Hoje não quero ser nada

Hoje não quero ser nada. Nem tempo nem medida. Nem sentido nem futuro. Nem memória nem expansão.
Não quero sequer o risco do peso das palavras no segregar do pensamento. Nem sonhos nem morte. Nem mudança nem bagagem. Não quero sequer a água que me afogue nem o flutuar noctívago da poesia.
Hoje não quero nem pele nem roupa. Nem versos nem flores. Hoje não quero ser nada. Deixem-me ao nenhures de mim, desaventurada.
Que toda a minha voz e calcária definição sucumbam. Que me apague a terra as arestas do contorno das certezas.
Não quero nem sequer o gesto nem sequer o fôlego. Nem sequer a sensação. Que se apague o fio da existência. Que se derrube a imposição da coerência. Que se desfaça a construção de toda a essência.
Hoje que reste apenas silêncio e ausência. E que sem pedir desculpa erga a mim todos os vícios, chore sem fundo todas as dores, me desencaminhe, me inunde na minha própria usurpação profana.
Hoje que não viva. Não corresponda. Não peça licença. Hoje não quero ser nada. Livres são os que não obedecem, não justificam, não se encaixam, não esperam pela madrugada. Hoje não quero ser nada. Faz eco no meu abandono. Não esperem à minha porta. Hoje não quero ser nada. Não quero a filosofia de um desfecho. Passo do chão, da matéria, passo de mim para fora. Não me deixem cartas de saudade. Enquanto baloiçar no romper de mim, chegarei além. O meu grito hoje é silêncio. Hoje não quero ser nada.

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