Vitrúvios imperfeitos

Pulsava o pequeno coração de vidro, arvoreando-se em artérias transparentes, ramificadas pelo corpo como arbustos de cristal, guardiães de um cemitério interior.
E lá dentro chovia, escorregando as gotas pelas côncavas curvas na sua própria atmosfera. Chovia-lhe no peito como um mundo próprio alheio, alienado, cheio de pequenos pássaros pretos, mais pares de óculos tímidos e chapéus de nunca usar.
Sob madeira roída sem janelas da sua pele jaziam esperanças. E entre os dedos de papel tecia amores impossíveis.
Passeava-se no pequeno sótão de sempre. O mesmo da luz ténue, do chão riscado de tábuas, da clarabóia e das paredes difusas, nas nunca-existências corpóreas da sua poesia. E de corpo deitado contra o envernizado velho, sem sexo, abria os braços desenhando vitrúvios imperfeitos, num sem-asas de ser etéreo.
Olhava lá longe a brancura cinza de um céu baço.
E lá dentro chovia como que tendo vitrais feitos homens nus em danças de tribos, que batem os pés descalços no chão e cantam em uivos de raiz humana. E bailarinas russas que arrastam as mãos pelos vidros curvos das aurículas, cansadas do peso leve das pontas.
Sentia contra-pesos de pele-chão nas batidas cardíacas ritmadas, bebia cada grama de peso deixada ao acto de se deitar.
Imersos em luz azulada de fim de sonhos, os circos diários, as malas cheias de selos falhados, os charriots de identidades, as mortalhas de enrolar imposições, os isqueiros de acender expectativas e revoltas, e os filtros de calar versos, esperavam inertes num aquário embriagado de latências exigidas ao peso de pôr o “sobre” das bocas do mundo tanto acima do “viver”.
Os olhos trémulos de espelhar a chuva azul fitavam os nuncas que queria ver acontecidos, desvanecendo em horizontes tingidos de amargo.
Sem bater à porta, pediu para entrar um par de mãos sem luvas. Outros dois olhos trémulos, talvez um espelho, vieram pé-ante-pé como quem voa. Pousou outros tantos circos, talvez mais, outras tantas malas e charriots e mortalhas e isqueiros e mais filtros. Encostou-se à transparência do pequeno coração como um gato aninhado. E sob a luz azulada de fim de sonhos, estendeu as mãos sinceras, escolheu uns dos tantos óculos tímidos, tirou com toda a graça, da enorme pilha, um dos chapéus de nunca usar, e, pousando-o como uma nuvem de afectos sobre a cabeça, procedeu a deitar-se também e fez vitrúvios imperfeitos desdenhando contra-tempos, sem que tempo algum houvesse, viesse haver, ou tivesse já havido, pois o todo estava ali, onde chovia, assim: círculo.

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