“Egoverso”

“Então sofre.” disseram-lhe com ombros de algodão. A derradeira liberalização e ruptura do politicamente correcto puxar-se para cima, apanhar os cacos das utopias previsivelmente falhadas, e seguir em frente.
“E escreve.”, continuaram, com a boca a saber a beijos quentes de pôr ao peito como emplastros de curar dores existenciais.
A metamorfose que já tantos dias faz força como espinhos de cactos a querer furar a pele não tardou a regressar. A não obrigação ao quotidianismo sintético da felicidade injectada desamarra qualquer núcleo com sede.
E, subitamente, o cheiro a plástico-borracha e a éter como as máscaras de oxigénio transparentes que deformam a luz difusa do tecto das ambulâncias anunciava o peito aberto, deixado ao abandono pelas costelas friáveis que se desfaziam ao som de falésias a desmoronar.
Fumo roxo invadia a pele e penetrava-a. Patas de insectos pretos caminhavam-lhe por dentro, eram os carrascos da dor de alma. Teias de aranha faziam-se erguer por entre os fios de cabelo, suspensos no âmbar gelatinoso e incolor de quem se perde sem tempo. A existência superava o corpo, por não lhe caber a tristeza no oceano dos órgãos.
Via-se em fotogramas suspensos no espaço, em movimentos fragmentados, mais lentos que o mundo, multiplicadas as mãos em transparências como acetatos que se dissolviam lentamente, sobrepostos.
O corpo pesado. O complexo labirinto de artérias dissecado à catártica ritualidade de tornar as agulhas fluorescentes que lhe tatuam desgostos em qualquer coisa de tangível. No celofane mecânico do interior das pálpebras, filmes caleidoscópio de manchas azuis e verdes e negras, num ruído visual de televisão avariada.
Mentalmente uma espiral de queda quebrada, um sufoco sem chão, a velocidade estonteante de cair fora de si continuamente sem fundo. Mentalmente uma velocidade onde não cabe o mundo, uma ausência de foco único e de rasto, uma hipersensibilidade de galáxias e consciência e pó de giz.
“Então sofre.” e fizeram-se bacantes. Invocou-se o granito de campas alheias, morreu-se em vida sem fazer força, escreveu-se como quem navega sem tocar no leme. Arderam as células da carne, deitaram flocos de cinzas ao ar como confetis a celebrar o direito à condição liberalizada de existir sem olhar para os lados.
Sobraram os ossos rachados cor de ferrugem. Sobrou a embriaguez auto-gerada que torna suportável e até apetecível a sobrevivência, nesse universo como um negativo de uma fotografia antiga de memória amarga, ligeiramente corroída pelo ácido de um estômago que cede ao desamparado estilo de vida de ser assim.
“Então sofre.” e fez-se mundo, porque o mundo desapareceu. E construiu-se dos pesadelos velhos a placenta onde ficar. E encontrou-se nela o leito inebriado de um “egoverso” de multiplicidades dimensionais.
“Então sofre.” e tirou-se da vida espaço-tempo para um ritualizado último suspiro alucinogénio com visão de túnel repetitivo. Criou-se um barco-fuga dormente num acesso mental como o puxar de um cigarro. Deu-se um nó ao cordão umbilical para que não se perdesse dos sentidos a placenta de pesadelos.
Saiu-se do próprio corpo e observou-se com um ávido salivar de sabor a ferro a sua encantadora deterioração transcendental.
“Então sofre.” e encontrou-se no espectáculo da própria amargura a beleza evolutiva da cicatrização de uma essência a céu aberto. Deixou-se um fio de nylon-cordão umbilical, atado  aos dedos.
O “egoverso”-placenta fez-se balão de hélio com promessas de ficar.

 

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