Subterfúgio

Ultrapassemos a estranheza dos corpos. Saibamos a detalhe as nossas unhas e o eco dos corpos fundidos um no outro. Façamos da boca pares de pétalas cadentes com que celebramos a reciprocidade da noite.
O tempo externo teima em ser câmara lenta e os teus dedos tecem-me bordados inéditos por dentro dos órgãos, contorcidos na gastrite de ser só. Cola em mim a electricidade que trazes nos olhos, não desfaças, espalma contra os limites do meu existir os teus suspiros feitos vapor contra a madrugada branca da minha pele nua.
Suprime os passos na areia grossa, passa o sal pelos cabelos e passeia o desenho fluido do teu corpo na contra-luz da alvorada, de encontro à espuma rarefeita do mar onde costumamos vir para despejar segredos, no permanente vaivém das ondas que um dia gostava que me levassem para longe.
E ainda que não existas, não me negues a eterna quimera de um sonho, caminha comigo, com os dedos frágeis cortados contra as rochas de braços abertos e de peito livre. Ainda que não existas, ultrapassemos os horizontes da carne. Ainda que não existas, faz-te cinza e que do queimares-te se levante ar quente, que se erga aos céus e se faça o meu perfume. Consome-me. Ainda que não existas, por-te-ei no pescoço e atrás das orelhas e esfregar-te-ei, na fricção de ambos os pulsos onde gostava que pudesses vir dar beijos, como que promessas que não te abandono na terra dos vivos.
Ultrapassemos a estranheza dos corpos. Porque ainda que não existas, talvez seja a nossa inexistência o subterfúgio onde me reanimo melhor.

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