Fingia, de mim para mim

Muitas vezes chateava-me contigo, sempre de mim para mim. Melhor dizendo, chateava-me com a forma como me monopolizavas o pensamento, como um jogo de xadrez com as minhas peças coladas ao tabuleiro.
Muitas vezes fazia birras, sempre de mim para mim. Inventava-te defeitos, porque assim era mais fácil convencer-me que afinal não te amava, que era tudo da minha cabeça, como uma criança a inventar argumentos descabidos para um jogo de faz-de-conta.
Muitas vezes fazia. Fazia de conta. Que tinhas a vida que não tinhas. Que estavas o longe que não estavas. Que tinhas a imunidade que era mentira. Que seguias impávida e serena como sabia que não. Que tinhas a redoma de vidro que era a minha melhor desculpa para te deixar estar. Fazia de conta que acreditava que não precisavas de mim como sabia que sim.
Muitas vezes fingia, sempre de mim para mim. Que acreditava nas minhas próprias mentiras, porque era mais fria, mais seca, mais forte… mais só. Fazia de conta que acreditava mesmo que só eu é que precisava de ti, tu de mim não. Que a tua vida seguia depressa, sem espaço para me ter perto. Que nunca me havias-de querer. Que simplesmente não ias ver para além das nossas diferenças. Porque assim tinha mais muro, mais defesa… mais vazio.
Fazia de conta que acreditava… que era impossível que me amasses. E que não via que começavas a ceder. Pendurava-te defeitos como quem estende pétalas em flores secas. Escrevia amontoados de textos complexos, como quem se quer convencer de um amor impossível. Fazia de conta que era mesmo.
Fechava os olhos, com as mãos tolhidas, para me fazer crer que assim não via que podia dar. Que afinal estava na cara que não podia dar certo – já estava a dar certo. Fazia de conta que não percebia que o nosso amor não era feito para ser como o das histórias. Que não sabia que não valia a pena esperar por uma meta e um lugar – nós éramos o lugar. Nós somos o lugar.
Muitas vezes ainda me chateio contigo, sempre de mim para mim, como se não soubesse que é puro teatro meu. Ainda me tento convencer que não queres saber de mim, que o pressuposto não chega, que o silêncio não diz tudo. Muitas vezes ainda me tento impingir a mentira de que não sei ler os teus olhos, nem sei sentir o teu peito. Assim é mais fácil não deixar de ser o eterno palhaço triste. Isso era se eu fosse boa mentirosa. Mas nos dias – são poucos, mas cada vez mais – em que não consigo cair na minha própria mentira, resvalo sem que o chão me valha.
E nessas poucas vezes, eu sei. Que sabe bem que me ocupes o pensamento. Que os teus verdadeiros defeitos são irritantemente curáveis com um beijo. Que a tua redoma é só uma das mentiras em que por acaso também gostavas que acreditasse. Que não segues em passos leves e pensas em mim mais vezes do que alguma vez me vás admitir.
Nessas poucas vezes, mas cada vez mais, eu sei. Que precisas do nosso lugar que começa a despontar para se fazer existir. Que me queres da tua forma de querer. Que me sonhas da tua forma de sonhar.
Nessas poucas vezes, mais e mais, eu sei. Que o nosso amor não é como o das histórias, é melhor. Que o nosso sempre é dos que trespassam a pele. E para isso o pressuposto basta e os silêncios também. Sei que nunca mo dirás tanto como gostavas. Chega-me saber que gostavas. Sei que nunca te vais deixar ir tanto como querias, mas basta saber que querias. Nessas poucas vezes, eu sei. Que os teus olhos chegam e o teu peito também. Que a tua pele nos meus lábios dispensa as palavras.
Sei que o sal da tua pele sabe ao mesmo que os meus sonhos. Sei que ficas – ao fim do dia, isso grita mais alto que todas as mentiras que possa inventar à força para não cair em nós. Nessas vezes, cada vez mais, caio sem olhar para trás.
Sei que o nosso toca-e-foge é uma armadura de cartão. E que em terras de amor há chuva.

 

 

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