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INÊS MARTO

INÊS MARTO

"É o tornar-me mais mundo que acaba por me manter." | Inês Marto

Sexta à noite. Vim a casa da minha mãe. Estou numa altura com pouca coisa obrigatória que fazer (ainda bem), o que me deixa - ainda mais - com demasiado que pensar (se calhar não tão ainda bem... ou se calhar sim, a linha é ténue entre o desenvolvimento de novos caminhos ou o vertiginoso descarrilanço existencial, nestas alturas, o que pode ou não levar ao primeiro outra vez, também, mas isso é outra história).
Dou comigo no habitual eco de pensar em metas (a meio caminho entre o primeiro e o segundo, portanto, vamos lá ver)... Às vezes não sei se seria mais feliz se fosse menos inconformada, ou se é por ser inconformada que vou provando um bocadinho do que é ser feliz. Mas a verdade é que é consistente em mim a necessidade de mais. Algo mais. Nem sempre sei exactamente o quê, mas mais. Se por um lado gostava dessa coisa da tranquilidade dos anos - se é que seja verdade - por outro, acho que isso era bem capaz de ser a minha morte.
Estava a ver o podcast do Rui Unas, Maluco Beleza, com Herman José:
 
 
(De nada.) Quando, no contexto da conversa, Herman diz que, quando se tem absolutamente tudo acaba-se o desafio. E de repente fez um pouco mais de sentido, esta minha dicotomia entre a ânsia por alguma paz de espírito - passo a absoluta estupidez deste antagonismo - como dizia na entrevista, e a comichão desalvorada que me provoca a estagnação decorrente das zonas de conforto.
O podcast toca também na questão da reinvenção constante, que acaba por ser uma primeira necessidade sobretudo no campo artístico. E de facto, do alto dos meus 22 anos pequeninos, não posso deixar de o sentir.
Bem sei que tenho o terrível defeito de querer que tudo aconteça e depressa, que se desenrole e que venha mais. Bem sei que me falta a paciência para ver o que é que o tempo me reserva, de tal forma que muitas vezes quase me afogo.
Mas a verdade é que me encontro àquilo que a mim me parece muito tempo (a nós parece-nos sempre mais, pronto) à procura de um lugar válido, subsistente. Nunca quis tronos, mas gostava de sentir um bocadinho de chão. Um bocadinho de vida, boa ou má, mas conseguida à custa daquilo que desde que me lembro é o que quero da vida: a minha escrita.
E então dei de caras com a minha flagrante pequenez (como felizmente dou muitas vezes, não gosto disso de não pisar o chão) e indaguei até que ponto sou alguém, para alguma coisa. Até que ponto é que o mundo me deverá efectivamente um lugar, ou serei eu que tenho que infinitamente mais me tornar lugar a bem de vir a conquistar o meu bocadinho de mundo.





Estamos na era do imediatismo.  Talvez venha daí também alguma da minha dificuldade em dar tempo ao tempo. E sempre que assento os pés no chão, contrasta-se a minha avidez por um lugar com esta tal noção de ser mera gota.É daqui que nasce a minha sede de desafios, é sempre deste contraste. Pauto-me por crescer. Sempre que me debato sobre ficar, é o tornar-me mais mundo que acaba por me manter.
No caminho para cá falava sobre possibilidades de futuro. Cheguei depressa à óbvia falta de desafios que sinto. E não é que tenha nada na mão, propriamente, até se torna num quadro ridículo de estagnação a pairar, sem a zona de conforto sequer.
A única coisa que sinto conquistada aos poucos, a pulso, é um punhado de gente, não muito grande, mas muito sólido, que começa a querer ouvir os meus gritos. E nisso não nego o privilégio.
Pensava, nesse entretanto, talvez voltar a Psicologia. Talvez mestrado em Filosofia. E a seguir o previsível "Mas que saídas é que isso me dá?". A questão é que não quero "seguir" nada disso, mesmo. O que quero (tentar, na medida em que mereça) poder fazer da vida é realmente arte, seja lá em que valência melhor a transmita, ainda acho que é escrever. Mas talvez me desse mais credibilidade. Mais "direito" a uma plataforma, a um lugar, a esse bocadinho de mundo que me deixasse ter a minha vida.
E, ironicamente, depois de tanta pressa em agarrar tudo, penso "Mas gostava de fazer isso no meu tempo, enquanto vivo." (não sei que parte da frase me deu mais vontade de rir)... por auto-expansão, se me pudesse dar a esse luxo, como quem se cultiva enquanto tem a sua vida, só que na esperança de poder ter legitimamente a sua vida... podia ser um caminho...
Será isso? Será que é aí que me encontro nesta contradição? Entre o querer que a vida inteira me aconteça para ontem, tanta é a ansiedade; e o dar-me tempo para viver no meu compasso e me expandir, até que aconteça por mérito, que seja quando for é no tempo certo? Há mediatriz, sequer?
Se tivesse respostas, não era eu.
 
 

"Vai atrás do que queres" | um desabafo

Dom. - 17 Set. - 17:38 -  Lisboa

"[...] Os meus dias estão cada vez mais sós. Acho que faz parte.
Tenho lutado por me manter. Tenho tentado sonhar.
Mas se calhar não passam de tentativas, não sei, porque ao que diz toda a gente o que faço é ver a vida passar. Eu penso que luto.
Embora fique em pijama à frente de um computador, eu acho que luto. Não sei.
Talvez isto não seja lutar e eu seja covarde porque não sinto que o pouco onde posso ir sozinha e a fragilidade disso me valha o esforço imenso de me vestir e sair pela minha mão, para ver os outros "viver".
Todos os dias me destilo no que escrevo.
Todos os dias desenvolvo ideias para ganhar a vida.
Todos os dias acho que vivo mais em quatro paredes que tanta gente que é capaz de correr o mundo.Mas condenam-me. Dizem que não tento. Que não vou atrás de nada.
Todos os dias saio da cama sozinha. Comecei a limpar, pequenas coisas. Já não morro de fome por minha conta.
Estive cinco minutos a apanhar esta caneta do chão para escrever. Mas consegui.
Estas batalhas que ninguém conhece, devia gritá-las ao mundo.
Subestimam a garantia do básico. Por isso é que dizem que não luto.
Não sabem que estive 21 dos 22 anos que tenho sem poder tomar um banho 100% por minha conta. E mesmo agora basta não estar tudo a jeito que já se complica.
Ainda assim dizem "Vai atrás do que queres" como se fizesse eu outra coisa ao ainda sair da cama dia após dia.
Lutar, luto assim que abro os olhos e a realidade cai.
Sonhar, sonharei enquanto não parar de escrever.
Lamento que não se entenda que o tamanho das minhas asas se justifica pelo das minhas grades."

