Numb-mente

Conservasse a boca o sabor a café, nas horas neutras. Encravasse a tecla para apagar o que escrevia. Não tivesse caminho senão o de continuar em frente. Perpétuo, contínuo, imparável. Soassem os pianos que tinha na cabeça sempre cá fora.
Não tivesse poesia. Não ficasse à luz do ecrã pela inércia de ir acender o candeeiro, a ver o chão cinzento de cimento e o jardim deserto pela janela. Não ficasse de robe e de pijama e de óculos sempre ligeiramente sujos pela inércia de os limpar outra vez.
Memorizasse eu os detalhes das pessoas e dos passos delas, a cada vez que penso “isto era bom para escrever”. Saíssem-me com tanta fervura crónicas sobre tudo e mais alguma coisa como me saem sempre sobre o mesmo amor impossível.
Tivesse sempre na cabeça a voz do Al Berto a dizer O Medo, não perdesse o rasto ao fio de prumo das ideias que me consomem partes demasiado grandes do cérebro, a pensar nos espectáculos que quero fazer. Soasse a minha voz ao arranhar do Comfortably Numb em vinil.
Quando era criança também tive febre(s, muitas), também sentia as mãos tal e qual dois balões, nunca passou. Não tivesse a latência semi-manifestada, semi-latente, este atordoar de presente.
Tenho as mãos como balões e os olhos magnéticos a puxar para dentro do crânio porque a boca não me sabe a café. Não me lembro de tudo o que me queria lembrar. Ainda ontem tinha passado à saída do supermercado por uma mulher interessante, sobre quem cogitares arriscados, no mínimo, davam mais um texto sobre alguma coisa, menos um devaneio de amor daqueles que nem querem dizer, e pior, nem servem, para nada. Esqueci-me do que pensei. Outra vez. Não me ensurdecessem as horas e não perdesse o ponteiro à voz da cabeça, maldita.
Escureceu demais. Quem me dera ir de comboio sem avisar, sem saber para onde, sair porque sim, não ter datas, não ter prazos nem relógio. Escrever todos os dias como se a minha vida dependesse disso. Olhar para quem passasse sem medo do cruzar dos olhos. Ser homem e usar suspensórios vermelhos só porque sim. Vou acender a luz.
Desenhasse eu círculos de sangue em chão preto no meu próprio desatino, lembrasse-me de cabelos ruivos contra-luz e olhos dourados, não visse caras de pedra e ossos a rasgar a carne em flashes de alucinações.
Não tivesse dentro do tempo um tempo próprio sem tempo nenhum. Escrevesse todos os dias como se a minha vida dependesse disso. Não tivesse dores de estômago infundadas. Não tivesse pesadelos, não me custasse dormir e tanto ou mais acordar. Não tivesse imaginária a casa encostada ao mar, e do chão ao tecto livros encastrados nas paredes e cheiro a pó e madeira a estalar.
Não vivesse dentro e fora simultânea mas incompativelmente, na embriaguez da multiplicidade de ser tanta coisa sem querer ser nada, como se isso não pesasse, como se não fosse convulsivo, como se não quisesse às vezes ser só um autómato e pensar em lavar a loiça, como se não me fosse doer o peito e implodir as veias pelo vácuo do inexistir extra-pele.
Não tivesse as mãos como dois balões, não fosse Comfortably Numb por definição, soubesse-me a boca a café. Escrevesse todos os dias como se a minha vida dependesse disso.

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