Demasiado

Não, eles não sabem.
Viemos ao mundo para dar tudo. Para ser tudo. Para arder tudo. Ou nada.
Depois condenam o desprendimento que usamos como água. Estranham a leveza despudorada com que lavamos o medo que tiveram de se afogar na nossa fogueira, eles que não quiseram sair da bolha, meio termo, politicamente correcto, equilibrado.
Não, eles não sonham.
O desequilíbrio não é senão o ímpeto de metas mais fundas. Não nos assusta o rosto disforme do esforço último da corrida. E depois da meta o recomeço. E depois da cinza o renascer. E depois da dor a flor selvagem.
Não, eles não sabem.
Nascemos para amar a fundo. Para sonhar os contornos dos dedos sobre o âmago. Para nos fazermos casa. Não sabem que nos apaixonamos todos os dias pelo mundo e pela morte. Que não somos de ninguém, mas seremos sempre totalmente de todos os que o nosso fogo sem freios não afaste. Não.
Chamam-nos complicados, difíceis de lidar, complexos, demasiado.
Demasiado… Eles não sabem que se afogam porque somos o nosso próprio mar. E partidas as cordas da sombra da solidão, fascinam-nos os vértices dos limites. Não, eles não sabem que a dor não assusta, alimenta, quase dá prazer. Que a destruição é o mote para o erguer de novos castelos. Que o caos e a desordem criam os jardins mais belos.
Nós tacteamo-nos até à última instância. E quando achamos saber-nos voltamos a reinventar-nos. Eles não sabem que somos o nosso próprio tempo, giramos sem encontrar o ponto-centro, somos limítrofes. E sonhamos todos os dias acordar como quem respira pela primeira vez.
Não. A eles fascinamo-los feitos reis coroados depois de mortos, nos livros, nos filmes, no longe intangível. Antes disso… demasiado.
Queremos tudo. O ontem e amanhã não hão-de chegar. Borbulhamos infinitos. Somos uns inconformados na procura de espelhos onde possamos consumar-nos. Não, eles não sabem que no agarrar do horizonte o dia estagna. Eles não sabem que o cinzentismo do conta-gotas a que nos querem moldar deixa esvair a saturação que só se encontra nos cúmulos.
Nós pulsamos sangue espesso, temperado, cicatrizado. Os banquetes das suas taças têm plateia pouca. Não somos para a boca de muitos, antes de mortos está-nos na pele um travo a… demasiado. Causamos vertigens, asfixiamos.
Depois desprendemos. Depois lavamos as mãos e as taças e os laços. Depois abrimos as asas. Depois ficamos sós, já sem medo, sobreviventes de nós mesmos, alimentamos as futuras reinvenções do sopro de voo cortante que nos seca a boca. E no bater de asas um cume, uma falésia, uma folha em branco, um céu aberto, quantos horizontes quisermos. Quiçá um espelho-abrigo. Quiçá a morte, não precisamos de matar-nos para morrer – li algures – talvez baste batermos asas. Talvez seja esse bater de asas o espelho.
Eles dizem, enquanto isso, demasiado. Não, eles não sabem.

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