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INÊS MARTO

INÊS MARTO

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Sonhos cansados

Era feita de poesia... mal o meu.
Arrancava de mim os versos, silenciava-me a rima, tornava todo e qualquer poema desnecessário.
Fazia odes e sonetos e redondilhas partidas em pedaços, no cavalgar magnético da pressa daqueles passos... mal o meu.
Nas ondas do mar daqueles olhos, os mesmos, os tais, secava-me a poesia... Restava-me um eu tão nu e tão real, que não queria... Não era mais capaz de fazer arasbescos perfumados de amor... era feita de poesia, mal o meu... poesia é dor.
E no trinar daquela voz, houve uma reviravolta... "Meu amor" e acendeu-se uma chama quase morta.
Era feita de poesia... mal o meu, arte fugaz. Era efémero poema, toca-e-foge, moinho de vento sem direcção... mal o meu, no dia em que me fugiram as rédeas ao coração.
E agora? Sobram pensamentos anémicos e veias descoloradas... mal o meu. Não resta nem um pingo de floreados mais.Agora? Agora resto eu de sonhos cansados... tão bela, tão intocável, tão amada.... agora? Sobra a alma corroída... mal o meu. E sobra a falta de coerência e um filtro avariado... sobra a fuga de palavras que teimam em sair:
Não tivesse sido assim, não tivesse amado tanto, não me tivesse deixado ir e ser poeta na vida. Pois fica tu com o poema, que se lixe! Não quero mais, absorve-me então a poesia de vez e deixa de ser musa encantada... agora? Resta mágoa... mal o meu. Permanecerás tu... de sono intocável, na tua redoma de vidro, que me mata, e que ninguém trespassa, porque és tu, sempre tu, só tu e mais tu... e depois, de repente eu, quando calha... prendes-me as asas, e então é tudo, e fazes-me ser espectro da mais bela arte de amar... e depois? Que se lixe! Depois vens tu, e mal o meu, outra vez, pouco te importa. Subtil, magnética, inebriante... prendes-me os fios da alma com arte exímia de mestre pescador... porque te amo? Não sei, e só me alastra a mágoa.
E agora? Que se lixem os sonhos cansados, e a alma corroída, e o filtro avariado... e que se lixem as noites sem dormir e os textos amarrotados... e mais essa amostra de meio amor, e a redoma onde vives, e que se lixe o conta-gotas que me castra por medo que vás embora... Agora, que se lixe esta angústia sem remédio... Agora? Que se lixe tudo, e esta porra de nada que sobra, se não sei já ser, nem deixar de te amar. Sabes? Mal o meu.