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INÊS MARTO

INÊS MARTO

O corpo inerte e o pensamento filosófico

Como a realidade da quietude forçada me leva a um mundo maior e incuba tendencialmente a filosofia e a arte em mim, por me alastrar naquilo onde consigo: o caminho mental.

 
 
 
Assim que acordo, dia-após-dia, a noção da divergência dos meus padrões de movimento face aos de mobilidade normativa está presente. É uma presença quase latente, por existir desde que eu própria existo, mas nem por isso deixa de estar lá. 
Afigura-se quase como a consciência da nossa própria respiração – ela acontece, por si mesma, automática, só se torna manual se induzirmos a autoconsciência sobre o processo. Do mesmo modo, a pronunciação da minha própria noção de padrões de movimento diferentes está cá, apenas se encontra numa espécie de ciclo automático. 
Seria assim. E é, em parte. É assim a minha autoconsciência de padrões físicos, pelo menos enquanto o meio envolvente me permite situações de conforto e não esforço, aí facilmente me esqueço de mim. 
Por exemplo, de momento, estando sentada na cadeira-de-rodas, a redigir este mesmo texto, não me lembraria que estou como estou, caso não tivesse que me despertar sobre isso para o escrever. 
 
No entanto, não obstante o hábito em relação a grande parte do que decorre no dia-a-dia, que atenua mais essa consciência, ou pelo menos a normaliza; basta-me precisar de ir buscar um copo de água ou abrir a porta, para o meu circuito de pensamento já ser completamente diferente. 
Desde logo tenho que pensar como o vou fazer. Como conduzo a cadeira, para dar espaço de abrir a porta, como transporto o copo enquanto volto para a secretária para não entornar a água. Como acordo e saio da cama e me visto e me calço, se conseguir, nem sempre consigo, e como vivo. 
Então, desde logo, uma boa parte do meu movimento está associada necessariamente a pensamento lógico, planeamento estratégico e geralmente esforço. O que faz com que sejam as situações mais inertes aquelas que me colocam menos alerta, e, por conseguinte, mais confortável e mais tendencialmente inclinada ao pensamento livre e filosófico. 
 
Contudo, estamos ainda a tocar apenas numa parte muito superficial da minha noção corporal. Regra geral, tudo isto que descrevi se processa sem que eu própria tenha que pensar muito sobre isso – ou há mecanismos e técnicas já aprendidas ao longo dos anos, que enraizei, ou, para o que não faço sozinha, felizmente na maioria dos casos ou encontro soluções ou consigo conformar-me a alternativas. 
No entanto, há particularidades acerca da paralisia cerebral, diplegia espástica, que tornam muitas vezes difícil esquecer-me do meu próprio corpo, e manter toda a noção de mim mesma latente. Principalmente a espasticidade, como o próprio nome indica. Que consiste nas permanentes sinapses cerebrais para contracção involuntária dos músculos. 
 
Isto é, na prática, a paralisia cerebral além das limitantes no que respeita ao movimento em si, torna-me também um corpo permanentemente tenso, o que faz com que me sinta mais. Sobretudo com estímulos, a grande probabilidade é que me contraia, mesmo sem querer. No meu caso específico, resulta num padrão de corpo esticado, maioria das vezes, e voz tolhida, de respiração mais curta. 
Já tenho isso como normalizado, tanto é que perco a noção que o faço e, muitas vezes, se me vir por exemplo em gravações de vídeo espontâneas, não tenho noção de determinadas posturas ou expressões. Mas, no momento em que decorrem, mesmo que as tenha enraizadas como naturais por força de hábito, a verdade é que, pela contracção, me trazem a mim e me lembram de mim. 
 
Tudo isto me leva a sentir mais conforto em dois polos opostos – ou naquilo que me foque necessariamente no meu corpo, e talvez assim extravase o overload que sinto subliminarmente todos os dias (como é o caso por exemplo de nadar, onde sinto o corpo com mais liberdade, ou do processo de ser tatuada, em que a dor me chama permanentemente a mim e me faz “habitar” o momento, escolhendo algo que me dói porque eu quero que doa, e marcando o meu corpo porque eu o quero marcado, permitindo-me assim algum domínio sobre ele). 
Ou então, o extremo contrário disso, aquilo que me permita o mais possível a alienação e o esquecimento momentâneo. Situações como escrever, ver filmes, ver peças de teatro, ouvir música, enfim, tudo aquilo que me transporte para fora de mim, funcionam como um bálsamo, porque me permitem habitar a esfera onde sou mais livre do que a do físico: a da mente. 
 
