Pouco importa

Chegas a casa de andares na rua à procura do que é a vida. Despes o casaco que atiras sem pensar para a cadeira do costume. Cai desamparado e pouco importa. Olhas-te ao espelho de testa enrugada e perguntas-te mentalmente se tiveste este aspecto o dia todo. Pouco importa igualmente.
Os teus olhos prendem-se nos do reflexo e ficas ali parada como se o tempo não tivesse nada a ver com a tua vida. Começam os “ses” sorrateiros a chegar. Como quem não quer a coisa, tomas os ansiolíticos, e vá que façam efeito depressa, não vá o tempo, esse que não tem nada a ver com a tua vida, dar-te corda que chegue para te espraiares por onde te perdes melhor.
Perguntas-te se era esta a vida que querias. Se os outros que ainda
têm menos a ver com a tua vida do que o tempo não tinham razão. Não sabes a resposta. Essa sim, importa, mas fazes de conta que não, não vá roubar-te o sono.
E também não sabes se afinal tudo devia ter mudado. Estalas os dedos e sem que o tempo se dê ao respeito, já estás a perguntar-te afinal para que serve essa história toda de cá andar. Persegues no limiar da luz uma mosca com os olhos, a fingir que até funciona para distrair a cabeça.
Pensas o que é que será de ti amanhã. Quando o mundo

continuar a rodar e aqueles que sabem o que é a vida seguirem na mesma sem pensar pelas calhas do futuro. Sabes ainda menos. Importa ainda mais. Não sabes no fundo sequer que calhas afinal são as tuas ou se as tens.
Tentas mentir a ti mesma enquanto te metes na cama. Mordes de propósito o isco cliché de que andamos cá todos para o mesmo. Sempre é mais fácil adormecer assim. Pedes aos santos em que nem acreditas que os comprimidos comecem a fazer efeito. Antes que o pensar sem tempo te leve tarde demais.
Fechas os olhos como se assim não houvesse mundo. E antes que durmas lembras-te de repente que isso a que chamam vida só se faz vivendo. Que só sais do sítio se tirares os pés do chão. Que só há futuro agitando as águas… Se sabes ou não para onde o barco ruma, desde que não pare… Pouco importa. Havendo mar há caminho.
Adormeces, ou finges que sim, não vá a filosofia de bolso não chegar para te calar a alma.

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