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INÊS MARTO

INÊS MARTO

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Manifesto da Auto Libertação

As sereias não nascem sereias. As sereias nascem Inêses.As derrotas não se negam. Tornam-se adornos.A normalidade não existe....O corpo não se cura. Aceita-se.O corpo não se cura. Aceita-se.O corpo não se cura. Aceita-se.As sereias não nascem sereias. Nascem para amar.O amor não são caras-metades. As sereias não nascem metade. As sereias são inteiras.Os fantasmas não se escondem. Enaltecem-se.O medo da dor não faz um artista. É preciso chegar ao íntimo lado negro de lua.Os suicídios não se evitam. Escrevem-se.O recato não faz um artista. É preciso dilacerar costelas, expor o peito, pregar os braços abertos. É preciso deixar que vejam o coração vivo bater ao relento.A fragilidade não se dissimula. Faz-se versos.As feridas não se tapam. Salgam-se.As lágrimas não se retêm.As lágrimas não se retêm.As lágrimas não se retêm.A perda não se receia. Abrem-se as mãos.A banalidade não faz um artista. É preciso procurar o intangível grão da verdade, por todos os dias da vida.O não é para se dizer.O não é para se dizer.O não é para se dizer.A morte não é liberdade. É ausência.As sereias não são feitas do passado. São mutáveis. As sereias renascem quantas vezes lhes apetecer.Recear a exposição é veneno. As sereias dão a cara.Segurança não faz um artista. É preciso abrir janelas. Dar o corpo às facas alheias. Um artista deixa-se invadir. Um artista flui.É preciso transcender.É preciso transcender.É preciso transcender.Os traumas não se atenuam. Revisitam-se. Avivam-se. Impelem.O medo não mata. Estimula.A tranquilidade estagna. O conforto estagna. O facilitismo estagna. O precipício renova.A ansiedade é um gira-discos estragado.A depressão não se erradica. Fazem-se dos cantos escuros antros de poesia.O tempo serve para crescer. A perspectiva é uma bênção.Os rancores devem libertar-se. A paz de espírito começa pela auto leveza.A energia deve dar-se a quem merece.As sereias sonham alto. As sereias perdoam-se. As sereias não se destroem.A sensibilidade deve explorar-se infinitamente. O humanismo cultiva-se.Um artista persegue a sua própria felicidade ciente de que a vida depende disso.Ser feliz existe.A vida vale a pena.A vida vale a pena.A vida vale a pena.  
[Texto produzido para a unidade curricular de Estudos de Performance, da Licenciatura em Estudos Artísticos, Artes do Espectáculo, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa]

Poema sem título

Dentro em mim a prisãoDos sete níveis de sono inferno onde nasciDensas neblinas de atravessar solidãoPassos de vidro sobre a areiaPétalas de sonho à lua cheia
E dos rochedos vi aflorar fantasmasUivos de nudez apocalípticaE finda a minha cruz tornei-me águaOu sombra livre, canto-terraDos medos meus teci lençóis onde dormirPerdida em mim sem ter mais por norte o meu peitoAmei sem ontem a pintura que eras, minhaE por te amar desenlacei meu mar desfeitoQuebrei as flores na espuma frágil do agoraParti em busca da minha negrura lunarE descobri-me feiticeira nos meus versosCom luz e sombra no meu espelho por beijar
 
[Poema sem título, decorrente de um exercício realizado para a unidade curricular de Estudos de Performance, a 27/09/17, onde me obriguei à espontaneidade e à não revisão, enquanto simultaneamente me forcei a manter-me na minha pele e no presente (contrastando com a divergência de escrever), obrigando-me ao contacto visual permanente com quem passava na rua, e sorrindo-lhe, ao mesmo tempo que lia diferentes poemas de Natália Correia - que serviram de incubação anterior à escrita.]