André Mendonça | Entrevista a Inês Marto

 

1. Inês, em primeirolugar foi uma surpresa imensa ver um artigo de alguém com deficiência num sitede notícias LGBT português e com tanto em comum comigo.  De que forma encaras o mundo lá fora? Como teencaras pertencendo a três minorias: ter deficiência, ser LGBT+, e serpoliamorosa?
 
O mundo “lá fora” é… uma dicotomia muito grande. Por um ladohá imensos esforços para a mudança de mentalidades a acontecer, o activismo écada vez mais. Por outro lado, a emergência de novos grupos “anti” também meassusta. Têm crescido grupos com um ódio desmesurado a pessoas, por estaremsimplesmente a ser pessoas, de forma completamente absurda e isso épreocupante. Precisamos de mais união e menos mesquinhice urgentemente, paracombater isso.Quanto à forma como me encaro a mim mesma, acho que énatural. Nunca fui outra pessoa, não saberia o que é não ser eu, tentei lidarcom as minhas realidades à medida que elas se revelaram, como tentamos todos, epenso que não me tenho saído mal… (risos)
 
 
2. Depois do teuartigo publicado em Julho no Dezenove.pt, qual o feedback que recebeste? O teuartigo é o único publicado até hoje no dezanove acerca de LGBT+ comdeficiência, como encaras esse facto? Há ou não muito ainda por fazer?
 
Há muito ainda por fazer, sim, claro que sim. Começando pelodespudoramento sobre os nossos corpos, sobre os nossos padrões físicos, sobre anossa condição humana. E digo isto muitas vezes também em relação a nós mesmos.Há ainda muito por fazer em termos de auto-exploração, de nos descobrirmos paranos sabermos também retratar, para conseguirmos depois mudar os paradigmas queinfelizmente existem. Acho que trazemos, além das batalhas físicas, um trabalholatente de auto-melhoramento connosco, para nos conseguirmos expandir a pontode nos podermos expor, para tentar estas mudanças. É preciso coragem, mas podeser que consigamos abrir caminhos.
 
 
3.  Quais foram as situações mais complicadas quetiveste durante a tua infância e adolescência tendo deficiência? Tiveste deamadurecer e encarar a vida de outro modo, comparativamente a alguém semdeficiência na tua faixa etária?
 
Essencialmente o bullying e as repercussões que teve em mim,em termos de autoestima e confiança. Isso foi a parte mais complicada. Além dasdores físicas e das frustrações, claro. E o facto de ter que encarar que secalhar a minha realidade não ia ser das mais genéricas. Mas depois aprendi a irvendo essa parte como uma vantagem, às vezes até uma arma, levei o meu tempo.Tem a ver precisamente com isso, com esse amadurecimento. Mas não tenho acerteza se amadureci por causa das condições físicas, na realidade. Promovemoutra forma de olhar a vida, claro. Mas sempre me senti uma alma velha, até emquestões que não tinham nada a ver com isso. Já era naturalmente desadequada àminha faixa etária. Isso talvez tenha impulsionado mais, mas penso que fazparte da minha essência. E acho que ainda bem.
 
 
 
4. Qual são os  teus maiores desafios na vida diária?
 
Sem querer ser demasiado lírica, acho que o meu maiordesafio diário sou mesmo eu, enquanto pessoa, e a minha necessidade de reinvençãoconstante, muitas vezes pode ser desgastante, isto de “brincar” com as minhaspróprias linhas como (esperamos) meio de vida, mas, além de ser compensador, émesmo uma necessidade. E depois, tirando isso, são as minhas ansiedades, osmeus pânicos, o não saber se o meu corpo hoje vai resultar, se ficar sozinha sevou conseguir desenrascar-me… apetecer-me apanhar um avião para o Tibete e nãopoder… (risos) é… não poder viver às três pancadas, despreocupadamente…gostava, pelo menos de experimentar um dia, sair do survival mode um bocadinho e respirar.
 
 
5. Achas que existeuma total falta de visibilidade das pessoas com deficiência em Portugal? Epessoas com deficiência LGBT+?
 
Das pessoas com deficiência não diria, já existe gente adesbastar caminhos, felizmente. A Mafalda Ribeiro, por exemplo, o SalvadorMendes, o Paulo Azevedo, a Diana Bastos e o trabalho que se tem feito nacompanhia Vo’arte, acho que pode mudar muita coisa. Agora em relação a pessoascom deficiência LGBT+, a história é outra… e infelizmente mais funda do queisso, começa logo no reconhecimento de pessoas com deficiência enquantoindivíduos com dimensão sexual existente. Felizmente há páginas como o Sim, nósfodemos que têm feito esforços para mudar isso. Mas, nesse contexto (aindamuito pequeno para o que devia) ainda é tudo muito heteronormativo. Esperoconseguir mudar alguma coisa nisso.
 
 
6. O que achas quepoderíamos fazer em conjunto para mudar esse paradigma da visibilidade ?
 
Unirmo-nos. Eu sei que regra geral não é bom sermosestereotipados todos como estando no mesmo saco, mas neste caso particulardesta minoria dentro da minoria, acho que é urgente unirmo-nos, paraconseguirmos alguma evolução da sociedade. Deixarmos de ser exemplos tãopontuais. Termos uma “pegada” concreta. Acho que a nossa surpresa em nos termosencontrado um ao outro fala por si sobre o quanto isto é necessário.
 
 
 
7. Na tua opinião,como lida a sociedade com uma pessoa com deficiência?  Tendo fluidez de género, e ainda sendoLGBT+,  isso traz mais pressões para aforma como os outros nos vêem?
 
Não sei bem se lida com medo, se com desconhecimento. Queroacreditar que grande parte das vezes o desconforto das pessoas é genuinamentepor não saberem como reagir. E isso só se combate com a visibilidade de queestávamos a falar, até que caiamos em lugar-comum. Sendo gender-fluid e tendo asexualidade que tenho… talvez provoque estranheza, sim. Nunca senti que se “acumulassem”,digamos assim, uma à outra, essas pressões. Mas talvez provoque estranheza porse calhar nem passar pela cabeça das pessoas a hipótese, lá está, por falta derepresentação.
 
