À deriva do mar que sou

Submerjo no amanhecer azul onde não me resta a memória do sabor que tem a pele sempre que quero desprender-me de mim. Não sei porque terá sido sempre um mar o espelho dos meus estados-espírito, não sei porque é sempre nas falésias que me desencontro.

Nem que paisagem é esta onde a minha voz soa mais rouca, onde as ondas rasgam sinfonias no vidro das janelas e a madeira branca se descasca na salinidade, da minha pele, que não sei de onde vem e que me habita os versos.

Talvez outra parte de mim seja barco, peixe, gaivota. Talvez seja marinheiro. Talvez seja poeta, livre de pegar nos próprios passos e deixar-se deambular até onde as ondas beijam a costa, desses que ficam com estrelas por tecto a escrever noite fora.

Tenho os olhos semicerrados contra o vento. Ainda assim permaneço sentado. Não deixei rasto no areal, não sei de que se me fazem os passos. Cravo a mão na areia húmida, faço cair um punhado a conta-gotas. Orquídeas brancas tomam-me o rumo dos pensamentos. Talvez não seja nada senão ímpeto, na verdade. Ora passos perdidos, ora o secular mistério das flores, ora o silêncio de um oceano que me habita.

A noite passa, o requebrar dos búzios ecoa-me dentro do peito, talvez a prancha onde me salvo do abismo seja essa: um abrir de braços e a queda na superfície das ondas, o peito à lua, um flutuante grito de nada, deixado à deriva do mar que sou.

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