Cai cinza

Em cima da mesa um externo aberto esculpido em carvão, as costelas dilaceradas por impressões digitais. Tórax de vinil escorregadio. Quebradiço. Um candeeiro de tecto, luz branca. Demasiado branca. Uma cascata fluorescente a fazer ver o artefacto. Em volta nada mais. Pó levita dos limites da penumbra. Enxaqueca.
Das pontas irregulares partidas dos ossos cai cinza como cigarros a deixarem-se morrer no cinzeiro da própria existência.
Uma gaiola preta a desfazer-se ao toque. Cai cinza. Fios de veludo cor de vinho adornam a ossada como franjas de um xaile íntimo ou cortinas entre o xilofone de resto de esqueleto.
Lá de dentro saem borboletas azuis de vidro polido brilhante, reflectem o candeeiro. Enxaqueca. Não sabem bem se partiram as grades do corpo-ébano e se fizeram vida, ou se congelaram nos fotogramas maleáveis flácidos como folhas de raio-x. Talvez algo entre as duas coisas. Cai cinza.
Pestanas abandonadas no chão. Pingos de pele sobre o tapete manchado. Pegadas descalças marcam o azulejo em volta. Uma autópsia em vida. Enxaqueca. Uma cascata de cabelo às ondas de quem se deixou morrer sem se matar.
A última instância de arte na vida: a pintura psíquica detalhista das borboletas que hão-de um dia rasgar o peito, partir os maxilares, queimar as veias dos pulsos que já existiram tudo o que tinham para existir. A imagem a detalhe. O corpo como escultura. A memória como fotografias penduradas tortas em paredes abandonadas ao caruncho da solidão. O pré-óbito como derradeiro catalisador da essência. Como fascínio eterno. Como xamã da perpétua inquietação. O mergulho mortis como processo mecânico de auto-catalogação de fantasmas. Enxaqueca. Cai cinza.

 

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