 
8.  Qual é o teu maior sonho?
 
Paz de espírito! (risos)… não sei, podia dizer felicidade,mas não vejo isso enquanto meta. Gostava muito de sentir sempre que tenho umpropósito na vida. De poder sempre dar de mim à arte, de ser uma pessoa maisdestemida, um bocadinho mais leve (não totalmente, não gosto muito de medescomplicar a 100%, perco a “veia”), gostava de me sentir livre, em todos osaspectos. E de um dia olhar para trás e ver que consegui tornar-me na pessoaque vim ao mundo para ser.
 
 
9. Se pudesses mudaralguma coisa em relação à forma como o mundo olha para as pessoas comdeficiência, o que seria e porquê?
 
Mudava a forma como as pessoas se olham umas às outras, noseu todo. Ou melhor, tentava que se passassem a olhar, mais, acho que é issoque falta. Não está na forma de olhar, o problema, está é no acto sequer de nosolharmos, que existe tão pouco, se isso passar a acontecer, com verdade, oresto virá por acréscimo.
 
 
10. Na tua opinião oque é que poderia tornar a vida de uma pessoa com deficiência, melhor?
 
Dependerá muito, caso a caso. Mas muito disto que dissedaria para esta resposta, de alguma forma. Termos um mundo que nos considereexistentes e se adeqúe. Olharmo-nos, e olharem-nos, com verdade.Auto-aprofundarmo-nos, acreditarmos em nós, nunca perdermos a capacidade desonhar… Aceitarmo-nos da melhor forma que formos sendo capazes. Encontrarmos onosso propósito e lutarmos por ele como se a nossa vida dependesse disso, quemuitas vezes depende mesmo. Unirmo-nos. Unirmo-nos. Unirmo-nos.

 

Opinião: Speechless (Temporada 1)


Acabei ontem de ver a primeira temporada do Speechless. E para ser sincera já sinto falta. Descobri a série por causa da Robyn Lambird, de quem falei num post anterior, e também do Zach Anner, de quem obviamente precisamos de falar aqui também.

O Zach é um dos youtubers mais engraçados que descobri, que por acaso também tem paralisia cerebral e mostra-a de formas genialmente cómicas. Não vou dar spoilers, vejam por vocês mesmos, no canal dele, de nada.

Curiosidade: O Zach acabou por entrar num episódio, no papel de, usando as palavras da Maya DiMeo, JJ do futuro. Aqui está o vídeo dele sobre a série:
Falando de um ponto de vista pessoal, tenho que referir que nunca vi nenhuma série com uma personagem de cadeira-de-rodas antes, tirando o Glee, lembrei-me agora.  E quanto ao Glee, tenho que dizer que pessoalmente penso que o Artie ficou muito pela rama e foi mal aproveitado no enredo.
A diferença aqui é principalmente a maneira como a série foi construída, eu acho. A forma como a paralisia do JJ está sempre lá, mas ao mesmo tempo é uma coisa tão habitual que quase se torna parte do pano de fundo, a não ser que algum (frequente) desafio apareça.
E, sejamos realistas, isto é tão brilhante porque se liga a nós, por ser mesmo assim que as nossas vidas são, tendo paralisia. Para mim, está tudo muito realista. E é precisamente tão engraçado por ser tão verdade.
Resultado de imagem para JJ dimeo
Outra coisa que tenho que apontar é como comecei a notar que por ver frequentemente o JJ e os padrões típicos da paralisia nele, movimentos espásticos e expressões faciais, enquanto o achava tão engraçado e querido (ele até usa isso para sua vantagem), começou a crescer um indutor de auto-estima enraizado em mim.
Através de mais e mais observação por meio de outros, os traços típicos da paralisia estão lentamente a tornar-se coisas que eu considero que nos tornam únicos e nos dão uma individualidade do caraças... e também tenho que admitir que aprender a usar a fofura como estratégia me pode vir a ser muito útil, obrigada JJ DiMeo!
Obviamente o facto de que o Micah Fowler que interpreta o JJ tem mesmo paralisia cerebral torna isto ainda melhor, porque ele é "dos nossos", sabe realmente como são as coisas. E devo dizer que se lhe tira o chapéu como actor. Mesmo estando numa parte diferente do espectro, menos severa que a do JJ, alterou a fisicalidade por forma a encarnar o personagem, não se limitando a generalizar a paralisia pelo facilitismo daquilo que já tem como seu. É um papel muito bem desempenhado e nada fácil, ter resultados tão cómicos usando apenas expressões faciais.
Imagem relacionadaMaya, interpretada por  Minnie Driver, a mãe das "necessidades especiais", é completamente hilariante, e mesmo sendo um bocadinho extrema, no mínimo, há muitas situações verdadeiras que nos traz, que nos fazem identificar com a nossa própria situação familiar de certeza em algum ponto.Mas não é só sobre a parte da identificação inerente. As diferenças também tornam a série muito interessante, e bastante indutora de reflexão, pelo menos pessoalmente por me colocar num suponhamos de cenários opostos ao meu. Por exemplo o pai, Jimmy (John Ross Bowie), e a sua constante negação emocional juntamente com uma tendência para acumular (lixo alheio) compulsivamente, que contrastam flagrantemente com a maternalidade e protecção exacerbada da sua mulher. Mason Cook, que dá vida a Ray DiMeo, toca tópicos importantes como a partilha (ou falta) de atenção dos pais ou as preocupações com o futuro do irmão JJ, conjugados com a sua ansiedade constante e situação romântica desesperada, frequentemente gozado pela sua irmã Dylan (Kyla Kenedy), uma obcecada por vencer e uma jóia sarcástica. Kenneth (Cedric Yarbrough) é a cereja no topo do bolo. Se o facto dele da noite para o dia passar de jardineiro da escola para ajudante do JJ sem qualquer tipo de experiência prévia não promete só por si, deixem-me dizer-vos que ele é o compincha e alívio cómico de, bem, toda a gente na família mesmo.
Acima de tudo achei o Speechless uma série cómica muito boa, com ou sem o tema da paralisia a ser tido em conta. Mas tê-lo representado de uma forma tão natural, sem todo o ritual da vitimização e da pena, acho que nos vai ajudar a todos a destruir estereótipos. E inesperadamente, como disse, não só mudar a sociedade, como talvez também ajudar alguns de nós a nos aceitarmos melhor, como os raios os parta tão fofos e afinal não tão limitados assim que realmente somos, e isso é um dos melhores bónus que podíamos pedir!
 

