(Des)digo o "mas", se me tocares com o indicador nos lábios e me fechares os olhos de tal forma que acredite que, desta vez, não és ave que só vem na primavera, sem chegar a pousar as malas na brancura do meu peito.
O pior disto foi sempre o ter que te inventar em nomes e olhares incertos, em cabides de peles fugidias - quanto mais melhor - porque se ficasses arriscavas despir-me de mim... E depois do mergulho o que restava? Nada. E depois da corrida o que restava? Nada. E depois de me tornares as águas baças com o teu pó de astro inconstante, o que restava? Nada. Um fundo de olhos triste onde não me (te) conseguiria encontrar, outra vez.
Deito-te a cabeça sobre a mesa, desligo-te o autómato de estares viva. Queria só que me olhasses nos olhos. Que a falta de haver o que dizermos, por uma vez, dissesse tudo. Mandasse às urtigas as úlceras que tenho no estômago e as peladas escondidas que não deixo ninguém ver, culpa das noites sem dormir porque não havia a certeza disto: de que, um dia, o nosso silêncio havia de dizer tudo.
Desfaço a pele aos pedaços e convido a que me habites sem porta de saída. Mas fecho os olhos, as pálpebras convulsionam.
Cai cinza do teu cigarro e o tempo não passa, a realidade também não, acumulo nos cantos do amor-que-não-sei-se-queres coisas que tinha para (mas nunca te posso) dizer. À tona de mim ficam decalques dos anjos que desenhámos deitadas, ao relento em noites sem nome nem realidade.
Cai cinza. Quero mas não quero. Fica.

 

 

Os poetas não... 

Os poetas não deviam ter horários. Foda-se. Porque é que me excita o clitóris criativo a neblina mental dos barbitúricos que estou à espera de tomar? Os poetas não deviam ter horários. Porque é que a boca não me sabe sempre a laranjas? Porque é que me pesam as pálpebras? Os poetas não deviam ter sono. Os poetas não deviam ter fome. Os poetas não deviam ter horários. Foda-se. 

Porque é que o corpo me chama permanentemente às rotinas de existir? Os poetas não deviam ter ouvidos. Os poetas não deviam ter relógios. Porque é que não tenho a língua feita de canela e grãos de café? 

Os poetas não deviam ter obrigações. Os poetas não deviam ter moralidade. Os poetas não deviam ter tendinites. 

Porque é que não tenho as tuas mãos pintadas a detalhe na cabeça como queria ter no colo? 

Os poetas não deviam ter anemias. Os poetas não deviam ter medo. Os poetas não deviam ter vergonha na cara. Os poetas não deviam ter roupa no corpo. 

Porque é que não sei a que sabe a tua saliva quando escorre no meu tórax exausto enquanto abandono o corpo no sofá enrugado e deixo de existir, cativo do meu próprio precipício identitário? 

Os poetas não deviam ter género. Os poetas não deviam ter amarras. Os poetas não deviam ter bom senso. Os poetas não deviam ter horários. Foda-se. 

Porque é que não sei a que sabe o rasto da minha pele refém do verniz das tuas unhas? Porque é que não sei como soam as tuas costelas contra a parede falsa do meu peito? Porque é que não sei de cor o som que deixas escapar dos lábios fracos enquanto te passo a barba e os beijos no pescoço? 

Os poetas não deviam ter pudores. Os poetas não deviam ter latitude. Os poetas não deviam ter tamanho. 

Porque é que não sei como soa a minha voz nos teus pesadelos? Os poetas não deviam ser unívocos. Os poetas não deviam ser tridimensionais.

Porque é que não sou amorfo? Porque é que não me evaporo? Porque é que não me deixas dormir? 

Os poetas não deviam sucumbir ao cansaço. Os poetas não deviam ter tona de água. Os poetas não deviam ter salvação. Os poetas não deviam ter atenuantes. Os poetas não deviam horários ... Os poetas são o pleonasmo do próprio ser. Os poetas não deviam ter definição. 

Afinal

Escondia uma espiral de asfixias com a desculpa de ler um livro dos tantos esquecidos na prateleira de não ler. Mas não deixas. Assaltas-me as horas mortas e cortas-me as ondas salgadas do pensar. Não pedes licença, conheces-me a sede. E ficas de mansinho comigo deitada, serena, no bunker do meu desacreditar, onde não deixo entrar ninguém, leve como até hoje apenas tu. Assustadoramente alguém.Pegas-me pelas pontas dos dedos e fazes com que me dispa de repressões. Mergulhamos na minha incredibilidade, castelo de cartas, menos mal por estares comigo. Mas só porque me ensinas a parar de olhar mil vezes antes de me atirar. Não se voa todos os dias. És uma sorte.Procurei anos a fio olhos onde acender simbioses e alienar-me na companhia muda de quem está finalmente nu. Encontrei-te. Penso em fugir antes que doa. Anda - peço-te na voz sumida de quem rasga cimento com flores selvagens - Faz-me acreditar. Mostra que as minhas utopias lilases de amar por bem podem ser loucas a par então.Anda - cala-se a boca a medo, olho-te trémula - na esperança encontrada que me leias o presente pergunto de respiração cortada se é assim de verdade, se me posso dar sem rédeas, se não há mesmo escalas no querer nutrir-te, porque não se mede o que aconchega o peito, e o perder-nos no tempo pode simplesmente saber bem.Anda - sussurro com olhos tristes - Desfaz os nós que me fizeram. Põe a tua mão na minha e não a deixes. Diz-me que não há purgatório em ser caleidoscópio de afectos por condição.Anda. Senta-te ao meu lado. Deixa-me olhar-te nos olhos até não sentir choques na nuca. Abraça-me devagar. Deita a cabeça no meu ombro. Cai em mim. Não te recomponhas. Atira janela fora o tempo e a postura. Fica nos meus braços. Ouve-me o coração, porque sim, sem ser preciso motivo.Anda. Faz comigo desenhos de fumo suspenso na ebulição de ser humano. Rasga-me as consequências de ser na vida como nos versos. Despe-me dos medos com os dedos delicados. Diz devagarinho que amar não tem fundo nem contornos. Anda. Deixa o mundo e habita-me. Beijemos as cicatrizes mutuamente, sem ter nome nem morada. Apenas. Só. Modo de vida por suficiência de justificação. Recíprocas. Porque nos elevamos, livres de julgamento, e essa ode à transposição do ser é quanto baste para nos sentarmos à mesma mesa e bebermos do mesmo copo, sem que telhados de vidro se façam cair.Anda. Liberaliza-me. Porque podemos, afinal?