E talvez agora esteja a chegar ao cerne da questão que aqui pretendo provar. Maioritariamente, procuro formas quietas de estar, porque me permitem adensar-me mais. 
Ciclicamente, então, é nessas áreas que mais me desenvolvo. No explorar da escrita, das artes cénicas, no observar, no estudar, no descobrir e aprofundar padrões daquilo que me rodeia, na curiosidade em entender e sentir o mundo e como ele em mim se recria e reverbera. 
Não só, portanto, o desenvolvimento autodidata que faço dessas vertentes me permite ocupar o meu tempo da forma como me sinto mais eu – sem aparentes, ou pelo menos activamente notórias, limitantes – e portanto me leva a escolhas de vida que preferencialmente passem por isso, como, circularmente, por escolher repetidamente esses caminhos para o meu tempo, me aprofundo mais no conhecimento, na sensibilidade e na abertura para eles, e vou descobrindo também outros e novos temas paralelos, tornando-se um mundo cada vez maior aquele que descubro, lendo, investigando, observando e filosofando. 
 
Um factor interessante de notar aqui também, são as cumulativas vezes em que quem me conhece virtualmente e pela escrita sente dificuldade em acreditar na minha idade cronológica. Creio também prender-se a resposta a essa questão exactamente à quietude física versus a longinquidade onde chego no pensar. 
Fisicamente, a realidade é que não vivi muito, pelo menos não tanto, nem metade sequer, do que uma cabeça sonhadora como a minha gostaria de viver. Em sensação física das experiências tenho um quotidiano, digamos, pouco temperado, para quem na verdade gostaria de perder amarras. Facilmente sou tida, por isso, como insossa ou banal à primeira vista, o que a minha natureza introvertida ajuda, mais o estereótipo que já traz por si só o “elefante na sala” que é uma cadeira-de-rodas, quer eu queira, quer não. 
 
Mas, mentalmente, não é isso que acontece. Na escrita também não é isso que acontece. Quem cria o primeiro impacto desse modo, tem de mim uma representação muito mais fiel daquilo que sinto que sou. Tanto é que coleciono um considerável rol de reacções de espanto, quando me encontro com quem chegou a mim assim e me desconhecia. Tenho na escrita o ponto de fuga. Tenho na escrita, e no pensar artístico, criativo e filosófico que lhe está associado, a minha forma de ser do tamanho que realmente sou e ainda me suplantar. 
Tenho na escrita, e na quietude dela, e em quase todas as janelas mentais que abro a descobrir mais mundo, que acabam por nela desaguar, o meu modo de chegar mais longe. O forçar-me ao corpo destitui-me desse meu propósito. É no despojar-me dele que indubitavelmente me sinto mais, e que produzo aquilo a que quem me conhece chama carinhosamente de “espasmos poéticos”, que realmente sinto irem ao encontro da minha essência e que a elevam. 
 
Creio que se fosse livre em corpo como sou em espírito, talvez não tivesse todo este mundo dentro, pelo menos não ainda. A idade não me corresponde. O tempo mental de quem se “auto-navega” é rápido demais para os relógios. Não será também ao acaso que quem me lê me chama até de “old soul”. O tempo da descoberta não espera pelos ponteiros. 
Mas acredito que se pudesse não ser presa pelas minhas limitantes – e especialmente já tendo estado deste lado e tendo noção do que perco – muita coisa não seria como é. 
Não seria assim, porque teria (e tenho, com teimosia continuo a ter) uma imensa vontade de viver o que não posso, de chegar onde não chego, de ir onde não vou, e sobretudo intensamente, e sobretudo longe, e sobretudo de modo tão frenético e assoberbado, que não me restaria tempo para pensar, nem para me adensar, nem para saber quem era, só para me sentir de uma vez e apenas – só para compensar tudo aquilo que me falta – só para o reverso da medalha, perdendo os limites de vista. 
E aí, não acredito que filosofasse, que me preocupasse em ler e investigar, que quisesse perder tempo quieta a escrever, se podia dançar de pé, se podia ser dona de todos os meus passos, se podia permanecer no fio da navalha e dar-me ao luxo de escolher brincar com a sobrevivência. 
 
