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INÊS MARTO

INÊS MARTO

Bailado entre linhas

 E entrei de novo... entrei no quarto... a porta gemeu como quem chora de puro rancor, eu deixei-me cair no chão, no tapete estavam marcadas as garras do animal revoltado contra o mundo, o chão riscado, ferido pelos desgostos de quem se deixa absorver por ele...As janelas choram gotas de água secas, marcadas no reflexo dos pensamentos que revejo e volto a rever, lá estás tu, dançando na chuva, eterna criança mulher, sorris para o céu como quem espera ser beijada por um anjo... rainha dos pensamentos, de fantasias, de sonhos, de sentimentos...O piano toca, ou parece tocar, vejo o pó levantar-se das teclas num bailado de vultos majestosos, chora e soluça, conta histórias de mistério, de paixão, de fogo, amor, solidão...E eu escrevo, escrevo os pensamentos que correm na esperança que os venhas ler, nos sonhos, nas fantasias, que me venhas conhecer...E eu... eterno escravo da mente... penso, afundo-me e nado, no mar infinito que é a imaginação...Rio, salto, choro, gemo, sinto, vivo...De sentimentos vive a escrita...De escrita vivem os meus sentimentos... é sede... é fome... é vício... necessidade de alimentar a alma para que não volte a cair no precipício.Cada nota do piano, cada choro da janela, cada sorriso teu aos anjos me inspira sentimento, essa dança, esse bailado dos majestosos vultos que voam, será outrora o romance das nossas almas que ecoam, num quarto vazio, que irá estar cheio de esperança, nas paredes caiados, histórias de tumultos passados, um que escrevia, à luz daquilo que sentia e outra que sorria, por gotas de chuva molhada, que dança, que rodopia, à espera de ser beijada. 

Carlos Vieira