Imaginário de batom

Caiu a noite sobre o meu alento.
Renunciei ao cíclico ondular das costelas.
E no peito calei o trémulo compasso de um coração que insiste em viver.
O corpo é nada. Trespassei-me.
No fechar dos olhos um abrigo.
No silêncio antes do toque, um abismo deixado à palma da tua mão.
A porta está aberta e já lhe sabes o caminho.
Habitas os casulos imaginários de quem se entrega à minha cama.
Tenho-te, pintura indefinida de mulher, como ópio último do meu naufrágio.
Respiras no meu pescoço, deitada a cabeça no meu peito, eu jangada dos sonhos que sobrevive ao dilúvio de estar só.
Eu fantasia por salvação. Eu poesia por dimensão. Eu surrealista mental de corpos nus por consumação. Eu imaginário de batom por solidão.
Soletras o meu nome, a tua língua na minha pele, uma espada contra o fogo da madrugada.
Não quero que amanheça. Esta é a hora. Somos o agora. Existes no limiar do tempo em que me abandono.
O teu cansaço condena-me à sentença de um abraço em queda livre. Não quero que amanheça. Vejo-te adormecer sobre a manta dos meus medos calcinados. Hoje chamo-me insónia. Sou-te casa sólida. Isso basta. Descansa. Olhar-te-ei até que saiba de cor o teu silêncio. Talvez adormeça. Talvez na alvorada a jangada chegue ao cais. Talvez ame o nada que és apenas. E talvez isso seja melhor do que conseguir dormir.

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