Voltagem densa

O mundo não te chega. É mais fácil pensar em ti do que em mim. O mundo também não me chega a mim. Mas não quero falar sobre isso. Hoje não quero ser eu. Passei o dia sozinha. Passei o dia sozinho. É isso. Passei o dia sozinho. Nem me apetece acender a luz. O rasto de estar vivo às vezes nota-se pouco mais do que um prato meio comido que não me apeteceu levantar da mesa e o ecrã aceso de um computador, enquanto a noite se consome. Hoje talvez fosse um bom dia para voltar atrás no tempo e escrever a caneta de tinta, não quero a minha cara iluminada a ver-se pela janela.

Escrever é sempre mais forte que tudo. O mundo não te chega, mas tu tens pássaros brancos à distância do que alcançam os teus dedos. O meu voo ficou tolhido pelo frio onde ainda me domino menos. Mas não quero falar sobre isso. Hoje não quero falar sobre mim. Se calhar quero. Mas fica-me melhor dizer que não quero.

O que eu queria mesmo era rir-me até não ter ar, de uma parvoíce qualquer que me dissesses. Depois chorar tudo até não ter ar outra vez, se fosse capaz de não me morder até à quinta casa em vez disso. Depois dizer-te isto tudo, sem que a garganta se me fechasse por força, sem que os meus olhos se desviassem dos teus. Sem a permanente asfixia, não sei do pânico de quê, se gosto da queda livre em que me deixas, quando vês um pouco mais de mim, animal assustado, contando que não acabes por ir-te embora.

Só que depois queria que o abraço durasse um sempre só dele, paralelo, sempre quis uma dimensão que servisse apenas para abraçar quem eu amo com tanta força. A minha cabeça é um turbilhão, sabes? Talvez seja por isso que não sei falar com ninguém, e contigo sei mais sentir do que falar, acabas por descobrir a raiz de tudo só assim. Levas-me de tal maneira longe que só passada a alvorada, no rasto molhado do nosso mergulho, me (trans)escrevo, como me sabes. Animal assustado. É o que eu sou. E tu gostas de mim assim. Isto não é depressivo. Até é carinhoso, pensar que não queres “curar-me” de mim, se calhar até achas que a minha graça está nesta insistência em ser fugidio. Tu também és. Da tua maneira.

É tudo um impasse e zumbidos que a minha cabeça inventa para pintar o silêncio. Às tantas não faço sentido nenhum, mas o meu não fazer sentido assim é menos vazio. Um panhonhas encostado a portas de crise existencial, é o que isto é. Tu tens o condão de me abrir as janelas. Quanto mais mundo tenho mais me disperso. Mas o voltar a colher-me é um músculo. Trabalho-me assim. Um dia hei-de ser de mármore, de tantas vezes me sedimentar.

O mundo também não te chega, pois não? Apodera-se de mim a tal voltagem que só desaparece aqui. Ouço respirações que não existem e parto para onde as minhas mãos não tocam mais no horizonte. Este existir é denso. Saio da pele como quem rasteja deixando sair a última molécula do oxigénio velho de dentro de si. Consumo-me até que me apeteça adormecer. Oxalá se abata sobre mim a onda astral onde somos mais.

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