Opinion: ABC's Speechless (season 1)

 
I've just yesterday finished watching ABC's Speechless. And to be honest, I already miss it. I discovered it because of Robyn Lambird, the youtuber girl I've mentioned in a previous post, and also Zach Anner, who we obviously need to talk about here as well.
So, Zach is one of the funniest youtubers I've come across, who also happens to have CP and features it in genious comedic ways. I won't give you spoilers. Check himself out, here's his channel, you're welcome.
Fun fact: Zach ended up making an appearence on the show as - putting it in Maya's words - future JJ.
Here's Zach's video on it:
 
Speaking from a personal point of view here, I must say I had never watched any series before where a charatcter on a wheelchair was portrayed, appart from Glee, I just remembered. And as for Glee, I must state here that I personally think Artie was really undevelopped and underrated.
What's different here though is mainly the way the series is constructed, I think. The way JJ's CP is always there, but at the same time it is such an usual situation, it almost becomes a background matter, unless some new (frequent) challenge comes up.
And, lets face it, the brilliant part of this, is how it actually ressonates with how our daily life goes, having CP. It's all very real to me. And so funny because it actually is so true.
Imagem relacionada

Another thing I must point out too, though, is how I came to notice that by frequently watching JJ and his cerebral palsy padrons, spastic movements and facial expressions while finding him so funny and cute (he even plays that to his advantage), there started to grow, let's call it a self esteem boost imprinted in me.
By more and more observation through others, CP's typical traits are slowly making its way into things I consider make us unique and give us a hell of a character... and I also must admit learning to play cute to my advantage may come in very handy, so thanks JJ DiMeo!
Obviously the fact that that Micah Fowler who plays JJ actually has CP makes it even better, because he is part of the crew, he actually knows what it's like. And I must say he is a hell of an actor, being on a different part of the spectrum, less severe than JJ, and having altered his physicality in order to create the character. It's a really well played role and not an easy one, being so funny by using only facial expressions.
Imagem relacionada

Maya, played by Minnie Driver, the "special needs" mom, is completely hilarious. And even though she is a bit extreme to say the least, there are a lot of truthful situations about her that make us identify with our own family life at some point, I suppose.
But it's not only about the inherent identification part. The differences about it also make it very interesting and quite reflecting inducive.
For example the dad, Jimmy (John Ross Bowie), and  his consistent emotional denial adding up to a hoarding tendency contrast with Maya's over the top momhood.
Mason Cook, who plays Ray DiMeo, brings up important topics on all of this as well: the share of parents' attention, the concerns with JJ's future, all this topped with his constant anxiety and desperate romantic situation, frequently mocked by his sister Dylan (Kyla Kenedy) who is a compulsive winner and sarcastic gem.
Kenneth (Cedric Yarbrough) is the cherry on top. If the fact that he's an unexperienced jannitor who from night to day just starts being JJ's aid with no experience whatsoever doesn't make for a cracking plot already, let me tell you he is the perfect funny sidekick to, well, everyone in the family really.
 
Above all, it is an awesome comedy show, with or without the cerebral palsy theme being taken into account. But having it represented in such a natural non pitty-party way, I think will help us all destroying stereotypes. And unexpectedly, like I mentioned, not only change society but also maybe help some of us accept ourselves as the cute little actually not so limited bastards we are, and that is one of the best bonuses we could ask for!

 

Sereia de coração

Quarta à noite. Outra como tantas. A passar por vídeos d' A Gaiola das Loucas enquanto tentava escrever alguns projectos planeados. Quando uma amiga me envia um vídeo de música. O que me leva a um vídeo da performance da Pink, "Try". A conversa desenrola-se e começamos a falar de dança e de expressão corporal.
Por estranho que pareça, corpos "funcionais" (à falta de melhor termo) fascinam-me completamente. Tendo eu paralisia cerebral desde, bem, sempre... Sempre me perguntei como é a sensação de simplesmente comandar o corpo e ele fazer aquilo que se quer sem imprevisibilidades. Talvez seja por isso que a dança me fascina tanto.
Nós, os que têm paralisia, somos ironicamente obcecados por controlo. Porque temos que ser. Temos que estudar os nossos passos, prever os nossos movimentos, desenvolver as nossas estratégias e chegar a um nível à prova de bala com uma mão cheia de planos alternativos no caso de tudo falhar, porque o nosso corpo de repente decide que o que já fizemos mais de 100 vezes desta vez não vai resultar.
Então sempre me questionei quão libertador deve ser não ter que fazer um rascunho detalhado de basicamente tudo para conseguir sobreviver. Sinto que nós estamos sempre em modo de sobrevivência.
Pessoalmente, mudava muita coisa se houvesse um simulador de paralisia cerebral para os amigos experimentarem, porque às vezes é impossível colocar por palavras a nossa forma de existência física.
Os corpos com paralisia cerebral, a diferentes graus claro já que tudo varia tanto individualmente, estão sempre sob algum tipo de tensão física, especialmente os espásticos como eu.
Recentemente descobri o Gregg Mozgala, um actor com paralisia cerebral que entrou num projecto (no mínimo) interessantíssimo chamado Enter the Faun, onde a coreógrafa Tamar Rogoff usou shaking e body scripting, duas técnicas que tinha desenvolvido para os seus bailarinos. A primeira para libertar tensão acumulada no corpo e a segunda para promover consciência física através da tradução do movimento num guião de palavras. E uma vez aplicadas a um corpo com paralisia, as técnicas obtiveram resultados absolutamente extraordinários. Gregg conseguiu movimentar-se como nunca antes tinha conseguido, e permitiram-lhe explorar-se a profundidades físicas como nunca tinha sido capaz. (Este vídeo ilustra bem as técnicas e os resultados).
Tudo isto levou a minha cabeça a começar a indagar sobre a consciência corporal. Parei de fazer fisioterapia quando tinha 15 anos, tinha começado antes de fazer um ano. Principalmente porque queria viver. Porque estava cansada da dor. Não havia muito mais a fazer. Talvez uma nova forma de alongar. Talvez agarrar um cubo em vez de uma bola enquanto andava... talvez mais duas ou três coisas que a longo prazo mudavam não virtualmente nada. Tinha percorrido um longo caminho e estava feliz com ele. O resto era manutenção. E mais que isso era uma questão de inventar as minhas formas de fazer o meu corpo colaborar para alcançar o que queria - e isso é algo que nenhuma terapia me ensinou: criatividade e desenrascanço. Que era o que eu sentia que precisava mais, bem mais do que rotinas dolorosas.
Ainda não sabia o que era capacitismo. E como discordava disso. Para mim, estava só a viver à minha maneira. Só recentemente, muito recentemente, é que desenvolvi a minha opinião sobre paralisia cerebral e como antes quero entendê-la e jogar com ela do que tentar apagá-la, como expliquei neste artigo.
Mas dito isto tudo, ainda sinto falta de exploração física. Exactamente por isso mesmo. Para conseguir aprender os padrões da paralisia e jogar com eles, tenho que me explorar mais a fundo e testar os limites desses padrões. E ainda está por encontrar um método de o fazer (o mais próximo até à data foi a aproximação de Tamar, que ainda não encontrei forma de fazer em Portugal)... Ou será que afinal tenho método?
Recentemente também descobri a  Leandrinha Du Art, um ser completamente fantástico, activista dos direitos trans, artista, youtuber e ícone, que também por acaso usa rodas. E descobri um texto maravilhoso no blogue dela onde se vê como uma sereia.
De repente juntei as peças todas e entendi. Se calhar não foi à toa que quando era bebé queria ser sereia. Que me sentava à beira mar à espera que crescessem as barbatanas que me haviam de libertar. Que descobri o meu porto seguro e o meu ex libris simultâneo no oceano. E que é quando nado sozinha que tenho as melhores ideias artísticas, também. Afinal tenho uma maneira de me auto-explorar e libertar. É tornar-me aquilo que sou no meu núcleo: uma sereia.
A minha primeira peça de escola até foi o Fora do Mar, pelo amor de Deus, estava destinado a acontecer.
Sinto uma liberdade e sensibilidade únicas quando estou na água. E é inegável que me permite explorar-me de maneiras que nunca era capaz de outra forma. Não só consigo andar sozinha como até descobri que sou capaz de saltar, vamos falar de fenómenos?
Talvez não tenha sido ao acaso sequer que os meus sonhos mais loucos em tempos eram dançar dentro de um aquário gigante em cima do palco...
Talvez eu seja uma sereia nascida no corpo errado, e tudo o que eu tenho que fazer é continuar a nadar à minha maneira e recusar-me a ir ao fundo! 
 


