Morreu Vénus

Linhas de sombra na parede fazem-se corpo inteiro e madrugada. Respiro.
Nas janelas de uma viagem qualquer perde-se estrada na infusão de memórias que bebo sempre sem querer.
O céu pesa-te na boca e a vida no pescoço.
Queima-se o passado num fogo índigo de quase. Respiro.
O fumo deixa-se beijar pela rua e desenha ao ar uma denúncia do teu corpo dançarino e duas cinturas de encaixes-sonhos embriagadas de noite. Respiro.
Sobe-te o mar à tona dos olhos presos nos meus. Traz nas ondas o amor que não quiseste. Sustenho a respiração. Morrem na praia deitados os cacos de loiça ou cristal que tinha ligado eu mais que tu a fio de talha dourada – esculturas partidas são as mais bonitas, aprendi do Japão e fiz questão de to viver.
Arrastam-se pela areia feitos peregrinos náufragos com pele salitre. Deixam por rastilhos-desenhos uns rasgos na areia ainda molhada. Escrevem na língua dos Deuses o que puxei do âmago em lágrimas para te dizer e desacreditaste. Sustenho a respiração.
Ao fundo a falésia onde se matou um poeta afogado em desesperos. E pelo chão entre os cacos as promessas que fizeste de nunca ires embora.
Sustenho a respiração. Enterra-se latente uma história sem precisar de caixão. O amor nu deixa-se riscar de areia e sucumbe ao que não se deixou acontecer. Desfalece. Sustenho a respiração.
Ficam no cais os desenhos na praia deserta de areias lisas, quebradas pelos versos que hão-de ser sempre teus. Pesa-te o desapego no peito. Pesa-te a morfina no hoje.
Hoje morreu Vénus. Sustenho a respiração.
O barco vai de saída.

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