Contra-senso-vício

O silêncio de mim grita. Gostava que a minha cabeça tivesse um gravador. Não me apetece a fisicalidade de escrever, nem o som das teclas, nem sei daquele caderno, o epitáfio gigante dos meus dias que não revelo a ninguém.
Resigno-me, que remédio. Estou cansado deste ecrã, não mais que da minha própria cabeça e da voz dela: esse misto de resíduos secos de tabaco e tragos de cerveja quente, que não tem nome, que não tem olhos, que tem a cadência mais rápida do que os meus dedos.
Imagino-te na cadeira vazia onde te eternizei quando estiveste, porque fui menos sozinho. Porque não me apetece ser sozinho, não hoje e não agora. O silêncio de mim grita, dizia.
Tenho cigarras que não se calam cá dentro, apetecia-me embebedá-las com o Porto barato do fundo do armário. Não me apetece beber sozinho.
Finjo-me vivo. Despejo o tempo para fora das pálpebras. Não estou a aguentar qualquer tipo de som, porque me lembra que existo. Salva-me a música, que me é neutra pela raiz.
Tenho, contudo, que a recusar por hora, para que me afunde. Porque sem chegar ao fundo de mim não me torno a encontrar a superfície.
Este estado de desencontro é um contra-senso-vício onde tenho que – mas não aguento – estar. Será na infindável procura sem solução que me descubro, pela precisa impossibilidade de me descobrir? Será esse o catalisador de reinvenções de mim próprio, aquilo que me impele a continuar caminho, revelando-se a cada passo imprevisível e sem margem de manobra?
O silêncio de mim grita, enquanto caio no permanente abismo como sede intravenosa. A lucidez é um assombro. Exploro os incessantes padrões de luz fluorescente que trago dentro dos olhos fechados, procuro-lhes sentido como método de permanecer em queda lenta. Anseio a vertigem e o sufoco pela libertação dela: essa luta mantém-me vivo.
Ardo-me. Procuro fotogramas de ti nos milímetros da queda, de todas as solidões acompanhadas que são pesadelos em forma de multidão, a tua parece saber-me bem.
O silêncio de mim grita. Acordo-me para continuar os dias.

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