 

A mermaid at heart

Wednesday night. One like many others. Me going through some La Cage aux Folles videos while trying to write some due projects. When a dear friend sends me a music video. Which leads to a performance video of Pink's "Try". Chat rolls on and we get to talking about dance and body expression.
As weird as it may seem, able-bodies (for the lack of a better term) utterly fascinate me.
Having CP since, well, ever, I always wondered how does it feel to simply command your body and have it do what you intend to without any unpredictabilty. Maybe that's why dance fascinates me so much.
We, the ones with cerebral palsy, are ironically control freaks. Because we have to be. We have to study our steps, predict our movements, develop our strategies, and get to bullet proof level with a handfull of alternative plans in case it all fails, because our body suddenly decides what we have done 100 times won't work today.
So I always wondered how liberating it must feel not having to make a detailed draft of mostly everything in order to survive. I feel we are indeed always in survival mode.
Personally, it would be a major game change to have a cerebral palsy simulator for my friends to try, because it is sometimes impossible to put into words our physical way of existing. CP bodies, to different degrees of course since it varies so much individually, are always under some kind of tension. Specially spastics like me.
I've recently discovered Gregg Mozgala, an actor with CP, who was in a very interesting (to say the least) project called Enter the Faun, in which the coreographer Tamar Rogoff used shaking and body scripting, two techniques she developed for her dancers. The first one to release trapped body tension, and the second one to promote body awareness by having movement translated into a word script. And once applied to a CP body it had absolutely outstanding results. Allowing Gregg to move like never before, and allowing him to explore himself to physical dephts he had never previously been able to. (This video illustrates the techniques and results very well).
All this got my head spinning around the body awareness theme.
I stopped physical therapy by the age of 15. Having started it before I was 1 year old. Mainly because I wanted to live. Mainly because I was tired of pain. There was not much more to do. Maybe a new way of stretching, maybe holding a cube instead of a ball while taking steps... maybe two or three more things that in the long run changed virtually nothing. I had come a long way and was happy with it. The rest was about maintenance. And above all the rest was about inventing my own ways to have my body cope with me to achieve what I want - and this is something no therapy ever taught me: creativity and persistance. Which was what I felt I needed the most, way more than painful routines.
I hadn't yet learned what ableism was, though - the disability being viewed as something to be corrected, if possible through medical intervention -  And how I disagreed with it. To me, I was just trying to live my way. It wasn't untill recently, very recently indeed, that I developed my own opinion about CP and how I'd rather learn it and play through it instead of attempting to erase it (as stated in this article).
But, all this being said, I still feel a lack of self-exploration. Exactly for that matter, in order to be able to learn CP's padrons and play through them, I must explore it deeper, I must test its limits. And I have yet to find a method of doing so (the closest to date being Tamar's approach, which I didn't find a way to do in Portugal any time soon)... or have I?
I've also recently stumbled upon Leandrinha Du Art, a completely amazing being, a trans rights activist, artist, youtuber and icon who also happens to ride wheels. And I discovered a wonderful text on her blog, in which she views herself as a mermaid.
And all this came together to finally hit me. Maybe it wasn't random, me as a toddler wanting to be a mermaid. Maybe it wasn't random sitting there by the sea waiting for my fins to grow and set me free. Maybe it wasn't random that I discovered my safe haven and my ex libris both being the ocean, and the times when I am alone swimming being the ones when I get the best artistic ideas, either. I do have a way to explore myself and set me free, and it is by becoming what I am in my core: a mermaid. My first school performance was even Part of Your World, when I was 3, for Heaven's sake, this was meant to be.
I have a unique freedom and sensibility when in the water. And it is undeniable that it allows me to explore myself in ways that I could never otherwise. Not only can I walk independently, but I  have even discovered I am able to jump, how cool is that? Maybe it wasn't random either that my wildest dreams once were to dance in a giant aquarium on stage...
Maybe I am a mermaid born with the wrong body, and all I have to do is just keep swimming my way and refuse to sink!