Seria hipocrisia minha, se não admitisse que são muitos os dias em que trocava uma coisa por outra, caso tivesse escolha. Mas na realidade não sei até que ponto me sentiria completa. Não sei até que ponto sentiria propósito. Não quando tanto do que sou se assenta no que escrevo. E aí, chego até a agradecer, pela quietude que me é forçada, porque a afirmação mais franca que posso fazer é que não sei quem seria se não filosofasse, se não habitasse os mares que construo dentro, se não fizesse tudo o que aqui descrevi, que me abandona do eu físico para me espraiar onde ele é livre, e que tem no seu pináculo sempre a escrita. 
 
Concluo que as limitações que tenho enquanto corpo móvel, hábil, funcional, não só me tornam quem sou por não me deixarem outra escolha, como por me fazerem aguçar ao máximo todos os outros potenciais que não lhes estejam inerentes, numa espécie de acto de plasticidade cerebral aplicada à própria construção do self, em que faço uso do espaço que seria do corpo, para me aumentar no que me resta. 
Aliás, a própria experiência de redacção deste trabalho acaba por ser reflexo de tudo aquilo que tento defender: na inércia física em que redigi tudo isto, tacteei-me e percorri em mim distâncias enormes, potenciei um expoente maior da minha auto-descoberta e permiti que acontecesse aquilo que é por definição o meu meio de me expandir. 
 
Conclui-se circularmente, por tudo o que acabo de escrever, processo que é em si espelho do que ilustro, o que creio ser o ponto final ideal da minha reflexão livre, a metafísica do título: o corpo inerte no pensamento filosófico.

 

Dissertação produzida como proposta de avaliação à Unidade Curricular de Teoria e Estética do Teatro, da Licenciatura de Estudos Artísticos - Artes do Espectáculo, docente Anabela Mendes, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2018.

O simbolismo da cor na dança | reflexão artística

Texto elaborado como resposta à avaliação escrita da unidade curricular de Teoria e Estética do Teatro, leccionada pela Professora Anabela Mendes, da Licenciatura em Artes do Espectáculo, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a 1 de Junho de 2018, sob premissa da reflexão do significado da cor enquanto elemento simbólico na arte, e, mais especificamente, na dança:

 
 
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Dimitris Papaioannou - Primal Matter
A questão da cor é desde sempre vasta. Prova-se ser algo profundamente enraizado histórico-socio-culturalmente. Quer no seu simbolismo, quer no efeito que em nós provoca. Do luto às celebrações, do culto religioso às atribuições de género e das ideologias políticas até aos poderes xamânicos.
Subliminarmente, e sem que na maioria das vezes estejamos cientes disso, a influência da cor denota-se um pouco por todo o lado.
Elogio frequentemente a negritude de certos timbres e improvisos vocais. Conotou-se um estilo à raça que lhe deu origem. Conotou-se uma raça à cor da pele dos que a compõem. Mas estará a negritude de alguém pendente da melanina? Pendente do berço? Pendente do meio envolvente? Quem diz negritude diz qualquer outra sensação de casa. Provirá do pó astral que nos compõe? Da memória ancestral? A sensação de pertença, o lugar no universo...
Conheço "evidentemente brancos" de alma negra. E aí? Tornar-se-á a cor um espectro referencial de encaixe da essência também? A abordagem ao tema poderia ser tanto mais múltipla e profunda quanto mais me debruce sobre ele.
 
 

Mas, por abreviação analítica, escolho centrar-me em Primal Matter de Dimitris Papaioannou. O corpo e o nada. O eu e a ausência. A incompletude do ser. A pele e o vácuo. A cor da pele e o vazio. O negro como o vazio. A vermelhidão do corpo contraído em esforço. O que fica, com tudo isto, presente na memória, são reflexões sobre o eu e o seu caminho. O eu e as suas batalhas. O eu e a sua pequenez que se agiganta na busca de sentido. O eu e o outro. O eu e a sede de encaixe. E a esperança de voo.
Também a bravura da conquista. Também a loucura do sonho. Também o intangível como ímpeto. É tudo isto feito a cor de pele e negro, a luz e sombra, a suor e madeira e a transparências de água.
A presença da cor será talvez uma gravura volátil na parede da memória. A dança é pintura em movimento.
Terá a cor do corpo hábil o sabor que lhe imagino? Como será a sensação de dominar o movimento de nós mesmos? Tudo isto me fascina.
Quem sabe eu, evidentemente disfuncional, pinte da minha própria paleta de corpo frágil, espástico, indomado, também novas cores com que fazer dança: a cor das cicatrizes sobre o metal das rodas. E talvez assim atinja a minha liberdade, na demanda de saber de que cores se pinta a força.
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Dimitris Papaioannou - Primal Matter

