Carta à mulher que eu amo:

Nunca soube como te consigo descobrir em tantos corpos, tantos passos diferentes, tantos tardes demais. Mulher é uma desconstrução, tu és um conceito volátil, como a palavra Deus. Nunca entendi como consegui apaixonar-me por um denominador comum a um punhado de gente talhada a pó de ouro. Talvez um dia ganhes corpo em alguém que queira ficar.
Não sei porque andamos sempre desencontradas. Nunca soube porque te encontro sempre nas pessoas onde nunca pode ser. Talvez um dia ganhes um rosto definitivo. Talvez um dia me batas à porta e possas, possamos, ser.
Talvez um dia ganhes um nome que não venha tirar-me o ar dos pulmões e secar-me à força as lágrimas dos olhos. Talvez um dia sejas feita do tempo certo e não tenhas medo.
Se vieres, espero que saibas que te amo há muito tempo, como achava que só se amava nos filmes e que não podia ser. Espero que perdoes as outras pessoas onde te encontrei por me terem feito fechar a porta ao amor, elas não têm culpa. Tinham outras idades, outras vidas, outros voos e outros receios.
Se vieres, espero que tenhas paciência para esperar que abra a porta outra vez. Não foi fácil amar-te em tantas formas, com a idade que tenho a mais do que o corpo, e vir sempre no tempo errado. Não foi fácil teres tanto para resultar e ter que te deixar passar entre os dedos, como se não te visse o medo nuns olhos, e noutros as asas grandes de mais para mim.
Talvez um dia me batas à porta e saibas que esperava há tanto tempo por ti derradeira… E que vejas que em cada cicatriz que trago no peito cresceu uma flor. As versões impossíveis de ti vão aprendendo a florescer, uma vez quebrado o cimento de estar sozinha. Quero que beijes quantas flores fizeste vir ao mundo por teres dado errado e que deites a cabeça no meu peito deixado à lua e possamos ficar assim, sem dizer nada, só porque ambas sabemos que foi desta que deu certo.
Talvez um dia me encontres. Espero não ter amargado. Desculpa se encontrares mais camadas por abrir do que as que devia ter. Amar-te em nomes errados custa, mas não morre. E a parte mais bonita é essa. Não vou amar-te desta vez, porque te amo ainda de todas as que não deram também. Guardo as chaves das portas fechadas e as flores desses desgostos. E por um baú cheio de tudo isso, julgo que só te saberei amar melhor.
Foram os nomes deitados ao vento onde te encontrei que me fizeram poeta (espero que saibas que o meu coração, como o teu, não tem género). E se me encontrares a tempo e quiseres ficar, obrigada por me desbravares.

Amo-te em quantos sempres quebradiços te encontrar.

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