Canto amorfo

Tenho o corpo feito de tábuas de pinho. Navega sobre o sal dos dias feito caixa forte. Tenho o interior das veias talhado como um caixão. Faço das horas vagas noites em que não sei o que sou. Rezo para não ter que ligar o interruptor de viver. Tenho a pele a fazer barulho de madeira oca.
Tenho o peito feito de vidro rasgado. Tenho um coração de balas e uns dedos de promessas e um pescoço de beijos que ficam sempre por dar. Tenho uns ombros de abraços que ficam pelo acender da vontade, sem nunca pegarem fogo.
Apago a luz à força do sótão psíquico, porque é como canto escuro e quieto, como espaço desfocado e inexplorado e como dimensão perdida que, não sou mais, porque não sei que seja, mas sou melhor, ou ainda que não seja, tem mais paladar a tentativa.
Tenho as asas feitas de pó e a boca de suspiros. Tenho os pés feitos de mármore partido e as pernas de revolta. Tenho a carne feita de frustração. Tenho a raiz feita de inconformismos perpétuos. Tenho a cabeça feita de mundos.
Tenho o canto amorfo, onde não sei nada sobre coisa nenhuma, cheio de sonhos espalhados pelo chão e colados nas paredes e a abarrotar das gavetas desarrumadas de sentido.
Tenho a fogueira dos olhos feita de dúvidas e desejos. Feita de porquês e medos. De pesadelos e de poesia. De fantasmas e de persistência. Tenho o norte feito da inconsistência de acreditar no éter intermitente da felicidade como modo de vida.
Tenho o corpo feito de tábuas de pinho. E um guarda-fatos velho, cheio de cabides com reinvenções de mim.

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