Deserto verde

Amanhecer e um deserto verde. Luminosidade expansiva perpétua flui pelo tecto do nada. Árvores retorcidas ásperas espalhadas à toa. O ensurdecer do pensamento. Prédios de néon transbordam o desvanecer da noite. Viagens incessantes. Estradas fora. Rumos sem fim perante os olhos que se deixam ultrapassar parados. Gente desenfreada e um deserto verde.
Ao fundo, o vulto branco de arder gaseificado luminoso torna-se silhueta de um rapazinho sem nome. Lá nas colinas do deserto verde, do outro lado da estrada. Talvez o rapazinho sem nome que gostava de ter sido. Da árvore mais pequena e menos longe dos olhos faz sem pudores um varão.
Do corpo etéreo fundem-se a roupa e o nu, a superfície e o núcleo: é feito do cíclico aflorar de essências e pulsões, do resto quase nada importa. Passa a ponta dos dedos e o sexo pela aspereza do tronco, olha-me destemido. Passa a língua lenta pelos lábios, sem que se lhe note rasto.
Sem desviar os olhos, toca todas as árvores pelo caminho, varões da infindável noite de que faz coroa de existir, e que faz espelhar aos poucos – talvez nenhuns – que o conseguem ver.
Salta o muro com as pernas sedutoras. O vulto luminoso – rapazinho branco – define-se aos poucos. O contínuo aflorar define-se em forma-corpo, múltiplo. Atravessa a estrada sem olhar, imune às prisões mundanas.
Caminha como quem continua a dançar. Ao fundo permanece o deserto verde. Estende-me a mão como quem seria capaz de me tocar – definem-se os dedos, funde-se comigo por segundos – Abraça-me as costas – definem-se os braços, aquece-me como se fosse verdade – permanece sem cara, permanece sem imposições, permanece caleidoscópio do que quer que queira ser. Rapazinho branco permanece livre, metafísico, meta-sexo. Encosta a cara no meu ombro, sinto-lhe a barba – que naquele momento lhe apetece ter – segreda-me ao ouvido: Bernardo. E esvai-se. Sobra amanhecer e o deserto verde onde habita, mas só quando lhe apetece.

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