Chão de vidro

Caminhava em chão de vidro
Com barbatanas nos pés,
Ia ao sabor das marés
Sem saber qual era o norte

Tinha por ponteiro a sorte,
Astrolábio descontente
Mapa para aquela mente
Que albergava tanta gente.

E então, com guelras por coração
Respirava o sal da mágoa
Como um barco na água
A remar contra a corrente,

Caleidoscópio indulgente
Que se apaga de repente
Feito chuva intermitente,
Vórtice do verbo ser,
Chove em segundos cortados
De mundos entrelaçados
Que ardem lentos, sem se ver.

Meia fénix, meia louca
Meia grito, meia rouca
Num precipício de fumo,
Numa cascata sem rumo,
A despir a pele oca,
Como quem descasca a roupa.

E esse chão de vidro baço
Tornava-lhe o passo laço,
Para naufragar ao vento
Em linhas de desalento

Que traçam trilhos perdidos
Lembram desejos esquecidos
De ser capitã da areia,

Essa alma de sereia,
Com sabor a drama doce
E travo de amor ardente,
Das tábuas, como se fosse,
No palco, rio ascendente,
Sonho de noite de estreia.

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