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INÊS MARTO

INÊS MARTO

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Nada mais...

Preenchia o velho silêncio com a mesma música, que lhe soava já intrínseca de tão familiar que era, tantas vezes repetida, em jeito de iludir a solidão, porque qualquer coisa era melhor que a própria mente e o silêncio.
Deixava-se ir, noutro texto, sem querer nada nem procurar coisa nenhuma, e sem ter nada para dizer realmente, era nada mais que manobra de distracção para a fuga a uma fogueira revolta dentro de si.
E nada mais queria se não que os olhos - aqueles olhos - lhe bebessem as palavras, porque assim se dava a conhecer no seu mais ínfimo interior, porque só assim sabia mostrar a alma, a mesma alma que se perdia vezes sem fim, no espelho daqueles olhos de magia, indefinidamente incógnita.
Sonhava então ser folha de outono, ou pássaro, e poder pousar no parapeito daquela janela encantada e ficar de respiração suspensa - ali, sem mais nada se não amor - e ser os lençóis que acariciam aquela pele de cetim, e a primeira nuvem sobre a qual pousa o olhar que enfeitiça, para onde vão os sonhos e os segredos e as ânsias e os medos antes de se deixar invadir pela pressa do dia.
Num dia perfeito, seria sombra, andaria despercebida, plana e homogénea, parte apagada de quem a faz palpitar - mas parte, ainda assim - bastar-lhe-ia para ser feliz... inseparável e indefinida, abrigo, companhia, abraço escuro, contra-luz, magia...
Mas não sabia ser mais que palavras de destino incerto, nada mais que faúlhas de esperança feita frágil pequena chama, elevando-se em noite sem fim, esperando encontrar-se no cume do mesmo céu de sempre - por magia ou destino ou algo chamado amor - com aquele olhar, o mesmo, o derradeiro, o tal. E no silêncio, que não assustaria mais, ser o beijo de boa noite, e os grãos de poeira que pairando a viam despertar, ao primeiro raio de luz do dia.