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INÊS MARTO

INÊS MARTO

LIVROS À VENDA:

Dois sóis

Quem me dera ter tal sorte,
Ser invisível assim,
Um leve véu de cetim
Que teu corpo sobrevoa
Num deslizar sufocante,
Barco de ânsia escaldante
Com utopias à proa.

E amar-te sem se ver,
Parapeito de um segredo,
Desejar-te sempre a medo
Como fazem os poetas,

Sem te dar cravos nem setas
Só sonhos, mil e um versos,
Estrelas e olhares dispersos
Numa sombra proibida,

À esquina da tua vida
Ir espreitar a passos leves
Em que caminhos te perdes,
Ser mapa do teu tesouro,

E num leito duradouro
Viajar sem direcção
Fazer prosas indiscretas
Das curvas dos nossos beijos

Quais versos em linhas rectas,
Inflamados desejos,
À luz da noite salgada
Sem ter pavio, nem nada

Tal chama desancorada
No navio dos lençóis,
Um sistema com dois sóis
Este da nossa paixão,

Para cuja definição
Não bastam lógicas ocas,
Mas sim o pulsar das bocas
E o sabor do coração.

Miragem

Sem prenúncio do destino
Como vento repentino,
Cavalo desenfreado,
Veio à tona do meu mar,
Sem que o pudesse evitar,
Este amor indesejado.

O que fazer, já não sei,
Porque quando reparei
Era já tarde de mais.
Quando ao olhar à janela,
Vi a sereia mais bela
Atracada no meu cais.

E não sei se cante ou chore,
Nem se fuja ou me demore,
Em segredo amando assim.
Sem saber fazer melhor,
Digo-te os versos de amor
Escritos dentro de mim.

E se um dia eu pudesse,
Concretizando-se a prece,
Esses teus lábios beijar,
Minha sereia encantada,
P'ra ter-te a mim ancorada,
Aprendia a navegar.

Partia ao sabor da sorte
Qual navio sem norte
Pelas curvas do teu corpo,
E deixava-me perder
Naufragando no prazer
De ser navio sem porto.

Cabelos negros beijava,
E uma fogueira ateava
No meu coração ardente.
Como um tango de amantes,
Duas almas viajantes
Remando contra a corrente.

É da tua pele o sal
Que me corre, clandestino,
Nas veias, ópio carnal,
Este amor que não domino.

Volátil

Dói-me o hoje, indefinido
Feito espuma volátil,
Trilho de um casco partido.

Dói-me a incerteza crua,
Corpo de sereia nua,
Sobre rochedos sem fim,
Infinitude quebrada,
Numa fogueira ateada
Algures dentro de mim.

Dói-me a inércia do tempo,
Dentro de um peito apagado,
Como esqueleto submerso
Dum navio naufragado.

Dói-me o que não sei que seja,
Sem ter corpo nem medida,
Janela sem parapeito,
Num precipício que é feito
Dos suspiros de uma vida.

 

Amor de fel

Se não congela, arrefece
Não morre, mas desfalece
Esbate, dissipa, esmorece
Este amor que me enlouquece.

E sonho, em jeito de prece
Que se desfaça a memória
De tamanha paixão inglória,
Sentimento unilateral...
Ópio, ânsia carnal,
Queima a alma em esperança oca,
O sabor daquela boca
E os olhos cor de mel,
Viciante amor de fel

Se não congela, arrefece
Morde, esbate, dissipa
Degula, esventra, estripa
Não morre, mas esmorece,
Este amor que me enlouquece.

Fadista...

Ao ombro traz o xaile
Negro, traçado a preceito,
Dá corpo e asas, cantando
A essência que traz no peito.

À média-luz e guitarra,
Com gesto forte e marcado:
Silêncio, que com alma e garra
Se vai cantar a nação, num fado.

Saudade tão nossa e bela,
Em poema musicado,
Nessa voz que é caravela,
Pelas ondas do trinado.

E em timbre feito emoção,
No eco das cordas,, chorado,
Está raíz, núcleo, coração
Forma de vida, país cantado.

