A carta que nunca te vou escrever

Não. Não tenho saudades tuas. Esqueci-me de contar os dias desde que te vi. Mais eternidade ou menos continua a ser muito tempo. Não. Não tenho saudades tuas. Nem me custa o querer falar e não ter nada que dizer. É mentira que desejo tantas vezes ser uma sombra só para poder ir ver-te sem dares por mim.
Não. Não quero que me telefones. Odeio que me digas que “vamos falando”. Esse “vamos falando” é um semear de vontade que não posso deixar despontar. Não. Não me custa o não poder simplesmente dizer-te “bom dia”, “boa noite”, “um beijo”. Nem me custa o ter que falar-te com um falar cronometrado ao segundo, medido ao milímetro e pesado à grama. Não é sequer por medo de te sufocar.
Não. Não tenho saudades tuas. Nem me custa que gostes de ir estando, mas nunca sem olhar para o relógio. Mais que isso, não me custa que não precises de mim nem metade da falta que me fazes. Ou que se calhar precises, mas nem saibas que sou eu. E nunca possas chegar a considerar. Ou que se calhar saibas, mas faças de conta que não, porque é melhor assim, só que sem eu nunca ter a certeza disso e passe a vida a especular se sim ou se não, porque se não especulasse, ou não sabias, ou se sabias e eu soubesse que sabias, tu não podias saber que eu sabia que sabias. Não me custa que se as duas soubéssemos que as duas sabíamos de tudo, não pudesse ser. Não me custa nada disto nem cada coisa mais que a anterior. Não. Não me ia doer nada termos que nos afastar porque qualquer complexo na minha cabeça e na tua ao mesmo tempo diria que nem eu nem tu íamos aguentar saber de tudo em águas claras… sem sabermos dizer porquê, se calhar porque essa seria a desculpa perfeita para irmos à nossa vida e, pelo menos eu, morrer-me a cada dia por causa disso. Este pelo menos eu também não me custa.
Não. Não tenho saudades tuas. Nem sequer levo tempo demais a relembrar a meia dúzia de vezes que disseste que me amavas. E também nem tenho medo que se alguma vez te dissesse isto fosses achar que era eu e as minhas utopias parvas ou a ingenuidade de confundir tudo. Não me magoa que a saberes disto fosses achar que estou a ser precipitada. Que te desse vontade de te ires embora. Nem que achasses que eu não seria capaz de separar as coisas, quando já o fiz durante tanto tempo. Nem me ia doer o afastamento, porque ias achar que não podias dar mais de ti, porque ias dar-me esperanças… Esperanças, como se alguma vez as tivesse tido.
Não. Não tenho saudades tuas. Nem me dói que nem sequer possa ser-te confortável, só, mais nada. Que não possas saber disto e vir. Deixar-te estar e ficar.
Não me custa que não possas não ter medo, porque nem podes dizer-me que sabes, se sabes, quanto mais ter medo, isso seria abrir o jogo e isso não pode ser. Não dói nada também o querer proteger-te e retribuir. O não querer nada de ti se não que sejas feliz, mas ter que ficar quieta a ver de longe sem se notar. E é quando dá para ver…
Não. Não tenho saudades tuas. Eu nem sequer me vejo obrigada a inventar-te defeitos só para me justificar ou fingir que justifico o ficar longe. Nem me custa o impasse eterno de nem saber se leste isto, como se leste a centena de outras coisas. E caso sim, se percebeste. E se percebeste, se estás bem. Não me custa nada a bifurcação infindável que é pensar nisto tudo, todas as vezes.
Sabes? Não. Não tenho saudades tuas. Mas menos ainda que as saudades… Não. Não tenho jeito para mentir. Mas, não, não tenho melhor escolha. Sabes? Não. Não tenho saudades tuas. Nem habilidade para me iludir. Mas vamos fingir que sim, a verdade é que custa menos.
E sabes mais o quê? Tenho. Tenho saudades tuas. Mas isso pouco importa. Deixemos ficar as máscaras. Assim, nem eu nem tu temos que ir embora. Tenho. Tenho saudades tuas… e tenho mais uma boa dose de loucura que me faz aceitar isto tudo e nem querer que nada mude. Porque, sabes? No fundo, só gostava mesmo era disso que disse: ser-te confortável. Não mudes nada. Deixa-te na tua. Se é que sabes, finge na mesma que não. Se quiseres, levanta o véu, uma vez por outra, se eu estiver perdida. Dá-me um sinal de que não fiz merda. Isso chega. E de resto, sê feliz. E tenho. Tenho saudades tuas.

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