O tabu cadeira-de-rodas

 
Hoje descobri a Robyn Lambird. Uma youtuber, actualmente com 20 anos, que também tem paralisia cerebral. Assim que vi este vídeo, percebi que isto era uma coisa de que eu tinha mesmo que falar. De facto, já há bastante tempo que queria discutir isto.
A verdade é que estamos no século XXI. E isto é um tabu tão socialmente enraizado que até foi preciso um vídeo para me trazer de volta à realidade, para voltar a aperceber-me que isto não devia mesmo estar a acontecer. Por isso é que não o fiz mais cedo. Fica-me debaixo da pele. É uma parte tal das nossas vidas que nos habituamos a isso, como se não houvesse nada de errado.
A Robyn foi um abre-olhos. Eu defendo muitas causas. Uma delas é o desmoronamento da ditadura da imagem corporal. E, por muito estranho que possa parecer, forçar-nos a que nos aproximemos fisicamente o mais possível daquilo que é convencionalmente tido como normal é tão corrosivo como toda a questão da invisibilidade e da pena.
Eu percebo. Supostamente o corpo humano foi feito para andar. Eu percebo, encaixava melhor no vosso conceito de ser saudável. Eu percebo, vocês pensam que estaria a viver a minha vida ao máximo. Se me permitem, contudo, um pequenino lembrete, é a MINHA vida, leram bem. E também é o meu corpo. Muito provavelmente, com quase 22 anos, conheço-o um bocadinho melhor eu. E mesmo que não conhecesse, continuava a ser o meu.
Parece que em tudo o resto, como ela diz, tudo se resume a qualidade de vida. Já neste caso, quase toda a gente tem que tentar com que façamos mais esforços, tentemos mais coisas. Não é que não aceitemos conselhos de quem quer que seja que saiba do que está a falar. Quer dizer, uma nova perspectiva sobre como tornar isto mais simples é sempre bem-vinda.
Mas é como se fôssemos máquinas a termos que ser arranjados. A termos que nos encaixar. A termos que corresponder a uma sociedade higienizada que ainda força aquilo a que chamam normalidade a toda a gente. De repente as pessoas acham-se no direito de chegar e dizer "não podes viver assim".
O que é que aconteceu ao "sê tu próprio"? O que é que aconteceu à liberdade individual de escolha? O que é que aconteceu ao deixar uma pessoa ser uma pessoa e não um conceito? Somos pessoas.
Todas as horas que passei a chorar, com dores, das cirurgias, dos alongamentos, das terapias... Há uma parte da minha infância que jamais terei de volta. E perdi-a a tentar tornar-me no que os outros entendiam como normal. Como melhor. Como sendo parte.
Não me arrependo de tudo. Algumas coisas deram-me capacidades que obviamente preciso, que de outra forma não teria alcançado, claro. Tê-lo-ia feito, na mesma, claro. Apenas o teria feito de forma diferente, se pudesse voltar atrás.
Não ia lutar por ideais de perfeição. Sobretudo ia lutar por uma vida. Que é o que faço agora.
E então, se for numa cadeira-de-rodas? Antes sobre rodas e com um sorriso, a aproveitar o caminho, do que andar durante 10 minutos e ter que voltar para casa. E se perdesse todos os progressos? Honestamente era um pesadelo. Mas ainda assim, eram na mesma o meu corpo e as minhas escolhas, desculpem a desilusão.
Conclusão: se calhar não precisamos de ser arranjados. Se calhar não temos que andar mais vezes. Se calhar não temos que tentar com mais força. Se calhar não temos que "mas ouve". Porque se calhar, a única coisa que temos mesmo é que viver da maneira que formos mais felizes.

 

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"Sou ambígua e não faz mal!" - as minhas maiores (verdadeiras) dificuldades

 

Estive a pensar durante uma semana sobre o que escrever a seguir. Acho que tudo isto já se tornou tão habitual para mim, que nem sempre acho que haja tópicos relevantes sobre os quais escrever, relacionados com as rodas. O que era, afinal de contas, o meu objectivo ao criar esta plataforma. Parece que já provei a minha própria tese - bem, foi rápido!

Ainda assim, continua a haver muita coisa debatível, suponho. De repente vi-me perdida a pensar em quais seriam as minhas maiores dificuldades actuais. E, do nada, vazio... Não me lembrava de nada. Por isso é que demorou tanto a escrever um post novo.
Mas finalmente percebi. As minhas maiores dificuldades, grande parte pelo menos, não está relacionada com a paralisia cerebral. Muitas são consequências indirectas de como ela me fez ver a vida, mas há bastante tempo que deixou de ser tanto sobre as questões físicas.
Mas vamos dividir isto por partes, por uma questão de tentar ser exacta (já estou a prever que me vou espraiar em alguns tópicos), mas vamos lá então.
- Fisicamente, as coisas que acho mais difíceis são: transferências de e para a cadeira-de-rodas em situações não planeadas, ir à rua sozinha com a cadeira manual (ainda não consigo subir e descer degraus e rampas íngremes, vamos ver se a cadeira nova ajuda nisso), chegar a sítios altos (tenho 1,40m, por isso levantar-me não adianta grande coisa também), obviamente andar sozinha (mais uma vez olá triângulo amoroso pânico-espasticidade-cair, obrigadinha), dobrar os joelhos e tudo o que possa depender necessariamente disso (isto é devido a uma cirurgia que fiz em 2007, que consiste na trocar dos tendões flexores e extensores dos joelhos, por forma a conseguir esticar as pernas, o que anteriormente não era possível). E assim de repente não me lembro de muito mais.
 
Ok, agora que essa parte está despachada, podemos passar aos assuntos mais sérios. As minhas maiores dificuldades não são físicas/fisicamente minhas. E, acreditem, é bem mais fácil lidar com as que são. Há aquelas que são relacionadas com essas:
- Foi o raio de um pesadelo encontrar um apartamento que não tivesse um único degrau, sim, em plena Lisboa no século XXI (mas finalmente tenho uma casa!). Usar transportes públicos por minha conta ainda é uma dor de cabeça (outra vez, assim que aprenda a usar a cadeira nova em todo o seu esplendor poder ser que isto mude) principalmente porque quando estou sozinha tenho que usar a scooter eléctrica ( a quem interessar, é uma Invacare Colibri) o que significa ter que esperar por um autocarro adaptado e também que ele esteja vazio o suficiente para conseguir que a scooter lá caiba. E quanto ao metro, "atenção ao intervalo entre o cais e o comboio" não podia ser mais verdade para uma scooter, dos elevadores das estações nem sequer falo, que davam para um post inteiro. Outra coisa tem a ver com a arquitectura pombalina. Adoro Lisboa e não trocava morar aqui por mais nenhuma cidade (não, nem Nova Iorque), mas estes malditos degraus em todas as portas... e já disse que tenho uma tendência para gostar dos cenários mais complicados de todos? Newsflash: sou apaixonada pelos bairros mais antigos... e sim, já tentei ir de scooter por Alfama acima... bem, há coisas piores...
 
