Espero

Puxei da minha pele em escamas as entranhas, desfiz-me de mim. Deitei-as sobre a brancura virgem do lençol como ornamentos oferecidos aos Deuses no altar do teu cadáver. 

Tatuei na tua pele o meu sangue posto ao relento a tocar as pontas finas dos teus dedos onde amarrei a ínfima jangada condenada a um naufrágio. 

Beijei-te os lábios frios roxos sem saber se a metafórica morte da fogueira que me acendeste no tempo longe  prenunciava ser a última vez. Sem saber sequer se era extinto o fogo. 

Chorei e deixei que do meu sangue se fizesse aguarela nos contornos do teu corpo nu. Fiz-te quadro de fantasmas. No tocar da tua pele absorvias-me em tinta. Eu como espectador extra-corpo a um circo xamanico de amantes.

Tomara que consumisses a minha existência como um cigarro barato a esfumar-se entre os teus lábios abertos, cansados, carentes. 

Cortei a pele aos quadrados, nela impressos os sonhos e as ilusões,  fiz uma manta de retalhos com que te tapei o perigo de sermos felizes. 

Pus sem saber se era uma despedida os pés em cima dos teus. Espero.  Agarrei-te pela cintura. Engoli as lágrimas, dançámos. Encostei ao teu peito o ouvido frágil na esperança de se fazer som. Desci à vida. Espero. Não descolei os olhos dos teus. Tornei-te a fazer quadro do meu sangue diluído em dores. Ainda te olho. Espero. 

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