(Des)digo

Cai cinza na superfície estagnada das minhas sinapses liquefeitas. Assenta disforme provocando embriagados desígnios tribais de uma chuva irrepetível. No rio que sou dissolve-se a poeira do teu existir. O meu sangue coagula-se perante a tua invasão, que me deixa o corpo tolhido, mas que ainda assim sabe bem.
Olhei-me há pouco ao espelho, como quem procura a verdade no fundo inatingível dos olhos tristes, não me (te) encontrei. Privo-me por sistema de acreditar na tua permanência, como um leopardo com farpas espetadas nas manchas da pele, a fugir ao toque.
Observo a minha essência esfumar-se diante de um reflexo que não reconheço. O exterior torna-se câmara lenta e difusa. A tua invasão revela-se agulhas quentes na nuca que quero mas não quero apagar. O meu ritual de destilar-me em texto é interrompido pela existência psíquica de ti. Agitas-me as águas. Quero mas não quero que te vás embora. Quero mas não quero que me arranques a carne. Quero mas não quero que me consumas sem dó. Quero mas não quero que me queimes as imposições quotidianas.
(Des)digo o “mas”, se me tocares com o indicador nos lábios e me fechares os olhos de tal forma que acredite que, desta vez, não és ave que só vem na primavera, sem chegar a pousar as malas na brancura do meu peito.
O pior disto foi sempre o ter que te inventar em nomes e olhares incertos, em cabides de peles fugidias – quanto mais melhor – porque se ficasses arriscavas despir-me de mim… E depois do mergulho o que restava? Nada. E depois da corrida o que restava? Nada. E depois de me tornares as águas baças com o teu pó de astro inconstante, o que restava? Nada. Um fundo de olhos triste onde não me (te) conseguiria encontrar, outra vez.
Deito-te a cabeça sobre a mesa, desligo-te o autómato de estares viva. Queria só que me olhasses nos olhos. Que a falta de haver o que dizermos, por uma vez, dissesse tudo. Mandasse às urtigas as úlceras que tenho no estômago e as peladas escondidas que não deixo ninguém ver, culpa das noites sem dormir porque não havia a certeza disto: de que, um dia, o nosso silêncio havia de dizer tudo.
Desfaço a pele aos pedaços e convido a que me habites sem porta de saída. Mas fecho os olhos, as pálpebras convulsionam.
Cai cinza do teu cigarro e o tempo não passa, a realidade também não, acumulo nos cantos do amor-que-não-sei-se-queres coisas que tinha para (mas nunca te posso) dizer. À tona de mim ficam decalques dos anjos que desenhámos deitadas, ao relento em noites sem nome nem realidade.
Cai cinza. Quero mas não quero. Fica.

 

 

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