Mas não era aqui que queria chegar. Vamos à nudez então. As dificuldades que mais me impactam numa base diária são:
- Depressão e ansiedade
- Ataques de pânico (às vezes provocados pelas questões físicas que correm mal) que me fazem petrificar e não conseguir mexer-me mais
- Aceitação. Ok, esta é grande, talvez a maior de todas. O meu problema com isto assume muitas formas. Auto-aceitação, para começar: a dificuldade de enfiar na cabeça que eu sou o suficiente, que tento o suficiente e que faço força suficiente. O desafio de acreditar nas minhas próprias crenças até quando o mundo parece colapsar.
- Imagem pública: esta relaciona-se com a anterior, mas não só. A cena do "olha, ela está numa cadeira" mata-me, não vou mentir. As expectativas relacionadas com isso, maioritariamente. As ideias enraizadas de que ou somos completamente inúteis ou atletas olímpicos em ascenção. A pressão social de nos mantermos a fazer terapias, activos, andar mais, tentar mais (sim, tenho noção que também o faço a mim mesma e é uma merda). E ser chamada de preguiçosa, mais do que tudo, como se o que eu faço ou deixo de fazer não fosse opção minha, como toda a gente (incluindo ser preguiçosa se me apetecer!).
- Relação corpo-mente: claro que isto também está ligado ao resto. Mas eu aceitar o meu próprio corpo como ele é (barriga incluída) não tem sido fácil de todo. Aceitar que as minhas pernas não se vão mexer da forma que eu quero é uma das partes mais difíceis de não me ofender a mim mesma e de não me culpar por tudo.
- Sexualidade: isto é um tópico difícil. Definitivamente um post muito em breve. Mas a ideia generalizada de que nós das rodas não a temos ultrapassa-me. E depois os meus próprios medos em ser sexualmente rejeitada por causa desta merda toda... pois.
- Expressão de género: chiça, se eu queria falar disto há séculos! Identifico-me como bigénero. Então claro que uma das maiores dificuldades é não ter medo de expressar o meu lado masculino. Aceitar o pêlo, por exemplo, sem ficar auto-consciente, eu mesma, por causa do que os outros vão pensar. (Brevemente também devia explorar mais isto).
- Estilo de vida: sou uma escritora. Sim, daqueles típicos solitários. Também sou uma coruja e geralmente afundo nas minhas próprias ideias e projectos até às 6h, todos os dias. Detesto completamente as manhãs e evito-as a todo o custo. Mas a questão é, porque raio é que isto não pode ser socialmente aceite? Porque é que soo louca e utópica por viver em prol da minha arte à luz da lua, se isso para mim resulta? Em que é que isso difere de um homem de negócios que acorda às horas que eu me deito para seguir o seu sonho? É que estamos a fazer o mesmo.
 
E acho que o busílis das minhas dificuldades reside mesmo aí. Em aceitar que estou apenas a lutar pelos meus sonhos e não faz mal. Estou cá para ser feliz e não faz mal, e mais ainda que isso basta. E que as pessoas também entendam isso. Mas se nem eu mesma sou consistente, como é que os outros podem entender, certo? Errado! Completamente errado. Independentemente do quão estilhaçada ou ambígua eu possa ser, eu sei que partes de mim são realmente eu, e quais são apenas reflexos das coisas que disse acima.
E afinal de coisas, era só isso que eu queria. Que as pessoas entendessem que não sou toda feita de pinturas direitinhas e de flores, mas também não quero ser. Ainda que me ofenda a mim mesma demasiadas vezes. Estou a aprender a amar a minha própria escuridão. Estou a a aprender a libertar as minhas cicatrizes (literais e não só). Um passo de cada vez (trocadilho intencional) mas estou a chegar lá.
É isso que quero dizer: sou ambígua e não faz mal. Sou inconsistente e não faz mal. Tenho barriga e não faz mal. Sou bigénero e não faz mal. Sou ginessexual (pessoa sexualmente atraída pela expressão de características tipicamente tidas como femininas, não necessariamente apenas em mulheres - outro artigo a escrever brevemente!) e não faz mal. Sou uma sonhadora e não faz mal. Sou poliamorosa e não faz mal. Ainda estou a aprender e não faz mal. Sou eternamente mutável e não faz mal. Ainda tenho dificuldades e não faz mal. Ainda por cima sou contraditória também e, adivinhem, não faz mal! Principalmente: sou real. E qualquer dia neste mundo isso não vai fazer mal.
 

 

 
 
 
 

Bullying e suicídio: realidade crua

Este sempre foi um dos tópicos que nunca tive muitas certezas sobre como abordar. Mas como disse, quero manter as coisas cruas e naturais por aqui. Sim, houve bullying, principalmente na escola. Antes de usar a cadeira, já que sempre fui minúscula, passava bem a usar um carrinho de bebé, para caminhadas longas. De resto costumavam andar comigo ao colo, ou se fosse coisa pouca dava uns passinhos agarrada.
Tive a primeira cadeira-de-rodas no quarto ano, creio que uma Invacare Action Junior, em 2004. Antes disso nunca me tinha sentido realmente "a miúda da cadeira". Não é que estivesse propriamente integrada com os outros miúdos, mas também não me sentia um alien ainda. Na altura tinha uma personalidade forte e extrovertida. A minha inclinação para as artes performativas já tinha arranjado maneira de se manifestar na minha vida, gostava de organizar peças e espectáculos com os outros miúdos. Mas a verdade é que, assim que começaram com o saltar à corda e jogar à bola, lembro-me de passar mais tempo a olhar para eles e a desejar ser capaz de fazer o mesmo do que a tentar efectivamente encontrar maneiras possíveis de fazer parte.
Não demorou muito até começar a ser a última a ser escolhida para todas as actividades de grupo que não incluíssem artes ou escrever (era vista como uma vantagem nessas). Mas ainda éramos nós simplesmente a ser crianças sem sabermos bem como me integrar. A minha (há muito tempo desaparecida) personalidade forte também não ajudava grande coisa.
Por essa altura já tinha começado a interessar-me mais por ler, ver filmes, ouvir música e principalmente ter conversas mentalmente expansivas que duravam eternidades depois do jantar (e que eram um tédio completo para a maioria das crianças) incluindo tópicos como "para que é que estamos vivos?".
Como era de prever, isso aumentou o meu já crescente isolamento, e gradualmente deixei de fazer um esforço para ser uma miúda a fazer coisas de miúdos. Então, no fim da escola primária, já era a esquisita. Ainda assim, sendo uma menina bastante imaginativa, alguns gostavam de brincar comigo ao faz-de-conta, o que me agradava bastante.
Tinha uma tendência também para o futebol. Nunca gostei de ver jogos, mas gostava da sensação de correr atrás da bola. Lembro-me de tentar jogar de andarilho, ou no chão, de gatas (destruí montes de pares de sapatos por os arrastar por todo o lado assim, era o meu meio principal de locomoção autónoma). Resultava, embora obviamente nunca fosse uma vantagem para a minha equipa. Mas desde que me deixassem jogar, para mim estava tudo bem. Não fazia intenções de ser boa, de qualquer forma, e pelo menos assim tinha alguma coisa a ver com eles.
Mas claro que o pior ainda estava para vir. Os pré-adolescentes têm uma forma natural de se tornar cruéis, ao que parece. E assim que ser guarda-redes de joelhos deixou de dar resultado para os cativar (sabe Deus porquê), começou tudo a acontecer.
Ainda não era do tipo de ficar calada, e maioria das vezes calava aquilo que me diziam com uma resposta bem mandada. Mas era inútil, sendo que era eu a querer conquistar a companhia deles, e não o contrário. Eventualmente chegou ao ponto dos professores repreenderem o meu comportamento, já que eu também me tinha tornado amarga para os colegas. Diziam "não devias ser assim, afinal és tu que precisas deles.". E eu acreditei nisso, durante demasiado tempo.
 