O subtexto corporal e a empatia na arte | Reflexão artística

 
 
Paula Sá em Os Homens da Minha Vida, 2014. Fotografia: Ricardo Rodrigues
A expressividade física, enquanto linguagem corporal e facial, é uma valência aplicada a todos os seres vivos. Primeiramente enquanto mecanismo necessário à sobrevivência, mas também como parte chave de padrões comportamentais e sociológicos. De certo modo, podemos dizer que até as plantas exercem expressividade física, na medida em que são seres vivos que reagem a estímulos como o de luz/sombra, por exemplo, contorcendo os "corpos" de modo a favorecer as questões mais adequadas à sua sobrevivência.
Se aplicarmos esta questão à dimensão artística, ao tomarmos os primórdios da arte na civilização humana em consideração, podemos observar a multiplicidade da utilização do corpo enquanto "veículo" e, simultaneamente, modificador activo do resultado da obra artística, nos mais diversos contextos. Desde o surgimento da música, à dança e ao teatro, como vemos n' O Nascimento da Tragédia de Nietzsche, que o corpo tem um papel fundamental na arte. Se formos mais além, e em contexto contemporâneo de performance, é até tido como matéria.
Mas tomemos, por uma questão de não dispersão do raciocínio, agora um caso específico para análise, através do qual possa ilustrar as relações emocionais incitadas pela expressão física do artista, na minha posição de espectador.
Escolho para isso uma situação talvez menos exacerbada, mas ainda assim não menos intensa e comprovativa. Tomo como exemplo prático o espectáculo Os Homens da Minha Vida, um concerto de registo intimista onde a cantora Paula Sá revisita a sua vida através de música cantada ao piano.
Talvez pareça pouco óbvio o meu percurso mental da questão, mas é isso mesmo que proponho: dissecar as emoções no processo simbiótico artista-espectador e qual o papel da linguagem corporal no processo.
Assisti à gravação em vídeo do espectáculo múltiplas vezes ao longo do último ano. A parte vocal é obviamente a de maior destaque, mas está longe de ser a única. Há na linguagem corporal da artista um subtexto, arriscar-me-ia a dizer tão forte como a expressão vocal. A voz promove empatia, pela execução exímia e o convite de difícil recusa ao foco no presente por parte do espectador. Mas é a utilização do corpo que adensa essa ligação da artista com quem a vê, ainda mais longe.
Do mesmo modo que os exemplos enunciados [na pergunta, sobre a expressão corporal de Kathakali], são as mãos e o olhar que mais prendem também. Ilustra o canto com o gesticular. E tem a emoção do que canta à tona da voz e dos olhos. Escrevi uma vez que parece trazer nos dedos gaivotas envidraçadas.
Conecta-se a mim num contexto cinematográfico, pela expressão facial fortíssima, a fragilidade e a comoção denotadas no rosto enquanto canta, e as mãos trémulas a ondular as notas vocais, tornando-se quase dança. Impele-me à poesia por indução empática.
Talvez seja esse o expoente máximo da dimensão desse efeito das emoções em quem as observa: tomar de tal maneira conta do espectador que ele mesmo se inunda da mensagem do artista. E da maneira como anda, como se senta, como coreografa de forma instintiva a dança de ser e estar, enquanto se descreve e canta, surgem degraus através dos quais chego a ela, me comovo e quase a bebo liquefeita e escrevo inúmeros versos sobre a sua corporalidade.
Uma das melhores partes da arte, julgo, está aí mesmo, no nós espectadores esquecermos a nossa pele e nos deixarmos invadir por todos os subtextos do artista.
É interessante também referir que, das diversas vezes que assisti, os meus diferentes estados-espírito me fizeram sentir maior ligação com diferentes partes do espectáculo. De grosso modo, as que fossem mais de encontro ao que eu mesma sentia.
É uma particularidade interessante do processo empático, o facto de como, por exemplo estando tristes, uma música triste nos pode surgir como bálsamo. Diversas vezes o choro dela chegou a aliviar o meu, passei a procurar esse espectáculo como abrigo.
 
(Texto produzido como resposta à avaliação escrita da unidade curricular Sociologia das Artes do Espectáculo, da Licenciatura em Estudos Artísticos - Artes do Espectáculo, proposto pela Professora Anabela Miguens Mendes, a 23 de Março de 2018, visando a expressão física das emoções nos processos artísticos e a empatia do espectador)

Asas e tinta na pele | Frida Kahlo by Bilotta Tattoo

 

 
 
 
 
 
O tal Sábado que nunca mais chegava. 7 de Outubro. Nuncatinha tido processo destes tão talhado pela doçura como aconteceu com Igor, quefez o atendimento virtual de Bilotta Tattoo (da Don't Cry Collective). Sentia-me em casa, antes sequer de terchegado, e não, não é exagero.
 
