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INÊS MARTO

INÊS MARTO

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Deriva

Esperavam apenas que fosse feliz... já isso se lhe afigurava um campo de batalha.
O sabor dos dias subia e descia como montanha russa indefinida, sem porquê que se lhe atravessasse. Ansiava por uma âncora, na verdade, e por doces mãos que lhe calassem os lábios do pensamento.
Nada a prendia, e se tal devia ser motivo de asas, não, era antes a razão de andar à deriva. Na verdade, tudo o que queria eram amarras no pensamento... choviam tempestades de perguntas, sempre sem fim nem resposta, numa tão longa anunciada demência iminente, que a assustava mais que tudo... isso, e a solidão - era o maior dos seus fantasmas, triste e definitivamente.
Subreptício, como sombra de árvore de cemitério em sonho difuso, num silêncio assombroso, estava enraizado e frondoso o medo que a deixassem um dia. Infiltrara-se em si a máscara de vidro que a fazia crer, mesmo que não quisesse, que tudo havia um dia de acabar sem motivo, e que a mais íngreme descida dos seus ferrugentos carris passava a ser condição. Os mais fundos vales da sua escarpa, receava, absorver-lhe-iam o núcleo do ser... Receava que todo o amor fosse sonho, ou frágil como cristal... No dia que era para ela vincado prenúncio, ficaria só, dissipavam-se os gestos, as palavras, as memórias, e sobretudo o afecto, no momento em que que vissem a essência - era o seu maior pavor.
E aí ficava entregue a si mesma, pior que sozinha, sem se saber encarar... tornar-se-ia no que já era, e tentava mascarar - apenas um inacreditável caleidoscópio de medos e sombras e de ânsias e cantos escuros... um vazio de incertezas e pulsações, de inconsistências perdidas, um resvalar de emoções...