Afinal

Escondia uma espiral de asfixias com a desculpa de ler um livro dos tantos esquecidos na prateleira de não ler. Mas não deixas. Assaltas-me as horas mortas e cortas-me as ondas salgadas do pensar. Não pedes licença, conheces-me a sede. E ficas de mansinho comigo deitada, serena, no bunker do meu desacreditar, onde não deixo entrar ninguém, leve como até hoje apenas tu. Assustadoramente alguém.
Pegas-me pelas pontas dos dedos e fazes com que me dispa de repressões. Mergulhamos na minha incredibilidade, castelo de cartas, menos mal por estares comigo. Mas só porque me ensinas a parar de olhar mil vezes antes de me atirar. Não se voa todos os dias. És uma sorte.
Procurei anos a fio olhos onde acender simbioses e alienar-me na companhia muda de quem está finalmente nu. Encontrei-te. Penso em fugir antes que doa. Anda – peço-te na voz sumida de quem rasga cimento com flores selvagens – Faz-me acreditar. Mostra que as minhas utopias lilases de amar por bem podem ser loucas a par então.
Anda – cala-se a boca a medo, olho-te trémula – na esperança encontrada que me leias o presente pergunto de respiração cortada se é assim de verdade, se me posso dar sem rédeas, se não há mesmo escalas no querer nutrir-te, porque não se mede o que aconchega o peito, e o perder-nos no tempo pode simplesmente saber bem.
Anda – sussurro com olhos tristes – Desfaz os nós que me fizeram. Põe a tua mão na minha e não a deixes. Diz-me que não há purgatório em ser caleidoscópio de afectos por condição.
Anda. Senta-te ao meu lado. Deixa-me olhar-te nos olhos até não sentir choques na nuca. Abraça-me devagar. Deita a cabeça no meu ombro. Cai em mim. Não te recomponhas. Atira janela fora o tempo e a postura. Fica nos meus braços. Ouve-me o coração, porque sim, sem ser preciso motivo.
Anda. Faz comigo desenhos de fumo suspenso na ebulição de ser humano. Rasga-me as consequências de ser na vida como nos versos. Despe-me dos medos com os dedos delicados. Diz devagarinho que amar não tem fundo nem contornos. Anda. Deixa o mundo e habita-me. Beijemos as cicatrizes mutuamente, sem ter nome nem morada. Apenas. Só. Modo de vida por suficiência de justificação. Recíprocas. Porque nos elevamos, livres de julgamento, e essa ode à transposição do ser é quanto baste para nos sentarmos à mesma mesa e bebermos do mesmo copo, sem que telhados de vidro se façam cair.
Anda. Liberaliza-me. Porque podemos, afinal?

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