Clímax

Sem fim, palavras chovem,
Em vão, esperanças escorrem,
Resvalam, por trilhos de sonhos cansados
Telhados de vidro, no chão, estilhaçados.

Chovem letras de ouro, em terra batida,
Em calçada suja, de pedra polida,
Por passos, em dias perpétuos, pisada,
Ilusão fugaz, ferida rasgada.

São beijos voláteis, de lábios vermelhos,
Tesouros sem mapa, navios de espelhos.
Vertigem, orgasmo, mordaz pulsação,
Indescritível clímax, doce criação!

Contra o tempo...

Fora de horas surgem palavras sem nexo... necessidade, vulcão, impulso, alucinação...
Contra o tempo caem lágrimas, jorram versos, choram-se linhas sem fim nem poesia.
Abafam a solidão os momentos de loucura..

A chama da criação é feita caminho de sentido único: a esperança de preencher um vazio, de acender a pele em faúlhas de absurdos sonhados, de trazer de volta o som, o sonho, a vida...

Palavras desconexas caem como gotas pela face... as mãos, envoltas em amarguras passadas, deixam-se ir sem pensar...

A ritmo mecânico tudo sai... ritual de encantos sem explicação...

É poesia quebrada, é verso branco, partido
É rima pobre, apagada... desabafo sem sentido.

É o correr de linhas vãs, sem rumo, esperança, ilusão
É refúgio, sono fugaz de alma caída no chão...

Boca de cena...

Corda bamba, arlequim
Máscara, véu de cetim,
Pluma em queda sem fim,
Sobressalto, frenesim...

Dúvida, loucura sã
Amor, arte, esperança vã
Suor, sangue, incerteza
Alma, entranhas, pó, tristeza...

Mãos, expressão, rugido, pancadas...
Doces utopias, miragens sonhadas.
Passos, uivos, asas, chão,
Boca de cena, tábuas, coração...

Pele, garras, voz, reflexo
Ritmo, tempo, silêncio convexo...
Espelho, cortina, imensidão,
Chuva imensa, ovação.

Alquimia

És cisne negro, garra, estilhaço...
Leoa, espelho, vulcão, abraço...
Trespassa-me o corpo, musa, sereia,
Veias de fogo, alma de lua cheia.

E quebra-me em pedaços sem fim, então
Solta as amarras, liberta-me o coração...
Vertigem, suspiro, poema alado,
Instinto escondido, desejo amordaçado.

Leva de mim a pele já gasta,
Beija, morde, sente, rasga...
Desnuda-me então, sem olhar ao tempo,
E deita no chão o corpo, desfeito...
Invade sem medo o templo do peito,
E vê como corre o sangue o suor...
É poema, é mistério, alquimia... é amor.

Árvore da Vida

Rasga-me
A roupa, o cabelo, as unhas, o corpo...
Desnuda-me, despe-me desta pele atribulada,
Liberta-me da pressa do dia...

 

Corta o tempo, dissipa o espaço
Quebra a rotina em estilhaços
Preserva apenas os efémeros pedaços
Das memórias, e das histórias felizes

E deixa para trás o tacto... 
Desprende as amarras, amordaça o fútil
Ama a poeira dos dias...
Guarda apenas os sorrisos, as rugas, a expressão
Lembra sempre o doce som, o bater desse coração...

Ensina-me... deixa-me beber de ti
Ensina-me a ser assim: árvore da vida como tu
A amar a terra... a crescer sempre
A rebentar após cada Inverno árduo
Com os mesmos ramos frescos e sorriso natural.

Ensina-me a nunca perder a essência
E a erguer-me todos os dias de novo
Arranca-me tudo o que é sintético
Despedaça a mentira e a a tristeza...
Desfaz o pensar numa brisa...
Ensina-me a sentir apenas o compasso natural
A aceitar, a respeitar, a entender...

Abre-me a jaula da dúvida
Desata-me os nós da incerteza
Deixa-me apenas ser... árvore da vida, como tu
Essa perfeita metáfora de tudo mais que é eterno...
Esta dimensão que escrevo em arabesco complexo...
Essa ALMA pura de reflexo convexo...