Quem é Bilotta? Pois bem, chegou a mim de surpresa. Como foisempre, esperava um sinal do universo de quando e como tornar derradeira em mima auto libertação de que tinha escrito o manifesto recentemente. Sabia que aresposta era Frida. Encontrei Bilotta Tattoo no Facebook, quando não procuravasequer, nesse compasso de espera. Apaixonei-me. “O tatuador mais fixe do Rio de Janeiro”,estava escrito. Não tive dúvidas porquê. Até self-tattoos ele tinha feito, deperder o ar.Ficava em Lisboa até ao fim do mês e zarpava. Era a vida a dizer-me que eraagora. O caminho fez-se.
 
Batiam as quatro da tarde certas, quando cheguei ao estúdio.Nervosismo nada, por mais estranho que fosse. Bilotta sorriu-me enquanto saíado carro. Os meus olhos brilhavam, tenho a certeza. “Então, me fale de Frida, me conta.” – abriu-se mundo ali.Falei dela como se fosse eu, falei de mim como se fosse ela, não sei bem ondese apaga o nosso ponto de fusão na verdade. Olhei Bilotta nos olhos, comoraramente faço. E ali havia verdade. Tanto foi que não tardámos a falar de fadosequer. E se precisasse de mais certezas de que tínhamos o mesmo comprimento deonda, estavam ali.
 
Desenhou em mim o primeiro rascunho. Disse ele que era só aparte de criança a divertir-se com uns rabiscos. Frida foi baixando em nós.Conversámos como se nos conhecêssemos há anos. Bilotta teve uma facilidade demestre em ver-me para além do que se vê mais imediatamente. O processo todofluiu. A energia toda fluiu. Mostrei-lhe Raquel Tavares. Ouvimo-la. Falei-lhede Alfama, também se tinha apaixonado já. Mais uma prova de que era dos meus.
 
E entre dedos de conversa sobre arte e existências,estudámos Frida, vi-o absorvê-la, enquanto me agradecia várias vezes o presentede fazer isto. Aquele não sei quê de onda gigante que une os que são desta raçaestava ali, diante dos nossos olhos. Captou-a. Amor à primeira vista.
 
À primeira linha disse “Que Frida esteja connosco.” E esteve,se esteve. Seis horas passaram. Uma eternidade xamânica. Uma dor demetamorfose. Lágrimas na linha de transbordo às vezes, por cada ponto de asasque se fazia pele. Outras vezes uma tranquilidade quase transe. Estou quasecerta de que nas nossas respirações estavam até entrelaçadas. Olhávamo-nos nosolhos um ao outro e estava ali patente – a força de Frida, a minha libertação,a arte que só se faz com esta entrega.
 
Bilotta deu-me as asas. E tenho a certeza que o soube tãobem quanto eu. Estava na cara. Estava na pele. Estava naquelas palmas quebatemos e que pareceram ecoar por Lisboa inteira quando levantou a agulha doúltimo ponto, era uma da manhã.
 
Se Frida esteve connosco? O que havia de Frida em nósemergiu ali. Foi isso que nos atou os laços, estou certa. Bilotta ficou umamigo. Pouco me importa o imediatismo com que o digo, abri-lhe a porta à minharaiz. E ele, com a sua arte elevada, deixou-me gravada a certeza que não mehavia de esquecer da força que essa raiz tem.
 
 
“Pies, para qué los quiero si tengo alas pa’ volar?”escreveu Frida no diário, corria 1953. Foi a frase que deu mote a isto tudo.Meta-voo dos meta-voos… Frida tornou-se as asas ela mesma. Foi dia demetamorfosear-me, ode à auto libertação, manifesto na pele, se foi. Saí alada.

