Acender-te(me)

Amanheço. Sonho-te(me) como memória translúcida no reflexo da janela embaciada de algum comboio que me leva para não sei onde. Ouço-te(me).
Em cada esvoaçar dos dedos desenhas referenciais dos momentos que se desprendem de ti, que se fazem efémeros, fátuos.
Chamas a ti o perpétuo e fugidio presente, prendes a ti os meus olhos, atados com um fio de cetim. Na silhueta desenhas cinema que refuta as teorias.
Prendes a ti o meu charriot infinito de capas, todas feitas superfície de absorção. Por uma vez, quero que alguém lhes toque e as segure. Por uma vez, quero que alguém agarre nas minhas mãos. E me ponha os dedos sobre a(s) minha(s) próprias pele(s). E me ponha os dentes sobre os meus próprios limites, no silêncio aterrador onde ecoa o ruído branco mental que trago.
E que depois se sente ao meu lado. E que depois me olhe, com os olhos nesse agora que me ensinou a construir a ferro e fogo. E que depois não precise de dizer nada, porque eu saberei morder, rasgar, queimar aos céus o que me prende.
És um gato fugidio a quem não se percebe a cor, porque é sempre da cor que lhe apeteça nessa hora. Mas as tuas mãos são pássaros. São gaivotas transparentes. Cisnes de cristal. Projectam à tua volta no seu voo um palácio com um salão forrado a espelhos.
És um oceano. Convidas à ante-câmara do teu baile os poucos privilegiados à nudez.
E és um par de fitas aéreas penduradas no alto da tua transcendência em sequência crescente. Despes espartilhos, na roda espelhada onde se dança de pés assentes no tecto das fragilidades de quem se queira sujeitar a ti.
E és uma miragem. Um poema. Um devir. Quantos, e todos, da cor que te apeteça naquela hora. Rodopiar contigo é um jogo de equilibrismos no fio da navalha. Porque é no fôlego da vertigem que transbordas o tamanho das tuas asas.
E então desejo ser chão. Sombra. Silêncio. Isso. Desejo ser silêncio e ficar. Ínfima. Quieta. Presente na minha pele então amorfa. Ouvir-te(me). Olhar-te(me). Escrever nos espelhos os meus medos com batom. Depois desfazer as letras com a minha própria existência. Depois dançar contra elas. Primeiro sobre os teus pés. Depois no meu solo derradeiro de Nijinsky em chamas, até que se abata em mim a minha própria ilusão de limites.
E então desejo – acender-te(me) – que o nosso incêndio queime a solo mútuo: de quantos os que chegarem ao fim do baile, círculo do seu próprio recomeço. E que seja de quantas cores nos apetecer naquela hora.

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