Debruada a pérolas

Visitas-me o vácuo remanescente da condensação involuntária que se fez em mim.
Pisas com passos cautelosos de silêncio o chão de mim, feito de restos de tempestade. E no sentir-te chegar sobre a madeira do meu quarto desamparado fazes suscitar mais vida e mais tamanho.
Fazes-te música ao ouvido das minhas ânsias. Agigantas-te em mim, como uma onda tatuada na clavícula trave-mestra da minha solidão. Puxas de mim fios que entrelaças nos teus. Dos meus olhos sobram lágrimas escondidas para que nunca mais acabes.
Dou-te a pele inexplorada, a que só tocaram os meus desgostos.
E, na tua trascendência, fazes do meu limiar a janela destrancada por onde me vês como gostava de ser. A voz de terra que se incendeia forma em mim balões dissolúveis, convidas-me a  percorrer-me sem latitudes.
Observo-te, escudada entre o corpo e o precipício que o separa de quem sou. Do teu porte gostava de saber fazer desenhos, como os pinto mentalmente. Bebo taças da tua visceralidade debruada a pérolas, escondida nos cantos mal iluminados de mim.
Toco-te. Faz-se mundo. Tento respirar. Deixo que me invadas. Preenches a queda entre o nevoeiro onde me habito e a verdade.
Desamarro as cordas. Há consonância na voltagem dos nossos tempos-sonhos. Deixo que me inunde a tempestade que  trazes contigo.
Descubro novas paredes à minha casa devoluta. Encostas-te a elas, deixas-te sentar no chão. Acompanho-te. Traço-te e acaricio-te as raízes, no longe de onde venho. No fim do mar abraçam-se. No fim do mar somos mais.

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