Ecoo-me

Rangem-me as portas riscadas, postas nuas ao vazio. E ardem-me as paredes antigas de branco sujo. E colapsa-se o chão de vidro com furos de balas, por baixo dos pés descalços, com os dedos roxos enregelados que se encarquilham em câimbras involuntárias, como dez peitos a contrair-se em choros silenciosos sem ar.
Vibram-me as partes de dentro dos pulsos, com veias azuis pintadas a querer trespassar a pele, na tal comichão psicadélica de pedir lâminas quentes ou agulhas sedativas ou dentes àvidos ou unhas negras, ou os beijos que não vêem nunca.
Tenho na cabeça formigas de éter que se passeiam anestesiadas pelos corredores de morte feitos hospício, esses labirintos das ranhuras cerebrais, solo defeituoso e pútrido, cemitério de ânsias onde em dias de sol nascem flores. Estremecem-me o existir no caminhar atordoado, afogadas por debaixo da linha de água do escalpe cor de marfim partido por machados.
Sobram-me nos viscosos amontoados de massa bruta neuronal, essa elástica placenta de pensamento e criação, campas de sonhos com as pedras estaladas pelo tempo e a solidão. Nos dias de sol nascem lá flores. Nos dias de sol escondem-se os esqueletos. Nos dias de sol enfeitam-se os caixões. Nos dias de sol põem-se festões nos cedros que circundam o cemitério das ânsias, as campas dos sonhos mortos. Acendem-se as luzes e pintam-se os portões com decalques de mãos de identidades felizes.
Oitenta por cento de mim é feito de água salgada. Ensurdecem-me as âncoras que fazem o som dos búzios encostados ao ouvido onde se sonham mundos secretos quando se é criança. Perdem-se fragmentos de heteronimias com vontade própria no fundo do mar, entre os coirais ressequidos da falta de mãos lentas e a areia que flutua à espera de passos que não pisam nunca.
Emergem bolhas de pensamento gástrico à tona da boca. Rasgam a inquietude das portas, das paredes, do chão de vidro, dos dez corações. Percorre a mão devagar as arestas de madeira sem que a controle.Ganham os dedos energia espástica. Respiro sem me encontrar. Ecoo-me.

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