Com o passar dos anos eles começaram a ser mais subtis. Não era tanto já sobre o que diziam propriamente, e não havia respostas com que me defender. Por essa altura era tudo à volta de olhares de nojo, bilhetinhos passivo-agressivos, não abrir as portas para me deixar entrar (não conseguia abri-las sozinha), e repugnar qualquer tipo de proximidade comigo.
Então comecei a ficar mais calada. A minha forma de pensar não era para eles, de qualquer forma, e pelo menos assim não tinha que me desvanecer só para conseguir integrar-me. E depois a adolescência disparou. E foi um pesadelo. Se ninguém gostava de mim antes, e tinha mais amigos professores do que colegas (ainda que eles me continuassem a condenar por "não fazeres um esforço por me dar com os outros, embora continues a precisar fisicamente de ajuda constante deles"), depois tornou-se uma selva de "vamos ver quem é que consegue fazer isto pior". O que ia desde destruírem as minhas coisas a chamarem-me puta só por usar calções, ou deixarem-me sozinha sem andarilho nem cadeira por perto (havia uma tabela rotativa de 2 pessoas de cada vez, designadas "responsáveis" por me ajudarem, para eu conseguir pelo menos sobreviver. Eles odiavam isso e eu também. Fosse tudo tão mau como fosse, isso ainda me fazia sentir mais como um fardo gigante).
 
Nunca me tinha sentido tão sozinha como aos 12 ou 13 anos. Começaram a desprezar-me abertamente. Felizmente para mim, o cérebro humano tende a eliminar o que é demasiado doloroso, por isso são maioritariamente memórias difusas agora. Tomei o silêncio como a minha arma. Emocionalmente também. Transformei-me numa parede. Nunca falava com ninguém mais do que o estritamente necessário e evitava contacto visual ao máximo. Pensei que eventualmente acabasse aquilo tudo, mas já era o patinho feio há demasiado tempo para ser passível de se esquecerem, parece.
Mas a gota de água mesmo, lembro-me como se fosse hoje, foi a turma criar uma conta falsa no messenger como sendo um rapaz chamado Daniel. Caí que nem um patinho. Sozinha como estava, atirava-me com toda a facilidade do mundo para os braços de alguém que se dignasse a dizer olá. O "Daniel" começou a dizer que estava apaixonado por mim. Caí que nem um patinho outra vez. Assim que aceitei "namorar" apesar da "distância física", rebentou o inferno e eu passei a ser a porca desavergonhada puta fácil.
Obviamente a depressão encontrou o seu lugar na minha vida. E em força. Nunca fui diagnosticada. Detestava psicólogos. Tanto quanto detestava discursos motivacionais. Odiava que me dissessem aquilo que eu já estava farta de saber (hello, sempre tive excesso de pensamento, não foi falta dele, era difícil de ver?). Isso e dizerem-me que estava só a querer chamar a atenção e tinha era falta de ambições na vida.
O suicídio também encontrou lugar na minha vida. Aos 14 anos tinha tentado 4 vezes, já que não fazia sentido em ser o fardo excluído e nojento na vida de toda a gente. De cada vez que falhava, odiava-me ainda mais. Foi tudo um tema deixado na sombra, embora claro que os meus pais reparavam, sendo que só chorava quando trancava a porta do quarto. Eles não negligenciaram a situação, falávamos sobre mim e a minha vida, mas penso que sempre estiveram certos que eu era mais forte do que isto tudo, por isso nunca pegámos o touro pelos cornos propriamente.
No 10º ano encontrei a minha tropa. Os queers e os nerds uniram-se. Éramos só 4, mas se fazíamos barulho... O teatro salvou-me. Começámos a fazer os nossos próprios projectos. E mais ainda que isso, a ideia profundamente enraizada de ir para Lisboa deu-me esperança, e a esperança era a chave para eu continuar, eu sabia que pelo menos algumas mentes iam ser maiores lá (cá!) e estava bem certa!
Sinceramente sinto que comecei a viver realmente há 4 anos atrás, quando vim para Lisboa. A auto-aceitação até já começou a ser alguma coisa, agora. Estava tão certa. O meu lugar sempre tinha sido aqui, mais perto dos artistas, das mentes abertas, dos espíritos livres, dos doidos, daqueles que arriscam o precipício... também não são assim tantos até agora, mas, caramba, são enormes!
Mas não vamos tornar isto tudo arco-íris (sim, trocadilho LGBT+ propositado, sou um unicórnio com asas!) e finais felizes. O bullying não me tornou uma pessoa melhor. E a depressão também não torna. Nem a ansiedade. Nem a merda suicida toda. Nem a maldita cadeira-de-rodas. Já disse que não sou oradora motivacional nenhuma. Isto quase que me estilhaçou completamente. Mas eventualmente acabou. E quanto aos que fizeram isso, nunca mais ouvi falar sequer das sombras deles. Mas tenho a certeza que eles ouviram falar de mim, e ainda vão ouvir mais, por muitos anos, sorry not sorry. Não sou imparável, mas sou teimosa como tudo! Da próxima vez, tentem com mais força.