Contra-capa das entranhas

Borboletas de asas escuras sobrevoam o palato em rastos de electricidade.Procuras na intangibilidade do reflexo baço um auto-reconhecimento que não vem.Deambulas corredores inteiros sem sair do lugar. De vidros sujos, chão verde-água gasto pelo arrastar de chinelos genéricos e o conta-gotas de um soro que subsiste na sinfonia agreste das rodas calcinadas.O mapa mental dilui-se e condensa-se como um ciclo incerto. Contracções de um útero existencial. Visitas mandalas roxos, laranja, e a continuidade subconsciente de padrões e texturas ligadas pelo fio dourado dos estímulos, no subsolo das pálpebras.Não sabes se é forma de te perder ou te encontrar, apenas que esse transe de escrever faz ultrapassar o nevoeiro das horas.Expões o pescoço ao vento de olhos fechados como quem pede liberdade.Do copo de licor pueril florescem suspiros, esses escapes por onde decantas amarguras boca fora.Desfazes os lábios em fumo.Observas os luminosos negativos de dentro dos olhos dissiparem-se, esculpidos nas veias como filme de essência dissolúvel.Da sonoridade dos astros alimentas o crescente desenho de movimento, implantas uma faísca de dança para além do precipício do corpo onde sonhas crescentes fouettes de cisne negro.Pintas estátuas submersas de ansiedade, até que o mar redentor te alcance as janelas e te inunde os lençóis e a casa e o ser.Gritas ao abismo ancestral dilúvios de onde pousar os passos, ecoa-te de volta o silêncio.E de braços erguidos abertos aceitas os espinhos num acto último de nudez.E do seu afundar na pele virgem fazes versos e viagens e hipnoses de voo onde os dias não te podem levar a mera carne. És mais.Derradeiro truque ilusionista. Alquimia de prisão como porta transcendente.No flutuar vazio ouves o retorno do teu respirar.E no (des)fazer-te sopros gravas na contra-capa da das entranhas do que é feita a tua história.

Demasiado

Não, eles não sabem.
Viemos ao mundo para dar tudo. Para ser tudo. Para arder tudo. Ou nada.
Depois condenam o desprendimento que usamos como água. Estranham a leveza despudorada com que lavamos o medo que tiveram de se afogar na nossa fogueira, eles que não quiseram sair da bolha, meio termo, politicamente correcto, equilibrado.
Não, eles não sonham.
O desequilíbrio não é senão o ímpeto de metas mais fundas. Não nos assusta o rosto disforme do esforço último da corrida. E depois da meta o recomeço. E depois da cinza o renascer. E depois da dor a flor selvagem.
Não, eles não sabem.
Nascemos para amar a fundo. Para sonhar os contornos dos dedos sobre o âmago. Para nos fazermos casa. Não sabem que nos apaixonamos todos os dias pelo mundo e pela morte. Que não somos de ninguém, mas seremos sempre totalmente de todos os que o nosso fogo sem freios não afaste. Não.
Chamam-nos complicados, difíceis de lidar, complexos, demasiado.
Demasiado... Eles não sabem que se afogam porque somos o nosso próprio mar. E partidas as cordas da sombra da solidão, fascinam-nos os vértices dos limites. Não, eles não sabem que a dor não assusta, alimenta, quase dá prazer. Que a destruição é o mote para o erguer de novos castelos. Que o caos e a desordem criam os jardins mais belos.
Nós tacteamo-nos até à última instância. E quando achamos saber-nos voltamos a reinventar-nos. Eles não sabem que somos o nosso próprio tempo, giramos sem encontrar o ponto-centro, somos limítrofes. E sonhamos todos os dias acordar como quem respira pela primeira vez.
Não. A eles fascinamo-los feitos reis coroados depois de mortos, nos livros, nos filmes, no longe intangível. Antes disso... demasiado.
Queremos tudo. O ontem e amanhã não hão-de chegar. Borbulhamos infinitos. Somos uns inconformados na procura de espelhos onde possamos consumar-nos. Não, eles não sabem que no agarrar do horizonte o dia estagna. Eles não sabem que o cinzentismo do conta-gotas a que nos querem moldar deixa esvair a saturação que só se encontra nos cúmulos.
Nós pulsamos sangue espesso, temperado, cicatrizado. Os banquetes das suas taças têm plateia pouca. Não somos para a boca de muitos, antes de mortos está-nos na pele um travo a... demasiado. Causamos vertigens, asfixiamos.
Depois desprendemos. Depois lavamos as mãos e as taças e os laços. Depois abrimos as asas. Depois ficamos sós, já sem medo, sobreviventes de nós mesmos, alimentamos as futuras reinvenções do sopro de voo cortante que nos seca a boca. E no bater de asas um cume, uma falésia, uma folha em branco, um céu aberto, quantos horizontes quisermos. Quiçá um espelho-abrigo. Quiçá a morte, não precisamos de matar-nos para morrer - li algures - talvez baste batermos asas. Talvez seja esse bater de asas o espelho.
Eles dizem, enquanto isso, demasiado. Não, eles não sabem.

O vértice de um mundo

Em cada lágrima o vértice de um mundo.
A queda livre dos fantasmas no desprender do precipício dos olhos.
Em cada solidão um expoente máximo de garras.
O desprendimento crescente em acidez balsâmica trilha caminho.
Em cada abandono um sem-chão mais fundo.
A pedra-e-cal de nascer e morrer só fortalece o voo.
Em cada mais fundo a libertação.
O eco da própria voz é mantra para chegar mais longe.
Em cada fio da navalha a salvação de ser veículo da arte.
Arde o sal no sangue, repete-se em soviética afirmação o quanto ainda há que transbordar.
Em cada silêncio o cume da dor como indício de vida.
Viciantes agulhas de tinta esboçam alvoradas de outro renascer.
Em cada aspereza de cordas a contra-luz dos próprios passos livres.
Sobem à tona do corpo as marés do recomeço.
Em cada onda a permanência envidraçada de ser tela dos devires, se nada mais.
E em cada lágrima o vértice de um mundo.

