Sala de nevoeiro

Sinto estranha a casa que sou. O corpo um precipício entre a essência e o limite tangente à pele, sufocado de medusas saturadas em morfina. A linha das mãos desenhos trémulos de cafeína a ondular à superfície dos estímulos. Abaixo dos olhos dois oceanos densos agrestes. O rosto sulcado entre incertezas de existir. Na ausência … Mais Sala de nevoeiro

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Sub-aquático medo

Etéreo verde escuro refractado invade-me a parte esquerda do corpo. Sub-aquático medo. Onda de frio rasteja no cimo da nuca. Transpiram-me os dedos sem lugar. Desesperado esconderijo de desconfortos. Parte-se-me da pele o vidro. Seca-se-me a boca. Prende-se-me a postura. Rastejam medusas de fogo na ante-câmara dos lábios. Vertigem imparável de pensamento. Versões translúcidas de … Mais Sub-aquático medo

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Restaremos

Todo o mundo adormeceu. Resto eu. Restamos nós. Eu e a pintura mental que faço de ti por companhia. Assim, como te vejo: com filtro de polaroid contra a luz do sol tardio, silhueta de celofane algures onde há maresia. De cigarrilha e corpete sob o casaco dos dias. Tu. Dietrich-Amy-Joplin e não sei mais … Mais Restaremos

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Acender-te(me)

Amanheço. Sonho-te(me) como memória translúcida no reflexo da janela embaciada de algum comboio que me leva para não sei onde. Ouço-te(me). Em cada esvoaçar dos dedos desenhas referenciais dos momentos que se desprendem de ti, que se fazem efémeros, fátuos. Chamas a ti o perpétuo e fugidio presente, prendes a ti os meus olhos, atados com … Mais Acender-te(me)

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Hoje sou

Hoje não. Hoje não sei o que é a vida. Olho os dedos nus e não lhes sei o caminho. Hoje procuro no fundo dos olhos um porto de cansaços e não há resposta do outro lado de mim. Hoje não. Hoje não sei o que é a vida, hoje quis cingir-me à minha própria … Mais Hoje sou

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Circo de pedra

Há dentro de mim ruínas invisíveis. Ossos do ofício de me desmoronar como um trago para essa sede maior. Coliseus devolutos do circo de feras de pedra que me dançam na cabeça. Saltas o muro. Não te afligem os destroços. Caminhas no meu abandono como palma da tua mão. Apanhas do chão as pedras caídas do meu … Mais Circo de pedra

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Debruada a pérolas

Visitas-me o vácuo remanescente da condensação involuntária que se fez em mim. Pisas com passos cautelosos de silêncio o chão de mim, feito de restos de tempestade. E no sentir-te chegar sobre a madeira do meu quarto desamparado fazes suscitar mais vida e mais tamanho. Fazes-te música ao ouvido das minhas ânsias. Agigantas-te em mim, como … Mais Debruada a pérolas

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Deserto verde

Amanhecer e um deserto verde. Luminosidade expansiva perpétua flui pelo tecto do nada. Árvores retorcidas ásperas espalhadas à toa. O ensurdecer do pensamento. Prédios de néon transbordam o desvanecer da noite. Viagens incessantes. Estradas fora. Rumos sem fim perante os olhos que se deixam ultrapassar parados. Gente desenfreada e um deserto verde. Ao fundo, o … Mais Deserto verde

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Subterfúgio

Ultrapassemos a estranheza dos corpos. Saibamos a detalhe as nossas unhas e o eco dos corpos fundidos um no outro. Façamos da boca pares de pétalas cadentes com que celebramos a reciprocidade da noite. O tempo externo teima em ser câmara lenta e os teus dedos tecem-me bordados inéditos por dentro dos órgãos, contorcidos na … Mais Subterfúgio

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