Contra-capa das entranhas

Borboletas de asas escuras sobrevoam o palato em rastos de electricidade.
Procuras na intangibilidade do reflexo baço um auto-reconhecimento que não vem.
Deambulas corredores inteiros sem sair do lugar. De vidros sujos, chão verde-água gasto pelo arrastar de chinelos genéricos e o conta-gotas de um soro que subsiste na sinfonia agreste das rodas calcinadas.
O mapa mental dilui-se e condensa-se como um ciclo incerto. Contracções de um útero existencial. Visitas mandalas roxos, laranja, e a continuidade subconsciente de padrões e texturas ligadas pelo fio dourado dos estímulos, no subsolo das pálpebras.
Não sabes se é forma de te perder ou te encontrar, apenas que esse transe de escrever faz ultrapassar o nevoeiro das horas.
Expões o pescoço ao vento de olhos fechados como quem pede liberdade.
Do copo de licor pueril florescem suspiros, esses escapes por onde decantas amarguras boca fora.
Desfazes os lábios em fumo.
Observas os luminosos negativos de dentro dos olhos dissiparem-se, esculpidos nas veias como filme de essência dissolúvel.
Da sonoridade dos astros alimentas o crescente desenho de movimento, implantas uma faísca de dança para além do precipício do corpo onde sonhas crescentes fouettes de cisne negro.
Pintas estátuas submersas de ansiedade, até que o mar redentor te alcance as janelas e te inunde os lençóis e a casa e o ser.
Gritas ao abismo ancestral dilúvios de onde pousar os passos, ecoa-te de volta o silêncio.
E de braços erguidos abertos aceitas os espinhos num acto último de nudez.
E do seu afundar na pele virgem fazes versos e viagens e hipnoses de voo onde os dias não te podem levar a mera carne. És mais.
Derradeiro truque ilusionista. Alquimia de prisão como porta transcendente.
No flutuar vazio ouves o retorno do teu respirar.
E no (des)fazer-te sopros gravas na contra-capa da das entranhas do que é feita a tua história.

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