Sala de nevoeiro

Sinto estranha a casa que sou.
O corpo um precipício entre a essência e o limite tangente à pele, sufocado de medusas saturadas em morfina.
A linha das mãos desenhos trémulos de cafeína a ondular à superfície dos estímulos. Abaixo dos olhos dois oceanos densos agrestes. O rosto sulcado entre incertezas de existir. Na ausência do espelho o corpo material desligado, o autómato, o alheio.
Sinto estranha a casa que sou.
As paredes de cal rasgado colapsam pedra-a-pedra, no oceano de dormências onde o tempo não passa nem termina.
No holograma psíquico despontam dos braços frágeis plumas negras.
Um cisne expõe o externo como quilha de uma caravela a cortar jogos de luz fria.
Renasce em solos de elegância e pés em sangue.
Faz-se da sonolência uma sala de nevoeiro.
Do desfocar das paredes roxas emergem rostos contornados a arame retorcido. Destacam-se do espaço entre a existência de textura física e a sombra suspensa que deixam na sua trajectória de voar.
Do chão quadrados de luz azul-verde acendem.
Do cetim escuro da noite desprendem-se negativos fluorescentes, decalques de relevo lábios perdidos.
No subsolo das unhas rastos da pele.
No subsolo da pele trilhos dos dentes.
No subsolo dos dentes nervuras de ânsia.
Sinto estranha a casa que sou.
As árvores inversas que trago no peito submersas em água salgada.
Do devir, uma faísca multicor toca o limbo das ausências, o oceano de poeira, a anestesia das medusas, o incessante zumbir da sonolência.
Alcança o quase-vivo. Do corpo petrificado despertam os insectos intravenosos no frémito calor da poesia.
Sinto estranha a casa que sou.
Escrevo.
Existo?

Sub-aquático medo

Etéreo verde escuro refractado invade-me a parte esquerda do corpo.
Sub-aquático medo.
Onda de frio rasteja no cimo da nuca.
Transpiram-me os dedos sem lugar. Desesperado esconderijo de desconfortos.
Parte-se-me da pele o vidro. Seca-se-me a boca. Prende-se-me a postura.
Rastejam medusas de fogo na ante-câmara dos lábios.
Vertigem imparável de pensamento.
Versões translúcidas de mim caem ao chão.
Sub-aquático medo.
Inunda-me a transparência. Luta de fantasmas flutuantes.
Quero fazer dos pulmões copo do rio que desmascara.
Uma existência em ruínas trespassa a quântica do agora.
Sub-aquático medo.
Sublima-se do escudo dos meus ossos o muro de defesas.
Sobem lágrimas ao limiar da superfície.
Sub-aquático medo.
Geometrias glaciares falam mais alto.
O horizonte de mim sobrevive ao sucumbir.
Olhos perdidos no lótus da realidade.
Desflorar de traumas. Defesa na ponta do corpo fechado.
Afundo. Sub-aquático medo.
Árvore de mil rumos e a escolha incessante das palavras no fio da navalha.
Avanço. Sub-aquático medo. Desprendo.
Respiração primordial. Lâmina do vértice.
Dentro da pele a luminosa tentativa de abrir os braços.
Sub-aquático medo. Precipício de cimento. Salto.

Restaremos

Todo o mundo adormeceu. Resto eu. Restamos nós. Eu e a pintura mental que faço de ti por companhia. Assim, como te vejo: com filtro de polaroid contra a luz do sol tardio, silhueta de celofane algures onde há maresia. De cigarrilha e corpete sob o casaco dos dias. Tu. Dietrich-Amy-Joplin e não sei mais quantos signos de santuário-mulher.

Todo o mundo adormeceu mas tu ficaste. Tu. A que estala depois o verniz, a que dispensa depois o batom, a que é pele-com-pele e toque-com-alma. Tu. Carmen-Judy-Frida e não sei mais quantos pináculos de força-gente-resiliência e extra-corpo.

Todo o mundo fechou as luzes. Mas tu acendeste. Todo o mundo se tapou. Mas tu despiste. Todo o mundo se apressou. Mas abrandaste. E todo o mundo se esvaiu. Mas coloriste. E logo tu. Bom-demais-para-ser-verdade múltiplo e perpétuo mutável criptex de ser gente. E logo tu. Pleonasmo do próprio contraste. E logo tu. Jogo de sombras.

