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INÊS MARTO

INÊS MARTO

7º CNEC - Fragmentos hipotéticos num impasse cor-vermelho

* “Ela passou a mão pela pequena caixa vermelha e sorriu” (dez possibilidades de continuação). *

Ela passou a mão pela pequena caixa vermelha e sorriu. Cuidadosamente, abriu o pequeno bilhete que acompanhava esta misteriosa encomenda, numa caligrafia meticulosamente desenhada lia-se: “Terás de esperar até à meia-noite de amanhã para abrir, sê paciente, a espera vai valer a pena”. Cláudia resistiu ao impulso, colocou a caixa no parapeito da janela e afastou-se, tentando não pensar muito no assunto, de forma a atenuar a ansiedade.

Caiu a noite, e Cláudia acabou por adormecer. A noite foi agitada, sonhando com as inúmeras coisas que podiam estar dentro da pequena caixa. Tocou o despertador, Cláudia arranjou-se e saiu de casa para ir trabalhar. À medida que seguia pelas pedras da calçada, pairava-lhe sobre a cabeça uma nuvem de pensamentos. Deparou-se com uma montra do seu lado direito e instantaneamente, o seu olhar encheu-se de lágrimas. O relógio de corda do marido que falecera na Marinha há poucos dias… Tentando não se deixar assombrar pela tristeza que a fazia contorcer-se por dentro, prosseguiu o caminho. Ao chegar ao escritório, sentou-se diante do computador e, ao ver no reflexo do monitor as rugas que surgiam com pezinhos de lã, outra hipotética realidade tornou-se clara: A fotografia da antiga casa dos avós, em Trás-os-Montes, onde ao fundo estava deitado Minhoto, o cão, seu companheiro de infância.Era tempo de regressar a casa, passou pelo quiosque para comprar o jornal da semana, quando reparou num pequeno folheto para grávidas… A roca de prata que lhe havia sido prometida para o bebé que nunca chegou a nascer.Ou Podia ser a boneca de trapos que lhe dera o irmão antes, muito antes, daquela enorme discussão que os separara até hoje. Podia também ser a chave do diário da mãe, finalmente poderia conhecer quem foi a mulher que esteve presente apenas nos mais tenros anos da sua vida. Quiçá os seus sapatos de noiva, com que brincava ao faz-de-conta. Talvez fosse a roca da avó materna, onde passou as últimas horas, a fiar. Ou o que resta do velho gira-discos do padrinho, onde ouvia a canção de embalar. Podia ainda ser o antigo violino da tetra-avó, ou mesmo o tão característico cachimbo que fumegava debaixo do bigode grisalho do pai…Eram tantas as hipóteses, e todas traziam memórias que relembravam Cláudia de olhar para a vida com outro sabor, tantas as emoções que podia fazer regressar uma simples caixa vermelha numa frágil vida de veludo…