Vértice de um epitáfio (parte I)

Madrugada.
Deitada a pele alba em ondulações respiratórias sobre lençóis manchados quentes.
Insónia de suspensões de nylon preto contra o vermelho de lábios anónimos carnudos brilhantes.
Flashes curtos. Oxigénio. Um xilofone de costelas sob as pontas frias dos dedos com unhas quebradas frágeis a proteger pulmões fracos em respirações ansiosas. Uma gaiola de pássaros-hormonas loucos o corpo, de aves desnorteadas forradas a negro e de franjas, de sabor metalizado velho, de dopamina a conta-gotas.
Tecto de espirais de luzes amareladas na travessia de um abat-jour rasgado. Silhuetas de bailarinas incógnitas e pegadas de sangue em azulejo intermitentes.
Mente divergente no fio de fumo ascendente a passos de vidro como um equilibrista no vértice do seu próprio epitáfio.
Reflexos fluorescentes de candeeiros solitários na janela. Sede de tabaco na garganta. Sensação de língua morna a deslizar para baixo pelos degraus das próprias vértebras.
Retalhos calcificados de memórias a monte postas na balança a gestos largos. Findasse hoje o fio de fumo para esse vértice do epitáfio, pouco pó sobraria da erosão calcária das memórias.
Esvaía-se o resto num evaporar de sobras de tempo a atingir metas alheias, a deambular no inútil, a percorrer ruas erradas, das ruas erradas que não levam ao caminho certo, que afinal não levam a caminho nenhum, das cujos passos não ensinam, das que só servem para se circunscrever em interesses e objectivos e expectativas exteriores, das que só servem para encaixar em moldes ocos.
Por contrário, um débito de se olhar, de se explorar, de se florescer, de se vulcanizar em erupções re-identitárias, de se reconstruir, de se descobrir o próprio ponto de ruptura e tocá-lo vezes múltiplas em testes auto-destrutivos de desafio à resiliência, de se amar, de se cheirar, de se lamber, de vestir roupas que ficam mal, de se odiar, de se afundar, de mergulhar na própria pele, de se fundir com o chão de fundos de amargura aleatórios, de deixar marcas de batons de cores pouco usuais em beatas amarrotadas num alcatrão qualquer à chuva, de observar copos de champanhe agarrados com postura por unhas pintadas, de decorar vozes vibrantes ao ouvido, de se convencer do próprio reflexo, de habitar o próprio corpo, de se sentir o próprio eu sem esforço, de refutar a idade, de não fazer coisa nenhuma, de escrever mais e melhor, de pensar mais e maior, de cair cumulativamente.
Uma subnutrição de referências de cinema, de filmes franceses, de pianistas, de bebedeiras, de desmaios, de amores mal paridos, de renascimentos mal amados, de máscaras desestruturadas, de sorrisos falhados, de silêncios desconfortáveis, de olhos nos olhos, de pés em sangue arrastando-se findo um tango de ave ferida na carnificina da noite de quem está vivo porque quer estar e se atira a jaulas de leões.
Findasse o fio de fumo e um ciclo esvaído de fim nem princípio de falta e excesso de insónias, de passos inconscientes para o vértice daquele tal epitáfio, ficara por gritar.
Madrugada.
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