Todo o mundo foi relance, mas tu olhaste fundo. Todo o mundo foi da pele, tu das veias. Todo o mundo foi aparência, tu silêncios. Todo o mundo olhou para os próprios passos. Abriste a mão. Deixaste que subisse para o teu cavalo de mármore de onde se vê mais além.

Todo o mundo permaneceu. Tu foste mais. E logo tu. Prisma do âmago da minha verdade, que acendes horizontes no existir. Tão inexplicável quanto urgente agradecer dias sem fim. Todo o mundo adormeceu. Restaremos nós.

Acender-te(me)

Amanheço. Sonho-te(me) como memória translúcida no reflexo da janela embaciada de algum comboio que me leva para não sei onde. Ouço-te(me).
Em cada esvoaçar dos dedos desenhas referenciais dos momentos que se desprendem de ti, que se fazem efémeros, fátuos.
Chamas a ti o perpétuo e fugidio presente, prendes a ti os meus olhos, atados com um fio de cetim. Na silhueta desenhas cinema que refuta as teorias.
Prendes a ti o meu charriot infinito de capas, todas feitas superfície de absorção. Por uma vez, quero que alguém lhes toque e as segure. Por uma vez, quero que alguém agarre nas minhas mãos. E me ponha os dedos sobre a(s) minha(s) próprias pele(s). E me ponha os dentes sobre os meus próprios limites, no silêncio aterrador onde ecoa o ruído branco mental que trago.
E que depois se sente ao meu lado. E que depois me olhe, com os olhos nesse agora que me ensinou a construir a ferro e fogo. E que depois não precise de dizer nada, porque eu saberei morder, rasgar, queimar aos céus o que me prende.
És um gato fugidio a quem não se percebe a cor, porque é sempre da cor que lhe apeteça nessa hora. Mas as tuas mãos são pássaros. São gaivotas transparentes. Cisnes de cristal. Projectam à tua volta no seu voo um palácio com um salão forrado a espelhos.
És um oceano. Convidas à ante-câmara do teu baile os poucos privilegiados à nudez.
E és um par de fitas aéreas penduradas no alto da tua transcendência em sequência crescente. Despes espartilhos, na roda espelhada onde se dança de pés assentes no tecto das fragilidades de quem se queira sujeitar a ti.
E és uma miragem. Um poema. Um devir. Quantos, e todos, da cor que te apeteça naquela hora. Rodopiar contigo é um jogo de equilibrismos no fio da navalha. Porque é no fôlego da vertigem que transbordas o tamanho das tuas asas.
E então desejo ser chão. Sombra. Silêncio. Isso. Desejo ser silêncio e ficar. Ínfima. Quieta. Presente na minha pele então amorfa. Ouvir-te(me). Olhar-te(me). Escrever nos espelhos os meus medos com batom. Depois desfazer as letras com a minha própria existência. Depois dançar contra elas. Primeiro sobre os teus pés. Depois no meu solo derradeiro de Nijinsky em chamas, até que se abata em mim a minha própria ilusão de limites.
E então desejo - acender-te(me) - que o nosso incêndio queime a solo mútuo: de quantos os que chegarem ao fim do baile, círculo do seu próprio recomeço. E que seja de quantas cores nos apetecer naquela hora.

Hoje sou

Hoje não. Hoje não sei o que é a vida.
Olho os dedos nus e não lhes sei o caminho. Hoje procuro no fundo dos olhos um porto de cansaços e não há resposta do outro lado de mim.
Hoje não. Hoje não sei o que é a vida, hoje quis cingir-me à minha própria pequenez. Aperto-me a própria pele como que a procurar argumentos para a hipótese de ainda não me ter abandonado.
Talvez nunca venha a sabê-lo. Talvez resida nesse não saber a corda-bamba que me impele à vertigem. Sem a vertigem o rosto não me devolveria a mim. E mesmo assim às vezes não sei.
Hoje não. Hoje não sei o que é a vida. E afinal nunca soube. Hoje pouco me incomoda se me torna menos gente, talvez tenha vindo ao mundo para ser ondas em vez de pessoa. Hoje não sei e não quero saber. Porque é assim que me afloro. Porque é assim que me desconstruo. Porque é assim que me reinvento. Nunca soube o que é a vida porque nunca me bastaram convicções.
Nunca soube o que é a vida porque é no agarrar do nada que incorro no precipício de ser maior. E hoje não sei o que é a vida. Porque é na golfada dessa ausência difusa de referenciais, é nesse desencontro, que reside a procura. Porque é na procura que se acende a pele. Porque é no acender que se transforma a arte.
Hoje não sei... porque apenas injecto em mim tentativas e falhanços do que quer que seja - ser. Hoje sou. Hoje não quero saber.