Gato preto

Pelos cantos da casa acumulava-se o tempo empilhado em caixas de cartão, à espera de ser novo. Um ciclorama de dias passava imparável pela janela das águas furtadas de onde se contemplava a vida. Os conceitos soavam muitas vezes ocos, como quando se repete muitas vezes a mesma palavra até que perca o sentido.
E havia desejos binários, tanto de passar a vida à frente num botão de um comando e ver o que o futuro reserva, como de voltar atrás e viver uma vez mais, do zero, em múltiplas existências epistemológicas, e testar qual dos “ses” daria um melhor resultado.
Fazia eco a palavra amigo, a palavra amor, o nunca e o para sempre. Pouco mais queriam dizer que a fugacidade de uma esperança cristalizada, sujeita à força das marés que a quisessem levar.
Pensava-se já saber, pensava-se já ter erguido o castelo de cartas, com a lucidez no entanto de saber pouco duradoura essa segurança de tectos de vidro. Como quem se atira de um penhasco à espera que seja desta que ganha asas, com a noção de fundo, no entanto, que vai bater no fundo, só talvez um pouco menos estatelado que das quedas anteriores, pois que enquanto as asas tardam em chegar, cresce o jeito para um cair mais atenuado.
Porque não se sabia outro modo de vida do que esse de se atirar a penhascos, pois nada mais mantinha no tempo o movimento se não esse mudar de espaço à força, rasgando limites à procura de que algum dia algum lugar resultasse, como duas variáveis frágeis de uma equação nuclear para ser feliz.
Revelava-se a única constante essa inquietude da brancura de um papel por onde drenar os mundos tornados em texto. Seria o único amigo e amor, o único nunca e para sempre que não estremecia no soprar do vento.
Nessa alma de gato preto por ruas empedradas, onde sabia que as suposições assumiam o propósito de trocar as voltas, onde o que se julgava de pouco mais servia se não para tirar o chão, passava, de passos esguios, de olhos cheios, de cabeça à lua como quem deve ao passado somente a hipótese de futuro, de certezas poucas com engrenagens à roda, como quem já não espera por terra firme, mas de abandono certo, esse da teimosia de, mesmo que só, mesmo que de sempres amputados e nuncas surpreendentes, ser poeta.

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