 

"É o tornar-me mais mundo que acaba por me manter." | Inês Marto

Sexta à noite. Vim a casa da minha mãe. Estou numa altura com pouca coisa obrigatória que fazer (ainda bem), o que me deixa - ainda mais - com demasiado que pensar (se calhar não tão ainda bem... ou se calhar sim, a linha é ténue entre o desenvolvimento de novos caminhos ou o vertiginoso descarrilanço existencial, nestas alturas, o que pode ou não levar ao primeiro outra vez, também, mas isso é outra história).
Dou comigo no habitual eco de pensar em metas (a meio caminho entre o primeiro e o segundo, portanto, vamos lá ver)... Às vezes não sei se seria mais feliz se fosse menos inconformada, ou se é por ser inconformada que vou provando um bocadinho do que é ser feliz. Mas a verdade é que é consistente em mim a necessidade de mais. Algo mais. Nem sempre sei exactamente o quê, mas mais. Se por um lado gostava dessa coisa da tranquilidade dos anos - se é que seja verdade - por outro, acho que isso era bem capaz de ser a minha morte.
Estava a ver o podcast do Rui Unas, Maluco Beleza, com Herman José:
 
 
(De nada.) Quando, no contexto da conversa, Herman diz que, quando se tem absolutamente tudo acaba-se o desafio. E de repente fez um pouco mais de sentido, esta minha dicotomia entre a ânsia por alguma paz de espírito - passo a absoluta estupidez deste antagonismo - como dizia na entrevista, e a comichão desalvorada que me provoca a estagnação decorrente das zonas de conforto.
O podcast toca também na questão da reinvenção constante, que acaba por ser uma primeira necessidade sobretudo no campo artístico. E de facto, do alto dos meus 22 anos pequeninos, não posso deixar de o sentir.
Bem sei que tenho o terrível defeito de querer que tudo aconteça e depressa, que se desenrole e que venha mais. Bem sei que me falta a paciência para ver o que é que o tempo me reserva, de tal forma que muitas vezes quase me afogo.
Mas a verdade é que me encontro àquilo que a mim me parece muito tempo (a nós parece-nos sempre mais, pronto) à procura de um lugar válido, subsistente. Nunca quis tronos, mas gostava de sentir um bocadinho de chão. Um bocadinho de vida, boa ou má, mas conseguida à custa daquilo que desde que me lembro é o que quero da vida: a minha escrita.
E então dei de caras com a minha flagrante pequenez (como felizmente dou muitas vezes, não gosto disso de não pisar o chão) e indaguei até que ponto sou alguém, para alguma coisa. Até que ponto é que o mundo me deverá efectivamente um lugar, ou serei eu que tenho que infinitamente mais me tornar lugar a bem de vir a conquistar o meu bocadinho de mundo.





Estamos na era do imediatismo.  Talvez venha daí também alguma da minha dificuldade em dar tempo ao tempo. E sempre que assento os pés no chão, contrasta-se a minha avidez por um lugar com esta tal noção de ser mera gota.É daqui que nasce a minha sede de desafios, é sempre deste contraste. Pauto-me por crescer. Sempre que me debato sobre ficar, é o tornar-me mais mundo que acaba por me manter.
No caminho para cá falava sobre possibilidades de futuro. Cheguei depressa à óbvia falta de desafios que sinto. E não é que tenha nada na mão, propriamente, até se torna num quadro ridículo de estagnação a pairar, sem a zona de conforto sequer.
A única coisa que sinto conquistada aos poucos, a pulso, é um punhado de gente, não muito grande, mas muito sólido, que começa a querer ouvir os meus gritos. E nisso não nego o privilégio.
Pensava, nesse entretanto, talvez voltar a Psicologia. Talvez mestrado em Filosofia. E a seguir o previsível "Mas que saídas é que isso me dá?". A questão é que não quero "seguir" nada disso, mesmo. O que quero (tentar, na medida em que mereça) poder fazer da vida é realmente arte, seja lá em que valência melhor a transmita, ainda acho que é escrever. Mas talvez me desse mais credibilidade. Mais "direito" a uma plataforma, a um lugar, a esse bocadinho de mundo que me deixasse ter a minha vida.
E, ironicamente, depois de tanta pressa em agarrar tudo, penso "Mas gostava de fazer isso no meu tempo, enquanto vivo." (não sei que parte da frase me deu mais vontade de rir)... por auto-expansão, se me pudesse dar a esse luxo, como quem se cultiva enquanto tem a sua vida, só que na esperança de poder ter legitimamente a sua vida... podia ser um caminho...
Será isso? Será que é aí que me encontro nesta contradição? Entre o querer que a vida inteira me aconteça para ontem, tanta é a ansiedade; e o dar-me tempo para viver no meu compasso e me expandir, até que aconteça por mérito, que seja quando for é no tempo certo? Há mediatriz, sequer?
Se tivesse respostas, não era eu.