Hoje sou

Hoje não. Hoje não sei o que é a vida.
Olho os dedos nus e não lhes sei o caminho. Hoje procuro no fundo dos olhos um porto de cansaços e não há resposta do outro lado de mim.
Hoje não. Hoje não sei o que é a vida, hoje quis cingir-me à minha própria pequenez. Aperto-me a própria pele como que a procurar argumentos para a hipótese de ainda não me ter abandonado.
Talvez nunca venha a sabê-lo. Talvez resida nesse não saber a corda-bamba que me impele à vertigem. Sem a vertigem o rosto não me devolveria a mim. E mesmo assim às vezes não sei.
Hoje não. Hoje não sei o que é a vida. E afinal nunca soube. Hoje pouco me incomoda se me torna menos gente, talvez tenha vindo ao mundo para ser ondas em vez de pessoa. Hoje não sei e não quero saber. Porque é assim que me afloro. Porque é assim que me desconstruo. Porque é assim que me reinvento. Nunca soube o que é a vida porque nunca me bastaram convicções.
Nunca soube o que é a vida porque é no agarrar do nada que incorro no precipício de ser maior. E hoje não sei o que é a vida. Porque é na golfada dessa ausência difusa de referenciais, é nesse desencontro, que reside a procura. Porque é na procura que se acende a pele. Porque é no acender que se transforma a arte.
Hoje não sei… porque apenas injecto em mim tentativas e falhanços do que quer que seja – ser. Hoje sou. Hoje não quero saber.

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