Espelho visceral (Inês Marto e Paula Sá)

“Um coração pronto a pulsar na nossa mão”. Fomos O’Neill feito sal nas veias. Sulcámos as nossas pegadas na densidade do frágil. Consumámos a impotência, a verdade escura, contida e amarrotada. A que não pulula, a que não se diverte nem se convence. Traçámos os contornos à floresta dos medos. A boca sobre os dedos. … Mais Espelho visceral (Inês Marto e Paula Sá)

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Voltagem densa

O mundo não te chega. É mais fácil pensar em ti do que em mim. O mundo também não me chega a mim. Mas não quero falar sobre isso. Hoje não quero ser eu. Passei o dia sozinha. Passei o dia sozinho. É isso. Passei o dia sozinho. Nem me apetece acender a luz. O … Mais Voltagem densa

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Dentro em mim a prisão Dos sete níveis de sono inferno onde nasci Densas neblinas de atravessar solidão Passos de vidro sobre a areia Pétalas de sonho à lua cheia E dos rochedos vi aflorar fantasmas Uivos de nudez apocalíptica E finda a minha cruz tornei-me água Ou sombra livre, canto-terra Dos medos meus teci … Mais

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Contra-capa das entranhas

Borboletas de asas escuras sobrevoam o palato em rastos de electricidade. Procuras na intangibilidade do reflexo baço um auto-reconhecimento que não vem. Deambulas corredores inteiros sem sair do lugar. De vidros sujos, chão verde-água gasto pelo arrastar de chinelos genéricos e o conta-gotas de um soro que subsiste na sinfonia agreste das rodas calcinadas. O … Mais Contra-capa das entranhas

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Demasiado

Não, eles não sabem. Viemos ao mundo para dar tudo. Para ser tudo. Para arder tudo. Ou nada. Depois condenam o desprendimento que usamos como água. Estranham a leveza despudorada com que lavamos o medo que tiveram de se afogar na nossa fogueira, eles que não quiseram sair da bolha, meio termo, politicamente correcto, equilibrado. … Mais Demasiado

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Sala de nevoeiro

Sinto estranha a casa que sou. O corpo um precipício entre a essência e o limite tangente à pele, sufocado de medusas saturadas em morfina. A linha das mãos desenhos trémulos de cafeína a ondular à superfície dos estímulos. Abaixo dos olhos dois oceanos densos agrestes. O rosto sulcado entre incertezas de existir. Na ausência … Mais Sala de nevoeiro

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Sub-aquático medo

Etéreo verde escuro refractado invade-me a parte esquerda do corpo. Sub-aquático medo. Onda de frio rasteja no cimo da nuca. Transpiram-me os dedos sem lugar. Desesperado esconderijo de desconfortos. Parte-se-me da pele o vidro. Seca-se-me a boca. Prende-se-me a postura. Rastejam medusas de fogo na ante-câmara dos lábios. Vertigem imparável de pensamento. Versões translúcidas de … Mais Sub-aquático medo

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Restaremos

Todo o mundo adormeceu. Resto eu. Restamos nós. Eu e a pintura mental que faço de ti por companhia. Assim, como te vejo: com filtro de polaroid contra a luz do sol tardio, silhueta de celofane algures onde há maresia. De cigarrilha e corpete sob o casaco dos dias. Tu. Dietrich-Amy-Joplin e não sei mais … Mais Restaremos

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